The Winning Powder

DANIEL JONAS

 

Ela compara embevecida a heroína
a caramelo tirando-lhe o açúcar e senta-se na cama ao pé
do ursinho de pelúcia
que eu comparo ao Winnie the Pooh.

O Winnie the Pooh tem um olhar resoluto e despiciente
como se soubesse exactamente o que quer
e o que não quer ver. Aliás, parece-me mesmo molestado
pela comparação ao caramelo dessa substância tão adulta
e tão pouco que ver com jardins e grutas na erva.
Aquele caramelo e o Winnie the Pooh
jamais poderiam fazer parte de uma qualquer família semântica!,
isso é o que o Winnie está mesmo a pensar.

Não. Posso ver agora que não era nada disso que o Winnie
estava mesmo a pensar. A sua ternura é evidente, o brilho nos olhos
inimitável. Ele não estava a julgar nada! Ele estava à espera
que ela acabasse o caramelo para que se deitasse abraçada a ele.
O malandro queria é que ela deixasse o que estava a fazer
e se fosse agarrar também a ele,

queria-a agarradinha a si
também.

O nosso Winnie the Pooh é mesmo um agarradinho!

Eu posso ver agora o ursinho depois do caramelo em pó
a ganhar proporções trágicas de Herowinnie the Pó,
após o meio-dia dos olhos dela,
semicerrados como garras desatentas
ou cansadas de mais. Após o pó, pobre Winnie de pó,
com um hálito tramado a caramelo tirando-lhe o açúcar.

E a resgatar daquele assombro de pratas uma dúvida me sobreveio:
se a ela se ao Winnie,
cada vez mais afundado na coisa,
cada vez mais afundado nela,
cada vez mais Winnie the junky.

E eu imaginei um funeral Winnie ao pó
envolto em mortalhas de prata
trasladado para um pêlo de prata
com uma lágrima castanha inalcançável
como uma bolha para sempre desnivelada,
como gota que agarrada cumpriria a ambição de todos os junkies
e isso era o final do jogo e a tardinha e depois a cama
e o ursinho como prémio
e amanhã é para vir num instante:
mais tropelias e brincadeiras estão já prometidas,
o sol não vai faltar quase de certeza,
lá iremos nós com todo o corpo e toda a alma
a fazer peito p’rá coisa.

Lá iremos nós.

Mas por momentos vejo o Del Pó, Viny man
armado em chulo e em chuto
de óculos escuros e fato Armani, el gran fornicador
a fazer-lhe a vida negra, agarrado a ela
com grifas espartanas e cobiça romana
a espancá-la com doses inadiáveis e uma pressão enorme
lá em baixo no seu pelo calibra,
lá em baixo, a fazer a ronda.

E no calibre do seu olhar nota-se-lhe a potência
da pelúcia e do cabedal,
Viny erguido do pó, tenso de movimentos:
Are you talkin’ to me?,
porque ele bem sabe do que fala,
ele bem sabe, ela sem base.

E a chuva que não veio
tornou-nos a todos mais sequiosos.

Semáforos pedradíssimos
com uma triste gama de três cores,
semáforos que conhecem bem o vazio e a desolação
e os braços frios,

 

Daniel Jonas é poeta, dramaturgo e tradutor.

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