Untitled

SANDRA COSTA

 

I

Maurice Tabard, Untitled, 1932

 
Constróis o poema como se esta pudesse ser uma outra
estrada, um outro rio                 se ali visses um rio,
outras as árvores em declinação até ao infinito.

Na depuração da luz, se o mundo se assemelhasse
a esse outro mundo não haveria por aqui qualquer
mistério para resolver, o trilho no centro da imagem
seria de tantas bicicletas que por ali passaram
em direcção ao que existe para além da nublada
perspectiva das coisas.

Quando olhas vês uma estrada         como vês um rio
e tudo transborda de sombras, de luz e de árvores.

 

II

Dorothea Lange, Day Sleeper, 1943


 
O ângulo de luz da manhã sobre a porta da casa no estaleiro
é o mesmo de Hopper sobre a solidão do quarto junto ao mar.
Alguém dorme em turnos em tempo de guerra não se importando
com a geometria das sombras ou com o que fazes da contemplação
de uma placa enferrujada pelo sal apregoando o silêncio.

Tantos anos depois do sono atravessado pelo olhar de Lange,
em que verso, em que ângulo, te deténs à espera do poema?

 

III

Dorothea Lange, Day Sleeper, 1943


 
1950, nas ruas de Tiger Bay. A chuva deixou
um travo de luz sobre os telhados, a estrada e o
passeio onde esperas, prefiro pensar assim,
sabe-se lá por quem. Do teu lado direito, a casa
prolonga-se como o teu olhar         como um verso
que bate no dorso da tarde e não volta cheio
de sílabas nem de música. Cai uma sombra sobre
esse plano da fotografia e traças com o silêncio
uma linha, uma haste para nenhum lugar onde
o Inverno é tão só a floração do medo.

 

IV

Edwin Smith, A House on the Edge of the Village of Irsina, 1963


 
No livro das igrejas abandonadas, há um poema
sobre milagres e folhas de cerejeira que caem uma
de cada vez ao chão de uma igreja sem tecto. Quando
se acabam as folhas vermelhas e a árvore se inclina
à brancura do inverno, deixa de haver nomes ou sinais
que abriguem qualquer pedido. Caísse ainda uma
das folhas que agora servem de cama às duas ovelhas
que lá dormem e eu apanharia a roupa do estendal
antes que o vale ficasse sem luz e aguardaria junto a esta
mesma árvore aquele preciso momento em que todas
as histórias acabam com um final feliz ou em que os
milagres são uma casa iluminada pelas sombras.

Nota: Referência ao poema «As folhas da cerejeira», do livro de Tonino Guerra, O livro das Igrejas abandonadas (p. 45), Assírio & Alvim, 1997.

 

V

Dr. Paul Wolff e Alfred Tritschler, Autumnal Atmosphere in Frankfurt, anos 30


 
Frankfurt, 1930. Um homem caminha de cabeça baixa,
numa rua carregada de neblina, talvez pela manhã. Com
excepção da árvore pela qual já passou, poderia ser um
plátano enquanto jovem, tudo o mais são contornos
esfumados: outros homens, imagino que em passos ou
em pausas de rotina, um carro parado ou em movimento
na rua empedrada e ao fundo as torres quase suspensas,
quase invisíveis, de uma igreja, talvez a catedral. Tudo
é possível se o homem caminha de cabeça baixa, pelo
peso da mochila, do frio ou da solidão.

 

VI

Mark Steinmetz, 1991-2012


 
A inundação podia ser esse estado perfeito em que
os contornos do mundo se dissolvem, onde tudo se
interrompe como uma possibilidade em repouso
sobre o avesso das palavras, onde o curso das árvores
é tão abandonado como o curso dos rios, onde as
imagens se dobram sobre si mesmas como duas
crianças de mãos dadas que se riem pela primeira
vez ou aperfeiçoam, trémulas, uma oração que
cresce, dispersa pela poesia.

 

VII

Norman Parkinson, The Iron Road, 1947


 
Uma mulher espera numa pequena estação, em pose cinematográfica. GWR, Great Western Railway, lê-se no banco sobre o qual se senta e cruza as pernas como se aquele momento fosse apenas mais um retrato sobrevivente à guerra. O casaco Aquascutum revela o que encobre, um corpo em falso perfil, enquanto as mãos observam o silêncio, suspenso na trajectória que o tempo percorre entre os pensamentos mais secretos e as circunstâncias que teimas em imaginar.

Em primeiro plano, aquilo que te parece um motociclo, com uma película turva que entorpece os pormenores, e uma bicicleta junto aos anúncios e avisos que ninguém lê. Há também uma janela, talvez em guilhotina, embora o ângulo não seja o melhor para afirmares com certeza absoluta o atributo que, neste caso, a abertura não revela.
Fixas, uma outra vez, o olhar na cobertura que expõe a sombra sobre a mulher que espera na pequena estação ou as sombras na fotografia a preto e branco e percepcionas que ali mora um lugar sensível à luz, um lugar oblíquo que estabelece o contraste entre o que escurece e o que clareia, entre frágeis certezas e as histórias possíveis que só agora consegues capturar, um lugar sem nome, à espera.

Em fuga, quase num ponto, mas em lenta composição, o comboio aproxima-se e o que é real, o que é o amor, começa a quebrar-se.

Nota: texto publicado no n.º 5 da Revista Flores do Verde Pinho da Escola Secundária de Vilela, número inteiramente dedicado à letra D.

 

VIII

Bert Hardy, Boys with comic, 1940


 
1940, nas ruas de Liverpool. Quatro rapazes
leem um livro de banda desenhada, como se não
houvesse outro tempo nem outro lugar, enquanto
comem maçãs junto a uma montra repleta de fruta.
O abandono é tão real que tudo o resto é como
o vento estendido nas cordas da roupa: não existe

pelo que escondo nas dobras silenciosas do poema
a contradição entre a abundância e o clarão
da guerra que vacila no capacete de um deles.

 

Sandra Costa é professora de História e, por vezes, escreve poemas.

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