O volume do desejo

CRISTINA ROBALO

 

    Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
    não chegam à alma do tecido
    onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
    nobres, ar em redor da cabeça, fogo
    que o ar sustenta,
    e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
                                                                                                                              nascente –
    se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
    tem de arrancá-las: nervos,
    cartilagens, linhas
    de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
    dúctil, dócil.
    pronta
    para o jeito dos dedos e a força da boca:
    da respiração desde o começo
    do fio ao extremo – se o fio é longo
    para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
    do recôndito, se um como que brilho de hélio
    é muito para a bexiga,
    língua,
    cerebelo –
    que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
    num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
    astros em bruto,
    o escuro
    – e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
    pesos de osso.

    HERBERTO HELDER, A faca não corta o fogo

 

No poema em epígrafe, Herberto Helder fala de um corpo onde o fio acaba nos dedos, o fio vivo. Mostra-me o princípio do tecido que compõe o volume, a massa, o peso, a pele, o osso do corpo. Este fio que, dentro e fora, trabalha o corpo entrelaça-se na trama do tecido, compondo o seu volume. Determina, assim, um espaço percorrido pelo fio [que] acaba nos dedos [e que] não chegam à alma do tecido. No interior e exterior, o convexo e o côncavo, os elementos nobres, ar em redor da cabeça, fogo que o ar sustenta, criam energia – fazem mover o corpo que, pelos remoinhos trazidos ao tecido, dinamizam a fusão dos dedos na matéria. Pela dinâmica do movimento e da energia, o tecido estica-se, alarga-se, contrai-se e expande-se, desencadeando o ar fresco e/ou quente e o calor do fogo que, dentro e fora, inicia o som da respiração: bafo.

Em Herberto Helder, o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras e, de tal modo atiça o tecido que, pela vibração produzida na sua trama, faz com que as fibras arranquem o interior deste corpo: nervos, cartilagens, linhas de glóbulos. A força com que este bafo faz movimentar o tecido manifesta uma electricidade que desarruma o interior. O bafo funciona como uma mediação entre interior e exterior que, através da respiração1, vibra e faz vibrar a voz do corpo.

Existe um espaço interior e um espaço exterior do corpo, onde se trocam forças, pela potência do bafo. No espaço interior, a “inscrição de conteúdos”2 determina a relação do corpo com o espaço exterior: se no interior, o corpo conserva dentro de si inscrições da memória, das sensações, das emoções; então, no exterior, o corpo também é uma “superfície de inscrição”3 – a pele é o tecido que, como um filtro, prepara a matéria nascente.

A desarrumação interior, provocada pela força do bafo, é com o espaço exterior, preparação da matéria nascente: coá-la, à substância difícil, torná-la dúctil, dócil. É preciso voltar ao princípio na preparação da matéria porque se os dedos não chegam à alma do tecido, então a matéria nascente tem de ser filtrada, peneirada para que a substância difícil seja elástica, macia e flexível para o jeito dos dedos e a força da boca se juntarem do fio ao extremo. A respiração actua naquilo que constitui o interno e o externo do corpo como uma voz que, sem palavras, obedece à sua força: lança o bafo e, sem hesitação, obedece ao estiramento do fio. Convém salientar que o estiramento do fio está relacionado com a sua preparação, no sentido de tornar esta matéria maleável e alcançar a fusão com a armação (osso), pois se o fio for puxado, ao invés de ser desenrolado-enrolado e esticado-dobrado, desfaz o tecido. Este fio nunca é puxado e, embora a força do bafo faça com que o interior seja arrancado, o tecido não é desfeito mas sim refeito com mão técnica toda adentro põe e tira do recôndito.

A mão é a protagonista que, na relação entre um espaço interior e um espaço exterior – pelo movimento de pôr e tirar –, dá a ver a construção. Não se trata de uma mão qualquer, mas de uma mão técnica que repare o tecido e que deixe o corpo tapado, escondendo nervos, cartilagens, linhas de glóbulos.

Pela imagem da mão técnica, Herberto Helder mostra não só a passagem entre interior e exterior, mas confere a este corpo a reparação. Por outras palavras, a mão funciona como ferramenta que, perante o corpo exposto, consegue com a sua técnica [deixar] o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo. Ou seja, a mão é a corrente que permite fazer o trabalho: é a inscrição interior e exterior que, ao encontro da fusão, põe e tira.

Este corpo vivo segue um caminho iniciado pelos dedos, que não conseguem chegar à fusão da matéria nascente e percorrem o interior que, exposto, é exterior. E, no entanto, o interior é tanto mais interior quanto o corpo [é] tapado; por um lado, sabemos da aproximação da morte: o corpo morto, hão-de um dia abri-lo. E, por outro lado, observamos a imagem depois da morte: o pneuma por um cano de ouro, astros em bruto, o escuro. Num abalo, o corpo morto e a morte juntam-se, trazendo luz – quer pela imagem da respiração, que percorre um caminho por um cano de ouro, quer na imensidão dos astros em bruto: o escuro.

O escuro, a noite e a terra negra são imagens que conservam poder pela possibilidade de descobrir um ponto de luz. Os olhos procuram na noite escura ver uma luz que ilumine o caminho, tal como as mãos activas tacteiam na terra negra um achado precioso. Herberto Helder não larga o corpo depois do escuro, os dedos continuam o caminho, conforme o iniciaram: pelo fio vivo.

Este fio deu-me a ver o rasto no percurso realizado – o traço deixou de fazer o esboço e o fio já não é mais linha. Também os dedos não chegaram à alma do tecido, foi necessário a acção da mão técnica que, perante o fio longo, fez. E, no entanto, os dedos avançaram e, como indicadores de luz, mexendo em medidas de sangue chegaram à armação do corpo – pesos de osso. As pontas dos dedos moveram-se e, como olhos, iluminaram o caminho até ao fim da viagem: o corpo é, agora, fusão de matéria.

A relação do espaço interior com o espaço exterior revela tanto a necessidade dum como do outro, porque o reconhecimento só é possível através do exterior. Na passagem de um a outro, a correspondência ‘do dentro’ com ‘o fora’ conduz a correntes de energia que desejam superfícies de inscrição e de fusão. São essas correntes de energia que conservam o desejo da vida sobre o escuro da morte – elas intensificam a força da acção.

Espreitei a imagem do corpo que Herberto Helder me deixou espreitar: o corpo humano deixa adivinhar um corpo escultórico que, pela acção da mão técnica, tacteia, apalpa, conduz e faz – a mestria dos dedos une, na vida e na morte, ambos os corpos.

 

Image 5

Image 6

GRAFITE E LINHA SOBRE PAPEL, 2013

 
__________

NOTAS

1 Enciclopédia Einaudi 32, Corpo: “Que é o corpo? É uma respiração que fala. A respiração (Pneuma) implica, no tempo, a unidade e uma continuidade, mas não cria o espaço unificado de tal continuidade. (…) dado que a respiração é uma mediação permanente entre o interior e exterior do corpo, uma passagem, ela contém em si mesma a possibilidade de expressão”, p. 242.

2 José Gil, Metamorfoses do Corpo, p. 182.

3 Ibid.: “(…) todo o invólucro exterior se torna superfície de inscrição (…)”, p. 180.

 

Cristina Robalo é artista e investigadora.

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