5 poemas de Dias de Tempestade

JOSÉ DUARTE

 

VI

Atentos ao pregador como um relâmpago
todas as vozes se juntaram para cantar os
uivos da tormenta. Capítulo primeiro:
bem profundos são os abismos da alma
do próprio ventre da baleia.
Sondamos o fundo das águas,
pecadores do
coração empedernido.
Não interessa. É nesta
desobediência que toda
a extensão do mundo
ensaia Sodoma,
enquanto Jonas não reconhecer
um homem honesto com a próxima maré.
O ar circula mal devido
ao peso da alma, cujo sangue
se esvai incessantemente.
O mar revoltou-se por cima
da cabeça de Jonas com
a boca escancarada para engoli-lo.
A lua pálida ilumina tudo em vão.
A baleia cerra os dentes
de marfim.
Apaziguou-se.
Erecto e de olhos fechados ficou
para ouvir dos mais violentos turbilhões.
Ordenou à baleia, com
as orelhas ainda cheias do rumor do oceano,
a verdade, felicidade segura, profunda
e cobriu o rosto com as mãos.

 

XXIII

a alma de qualquer homem
apresenta também a imagem
da velhice.

Sabe-se que é doce.
Essa qualidade torna as suas garras
ferozes

Adão como um deus galopava
em Ohio, através das planícies
a brancura estranha e acessória
repugnante objecto de terror

a maldade humana
reforça todos os homens
imaginação silenciosa
Torre Maldita

da Europa Central tremores de terra
velhas ruínas um terror que
emudece, um cemitério imenso
direis vós

o branco é menos uma cor
do que a ausência dela

A Baleia
Surpreende.

 

XXVIII

uma encruzilhada
que às vezes se revela
a determinados homens.

A história fio negro
                golpe cruel
em pleno coração
da América

o sentimento do
reconhecimento humano
é superior em orgulho.

A verdade é para
se compreender

os homens verdadeiramente
corajosos não se encontram
somente enforcados como
nas litografias os dois ladrões
crucificados

as bombas ouviram-se
intenções de vingança
com expressão tranquila
a temerosa beleza da
enorme massa
                     raios
                     horizontais

o choque

 

XXIX

retratos imaginários
viagens, ilhas de gelo
em mares de sangue e
tinta azul

uma expressão de terror

tudo é raiva e movimento
o contorno vazio à
contemplação de
um mundo perplexo

numa cidade industrial
surge uma nuvem

No Pacífico um
homem selvagem
como Aquiles tenta
regressar a esses mundos
fabulosos

 

XLVIII

se a imaginação quiser concretizar matérias estranhas
é necessário compreender a maior das coisas vivas
até nas mais pequenas células do seu sangue como
se quisessem passados, presentes e futuros sob a
superfície actual da Terra

o tempo começou com o homem por uma ordem
secreta de Deus

Leitor

deixo-te em silêncio no direito de nos indagarmos se,
na longa corrida das gerações, a grandeza original
dos seus progenitores não diminuiu

a lenta exterminação de vastos exércitos

Isto é tudo.

 

NOTA: Os cinco poemas aqui apresentados são parte de um pequeno volume intitulado Dias de Tempestade (2012). Este, por sua vez, resulta de um processo de rasura feito sobre Moby Dick (1851), de Herman Melville (ed. ut.: Relógio d’Água, 2005, trad. Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves). Risquei palavras de capítulos do romance do escritor americano na tentativa de explorar diferentes ideias: a de solidão, a de um homem em busca de vingança, a de uma geografia de nações que, de alguma forma, se afundavam lentamente com a crise económica. Edição utilizada: Relógio d’Água Editores, 2005 (tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves).

 

 

José Duarte é investigador no CEAUL, dá aulas e escreve poesia.

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