Nachträglichkeit

FERNANDO GUERREIRO

 

Aura, o nome dado
na psiquiatria do século 19
(Charcot em La Salpétrière)
a um conjunto de sinais,
talvez sintomas,
que preparam a vinda
do que então se designa
por ataque histérico.
Admitamos, assim, que
o corpo se desprende –
o olhar pára, a língua
retorce-se, uma rigidez
súbita suspende os membros
(com eles o pensamento) –
e o paciente constrói
para si, defendendo-se
da bulimia dos outros,
uma máscara (de plumas
e chumbo) de que se
reveste para dar livre
curso ao que lhe envenena
(na linguagem da época,
“contracta”) a “alma”
(ou o que aí, no seu
lugar, se decompunha).
“Il y avait un point
noir, noir, où avait
confluée ma destinée
et, depuis ce jour,
elle demeurait là”,
confia-nos Augustine
dando corpo ao que
nós, noutros horizontes
e climas (espaços ermos
do espírito), relutante
mente encobrimos sob
o nome pires de “poesia”.
No pátio (poema?) os cães
comem-se uns aos outros
deixando uma baba, rala,
adensar-se por entre as palavras.
Noutro canto, alguns seres
de natureza ainda impre
cisa palitam os dentes
deixando cair bocados
de linguagem – adjectivos
que, quando utilizados,
reduzem o valor concreto,
mediúnico, dos substantivos.
Eis o que nos resta:
abocanharmo-nos uns
aos outros na esperança
de alguma carne que
tape, por entre os nervos,
os orifícios por onde
a nossa densidade-
capacidade de sentir –
no mundo se dissolvia.

 

No vídeo, vinha não
o diferido mas as coisas
com os olhos selvagens
com que, na noite,
pela primeira vez,
tinham surgido.
Sim. I see the dead.
Cabelos negros, tão negros
que, se lhes tocássemos,
arriscávamo-nos a ficar
com o coração sujo de tinta.
Ou, o relevo na parede
dos vultos cozidos
pela cinza no rebordo
das figuras – cotão
de sombras de olhar
fixo nas partes inferiores,
moles, do corpo agora
envolvidas pela bruma.
L’amour nous le faisons
dans le noir,
comme des aveugles.

Região convulsa para
onde migrou o rosto –
marulhar de asas
na fresta da falésia
por onde contempla
o mundo -, deixando
o corpo a apodrecer
em fotografias – sujos
objectos de cozinha –
que só nos resta,
em certos dias, mudar
de sítio para tentar
dizer o precipício.
Quantos poemas
lhe sobreviveram?,
todo um livro escrito
por uma mão consumida
para enterrar um rosto
que, deste lado do destino,
nunca devia ter sido visto…
The dead are us, claro,
e eu retomo o lugar,
nos bastidores,
dos monocromáticos
fundos de Munch.

 

“À quoi rêvent les morts?”,
interroga-se, queimando
imagens que lhe tinham
servido para esconjurar,
pelo som, a vertigem
do abismo. E continua:
“À quoi sert un fantôme
sinon à faire l’amour
sur un pallier mouillé
et encombré par les sévices?”.
Como escrever, sim, dar
a ver (enfim, sentir) isto –
a questão (não há outra)
limite da poesia: podem
os mortos (fantasmas) falar?
Tudo se resume a isso:
les bouches d’ombre,
diria Hugo, em que se
confundem os sentidos.
A partir do momento
em que o fazem – há que
os ver sair da sua posição
de silêncio – tudo muda
e confrontamo-nos com
uma situação em tudo
diferente do seu regime
habitual (?) de aparição
(introvertido, colado
à parede – a despegar
-se do fundo de uma tela
de Munch). Com a fala,
aliás, coloca-se outra questão:
será possivel educar
um fantasma?, socia
lizá-lo pela linguagem –
levá-lo a recepções ou
introduzi-lo por fim
no círculo da família?
Combinar excursões,
sei lá, picnics além túmulo?
Pôr-lhe em torno
das ancas rarefeitas
um cinto de ligas?
Tocar num fantasma
(mesmo no imaginário)
é sempre dar forma
ao espaço, modelar
texturas numa matéria
que alguns escultores,
os mais ambiciosos,
retiram (usei outros
verbos: extraem,
distilam) das nuvens.

 

Fernando Guerreiro tem escrito de e sobre várias formas.

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