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JOÃO PEDRO DA COSTA (texto)
MATHILDE FERREIRA NEVES (montagem fotográfica)

 

A cena mais antiga de que me lembro
é estar sentado na varanda
de um rés-do-chão em França. É uma
memória difícil, distante de névoa,
onde tudo se esbate sem cor.
Acossado pelo granizo que se abate
lá fora, apenas consigo lembrar-me
de uns soldados de plástico dentro
das mãos pequenas, da sombra dos
meus irmãos pelo pátio e de uns calções –
lembro-me que talvez estivesse calor.
Porém, no seio destas imagens turvas
e silhuetas difusas, ergue-se, desde
logo, a presença nítida do meu pai.

O meu pai era um homem bonito.
Nesta primeira recordação, ele já
deveria ter quase sessenta há anos
e eu três há pouco. Procuro que me
entendam: estou a falar de uma nitidez
de película, do processo químico
que faz sangrar o desmando da cor
e a profundidade dos campos sobre
o amoníaco do papel. Está deitado
e perto, muito perto, de mim. Uma
proximidade porventura excessiva
se de uma primeira lembrança: para
poder falar dele, preciso primeiro
de me levantar da cadeira, olhar pela
janela, dar uns passos pela sala.
Isto é, afastar-me um pouco. Um nada
de um pouco. Apenas o espaço
necessário para conseguir desenhar
uma a uma as palavras que nos tornarão
por fim distintos. Ele tem uma camisa
azul axadrezada de manga curta.
Calças cinzentas, sapatos pretos.
Os olhos já têm ali o fulgor em que
ainda hoje adormeço, mate de líquenes
por florir nos penedos do Gerês,
cor que para sempre procuraria
em vão na filigrana de outros olhares.
Lembro-me da tez precisa da pele seca,
a beata presa na orelha, os nós
da mão direita calejados de tanta carta
batida sobre as mesas dos cafés de
Vizela, Areosa, Mulhouse, Canidelo.

Nos três álbuns que a minha mãe
preserva da família, há apenas uma
fotografia desse período. Não sei
explicar porquê, presumo que tenha
havido mais, resta apenas aquela.
Estamos os dois bem no centro: eu
ao seu colo, à esquerda de quem
olha, num plano médio cujo
enquadramento lhe corta as pernas
pelos joelhos. Ao fundo, a vedação
e as flores do jardim do senhorio,
o pátio só pode ser o mesmo.
Não sei quando a vi pela primeira vez,
desde que me conheço que me lembro
dela. O meu pai está a olhar e a sorrir
para mim, adivinho-lhe um palavrão
nos lábios, era muito dado a eles
quando se embevecia. Suspeito agora
que o que pensava ser a memória
mais remota não passará de uma ilusão
motivada por aquela fotografia:
a roupa que traz vestida é a mesma,
há soldados de plástico nas suas mãos
e eu finto a câmara e o meu erro
com um ar muito convencido.

 

João Pedro da Costa é música, lavoura e corridas.
Mathilde Ferreira Neves é artista de variedades.

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