Catenária

JOÃO PEDRO DA COSTA

 


Estava sentado à secretária, quando reparei na gritaria das gaivotas. Não é costume ouvi-las no quintal, ainda menos em casa, pensei que haveria tempestade no mar. Ao fim de alguns minutos, a gritaria tornou-se mais audível. Levantei-me e fui ao pátio ver o que se passava.
 


O terreno abandonado de um vizinho alberga, a cinquenta metros do limite do quintal, uma torre de alta tensão. Sempre presumi que estivesse desactivada, pois sustém três catenárias oriundas de Sul que não se prolongam para Norte, o que me parecia estranho ou suspeito (percebo pouco de electricidade). A torre, no entanto, tem um valioso préstimo: permite-me identificar com exactidão, e a dois quilómetros de distância, a localização da casa a partir da vista panorâmica que se tem de Canidelo na antiga pedreira da Madalena. Quando não há nevoeiro ou neblina, a torre de aço e as linhas de transmissão tornam-se visíveis a partir do ponto mais alto e belo da colina, do outro lado do vale. À direita de quem olha, vislumbram-se as copas (no Inverno, a ramagem) de uns castanheiros – são os do meu quintal.
 


Era da torre que vinha a gritaria. Dezenas de gaivotas voavam em torno do seu alto num bailado maníaco. Demorei algum tempo até reparar no vulto negro pousado no vértice superior. De início, pensei que fosse uma pessoa: um electricista ou um funâmbulo. Foi só quando me aproximei do muro que percebi que se tratava de uma ave, uma enorme ave cabisbaixa, o pescoço longo em forma de gancho. Afinei o olhar, ainda incrédulo, mas o perfil recortado sobre o céu azulado era, daquele ângulo, inconfundível. Tirei uma fotografia e chamei pela minha mãe: Está ali um abutre, Um abutre?, Um abutre, Não está nada, Está sim, repara. Esperava que me contasse alguma história da infância, de como naquele tempo o céu de Canidelo era crivado de abutres, os lavradores temiam-nos pelo gado, os caçadores prezavam-nos porque lhes indicavam o momento certo para soltar os cães, mas não. Ficou tão boquiaberta quanto eu, jamais vira bicho alado daquele tamanho.
 


Uma rápida pesquisa pela biblioteca confirmou a suspeita: era um abutre-preto, a maior ave de rapina do mundo, cujo dorso excede um metro e as asas três. O facto de a plumagem ser toda negra distingue-o dos grifos que, segundo o verbete consultado, partilham em Portugal Continental o mesmo território: Trás-os-Montes, Beira Interior, Alentejo e Algarve. O que faria um abutre ali, tão perto da grande cidade? Não sabia, mas estava grato com a sua presença.
 


Não arredei pé do posto de vigília até à vinda da Manela. Quando chegou do trabalho, já tinha o nosso filho sentado no muro, mas não havia forma de o fazer interessar-se por tão peregrina visita. O número de gaivotas tinha entretanto duplicado e a gritaria era ensurdecedora. Tamanha inospitalidade não parecia perturbar o abutre, que permanecia imóvel e indiferente. Tirei mais fotografias e partilhei com a Manela a lição que tinha aprendido no primeiro volume da enciclopédia: da localização geográfica da ave em Portugal à diferença entre um abutre, um urubu e um condor, passando pelos seus respectivos étimos em Latim, Guarani e Quéchua. Não foi fácil deixá-lo à mercê das gaivotas para nos dedicarmos aos afazeres do lar.
 


Durante a noite, sonhei com o abutre. Ou melhor: sonhei com um Canidelo oitocentista, dominado por pinhais, soutos e outras árvores de fruto, cursos de água e alfaias, campos e carreiros apinhados de rebanhos e manadas. O quintal estava a ser lavrado por uma fileira de camponeses que, excessivamente trajados, semeavam milho e mondavam as novidades, acossados por uma eira infinda de morangueiros. No terreno do vizinho, no preciso lugar da torre e das suas catenárias, estava um gigantesco aqueduto, de cujo altíssimo desaguadouro jorrava um fluxo de água límpida e incessante, que depois seguia o seu curso pelo leito estreito e sinuoso de uma ribeira em direcção ao mar. A gárgula, no entanto, não era nenhuma grotesca quimera, mas um minucioso, magnânimo e benévolo abutre de pedra.
 


Mal acordei de madrugada, abri a porta à cadela e fui espreitar a torre. As gaivotas tinham partido, mas o abutre continuava no mesmo sítio, agora um pouco mais virado para Norte. Que raio de bicho mais inverosímil, pensei, passou ali a noite inteira, oxalá não esteja ferido ou doente. Quando regressava do pão e entrei na viela, lembrei-me que talvez já o visse e levantei os olhos. Mal o avistei ao longe, no cimo da torre, o abutre levantou voo com um único bater de asas gigantesco, curvou em silêncio na minha direcção e passou-me, a baixa altitude, mesmo por cima da cabeça.
 

 

João Pedro da Costa é música, lavoura e corridas.

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