Não sei para onde vou

GONÇALO ROBALO
JOÃO PAULO OLIVEIRA

 

INTRODUÇÃO

Não sei para onde vou é uma ficção filmada como um falso documentário, espécie de diário visual pessoal e rudimentar de um ambicioso filme de ficção que vai ganhando forma na cabeça do seu protagonista, Manuel Reis, um jovem aspirante a realizador.

Perante a impossibilidade de filmar um épico em 35 mm, Manuel grava em digital versões amadoras das cenas que fervilham na sua cabeça, num registo naïf, e regista momentos quotidianos das pessoas à sua volta (e que servem de inspiração às personagens e situações do seu filme). Nesta manta de retalhos, vislumbramos simultaneamente o épico que fervilha na cabeça de Manuel e a própria história deste jovem.

Este filme é ainda um trabalho em curso. Nas cenas que se seguem, apresentamos algumas personagens, a forma e o tom de Não sei para onde vou.
 

ARGUMENTO

CENA 01
INT. QUARTO DE MANUEL REIS, AVENIDAS NOVAS, LISBOA (FINAL DE TARDE)

Imagem de um programa de edição de imagem no computador. Sobre um fundo negro, vê-se o seguinte título:

cena1

Instantes depois, “PAZ DOS” é adicionado ao nome e o “U” em “MANUEL” é substituído por um “O”, passando o filme a ser assinado por “Manoel Paz dos Reis”. O tipo de letra, bem como o tamanho, cor e posicionamento na imagem, muda.

Ouve-se a voz de Manuel Reis (25 anos), a ler pausadamente estas informações:

    MANUEL (em off)
    “A ruína e a cidade”
    um filme de
    Manoel Paz dos Reis.
    Hum…

O cartão com o título do filme e o nome do realizador é novamente alterado no computador. Primeiro, o título A Ruína e a Cidade transforma-se em Não sei para onde vou. Depois, o nome “Manoel Paz dos Reis” é novamente substituído por “Manuel Reis”. A posição destes dois blocos (título do filme e nome do realizador) também é alterada na imagem. Finalmente, o fundo negro é substituído por um plano fixo da Gare do Oriente:

cena12

 

CENA 02
INT. QUARTO DE MANUEL REIS, AVENIDAS NOVAS, LISBOA (MANHÃ)

Num grande plano, vê-se em destaque o ecrã de um monitor panorâmico sobre uma secretária e vislumbra-se um pouco da confusão na secretária. O espaço está bem iluminado, graças à luz natural da manhã que entra pela janela aberta. Em frente ao monitor, está um teclado e um rato, sobre o qual repousa a mão de um jovem de vinte e poucos anos. No ambiente de trabalho do computador (à direita), destaca-se uma reprodução do quadro O Sonho, de Henri Rousseau, em tons de verde, amarelo e laranja, uma imagem pontuada pelos mais variados ícones.

cena02

A mão move o rato e clica num botão. Há um corte na imagem, para um plano de pormenor de parte do ecrã do monitor, onde se vê um navegador aberto no Gmail. No topo da lista, por abrir, está um e-mail com o título Programa de Apoio à Produção de 2º Longas-Metragens de Ficção – 2016. Ouve-se mais um clique no rato e esse e-mail é aberto.

    MENSAGEM NO CORPO DO E-MAIL
    “Encarrega-me o Diretor de Departamento do Cinema e Audiovisual de remeter a V. Exas. a documentação em anexo.”

Ouvem-se as mãos do jovem a bater na madeira da secretária, imitando o som de um tambor e seguem-se uns instantes de silêncio. O ponteiro do cursor desloca-se até ao anexo e, com dois cliques, o PDF é aberto.

Seguem-se planos de uma parede no quarto, onde se vislumbram os títulos “ZAILA” e “A RUÍNA E A CIDADE” sobre inúmeros desenhos e imagens de espaços urbanos devolutos.

    MANUEL (em off, numa voz grave e pausada)
    Rua Bulhão Pato, em frente ao antigo cinema King. Esta história começa no dia 5 de janeiro de 2017, às oito horas e vinte e quatro da manhã. O meu filme, que então se chamava A ruína e a cidade, não foi escolhido.

Sucedem-se algumas imagens picadas do exterior da casa, captadas a partir da janela do quarto de Manuel: a rua e o espaço do antigo cinema em frente e a linha de caminho de ferro ali ao lado.

    MANUEL (em off)
    Há três anos e dois meses, em novembro de 2013, vi aqui a Viagem a Tóquio, de Yasujiro Ozu, no último dia em que este cinema esteve aberto.

Vê-se, ao nível da rua, a entrada do antigo cinema.

    MANUEL (em off)
    Lembro-me de espreitar as filas à porta. Lembro-me dos filmes estarem em exibição meses a fio. Passei tardes inteiras neste cinema, a saltitar de sala em sala. Sempre sonhei estrear aqui um filme meu, com direito a fila à porta e a muitos meses em cena. “Não sei para onde vou” nunca será exibido aqui, mas a sua história começa na memória deste cinema que me viu crescer.

Segue-se uma imagem da fachada e da entrada do prédio de Manuel, captada a partir do exterior, ao nível da rua. Por entre o vidro da porta, vemos Manuel emergir do interior do prédio. Tem nas mãos uma mala de tripé e outra de onde tira uma câmara. Ao abrir a porta do prédio, vislumbra-se o reflexo da câmara que o filma e do respetivo operador, Chico, um amigo de Manuel, da sua idade. Depois de sair do prédio, monta o tripé uns metros em frente à câmara. Demora-se a fazer o enquadramento e, por fim, ergue-se novamente e fala para a câmara.

    MANUEL
    Este meu filme já teve muitos nomes: Um homem na cidade, Rota da podridão, A cidade e a ruína, Zaila,… Começou por ser um drama social realista. A mais recente versão chama-se Não sei para onde vou e é uma fantasia delirante. Não sei se alguma vez a filmarei. Aqui, [MANUEL sorri um largo sorriso] para a posteridade, registo o processo de criação deste meu pequeno delírio.

Vemos o contra campo filmado por Manuel: uma imagem que enquadra a primeira câmara e o respetivo operador, Chico. Em fundo, um comboio sai da estação do Areeiro.

    MANUEL (em off)
    Este é o diário de Não sei para onde vou.

 

CENA 03
INT./EXT. SALA DE ESPERA/ZONA DE RECEÇÃO DE CENTRO DE SAÚDE (MANHÃ)
INT. QUARTO DE MANUEL REIS, AVENIDAS NOVAS, LISBOA (MANHÃ)

A imagem, um plano muito aberto, mostra o movimento matinal na zona de receção de um centro de saúde: os rececionistas a receberem os pacientes e estes a dirigirem-se para cadeiras onde esperam por ser chamados. Em off, surge a voz de Manuel Reis:

    MANUEL (em off)
    Esta é a primeira versão de Não sei para onde vou, quando era um drama chamado Zaila: Na sala de espera de um centro de saúde, uma mulher moçambicana, Zaila, discute com a rececionista. Zaila não está legalizada e não se pode inscrever no centro. No entanto, consegue rebater cada recusa com uma lógica desconcertante. João, um homem de cinquenta anos, assiste à discussão. João tem um filho de 14 anos, uma saúde frágil e está em vias de concluir o processo de divórcio da sua esposa, Carla. Enquanto observa esta conversa, apaixona-se por Zaila.

Aqui, a imagem passa do interior do centro de saúde para uma imagem da fachada.

    MANUEL (em off)
    Quando é levada para a rua pelo segurança, João levanta-se e segue Zaila. Lá fora, tenta ajudá-la e apresenta-se.

Segue-se um plano de um casal, visto de costas, a caminhar numa rua movimentada.

    MANUEL (em off)
    Nos meses que se seguem, Zaila e João tornam-se inseparáveis e começam a viver como uma família. Mauro, o filho devotado de João, trava uma amizade improvável com Zaila. Por seu turno, Carla, a esposa de João, trava o processo de divórcio, impedindo João de se casar com Zaila e precipitando a deportação desta.

Vemos agora uma imagem da parede do quarto de Manuel, onde se encontram reproduções de cenas de hospitais psiquiátricos em filmes, incluindo uma imagem de Luís Miguel Cintra no hospital Miguel Bombarda em Bodas de Deus, uma cena de Voando sobre um ninho de cucos e outras que refletem a loucura deste personagem.

cena3

    MANUEL (em off)
    Quando Zaila parte, João fica muito perturbado e é internado num hospital psiquiátrico. Mauro sabe que o pai é louco por Zaila, literalmente louco, e que só estando com ela poderá sair daquele estado. Assim, engendra um esquema para libertá-lo. Com a ajuda do filho, João foge para Moçambique em busca de Zaila.

Surge um mapa de Moçambique com vários locais assinalados e setas a ligar diferentes localidades.

    MANUEL (em off)
    Percorre o país, seguindo obstinadamente inúmeras pistas.
    Por fim, Zaila encontra-o às portas da morte numa rua em Maputo.

 

CENA 04
INT. QUARTO DE MANUEL REIS, AVENIDAS NOVAS, LISBOA (MEIO DA TARDE)

Manuel e Rita (25 anos) estão sentados em frente ao computador. A luz do ecrã ilumina-lhes as caras num tom azulado. Os estores estão corridos e uns raios de sol fortes pontuam as cortinas claras, que ondulam ligeiramente. A câmara enquadra os seus rostos ligeiramente de lado.

    RITA
    São sete cães a um osso.

Rita olha para a câmara.

    RITA
    Estás a filmar isto?

    MANUEL
    Não…
    Vou mandar o realismo social para o caralho.

    RITA
    Boa! [PAUSA] Transforma isso numa comédia romântica. O Pretty Woman também esteve para ser um drama sobre a prostituição em Los Angeles.

    MANUEL
    Hã?

    RITA
    O Pretty Woman

    MANUEL
    Estou mais numa de escapismo onírico.

    RITA
    Como assim?

Rita olha de novo na direção da câmara.

    RITA
    Olha que já estou farta das tuas brincadeiras.

    MANUEL
    E se escrevesse um musical? Uma merda old school. 35 mm e technicolor, como nos filmes do Minnelli. Cinemascope! [sorriso malandro] Um musical apunkalhado.

    RITA
    Mas tens alguma ideia?

Manuel pega outra vez no rato, faz uns cliques. Começa a ouvir-se som do computador. São as notícias: o rescaldo de um tiroteio recente nos Estados Unidos. Rita olha para Manuel, confusa.

    MANUEL
    Só acontece merda. Refugiados, tiroteios, atentados…

    RITA
    O que é que o cu tem a ver com as calças?

    MANUEL
    Nestas alturas, é preciso [Manuel assume tom pomposo], qual avestruz, enterrar a cabeça no escuro do cinema e procurar a luz nas sombras projetadas no ecrã.

Rita olha outra vez desconfiada para a câmara. Começa a levantar-se.
 

CENA 05
INT. COZINHA NA CASA DE MANUEL REIS, AVENIDAS NOVAS, LISBOA (NOITE)

Com a câmara nas mãos, Manuel filma a mãe, Luísa, e o irmão, Mário. O irmão corta legumes numa tábua de corte na bancada da cozinha, enquanto a mãe está num vaivém constante, entre o refogado ao lume e os legumes cortados na bancada da cozinha. A câmara de Manuel procura simultaneamente captar as intervenções da mãe e do irmão, e toda a movimentação na cozinha.

    MANUEL (fora de campo)
    Qual é a tua primeira memória de Lisboa?
    Lembras-te como os avós foram recebidos quando vieram de Moçambique?

    LUÍSA
    Trouxe uma boneca de lá. Na altura, tinha dez anos e até já nem ligava muito ao raio da boneca. Mas durante toda aquela viagem, não deixei ninguém tocar-lhe.

    MÁRIO
    Aquele farrapo que está na cadeira no vosso quarto?

    LUÍSA
    Sim [Luísa ri-se]. Quando chegámos e vi aquela gente toda no aeroporto, agarrei-me ainda mais a ela. Não fomos logo para a aldeia. Ficámos uns dias em Lisboa, na casa da tia Zé.

    MANUEL (fora de campo)
    Mas é só isso? Uma boneca…

    LUÍSA
    Espera! Um dia, estava com o teu avô, já nem sei onde íamos, mas era de elétrico. Ao subir as escadas do elétrico, no meio da confusão, ela caiu, eu virei-me para a apanhar e tropecei e caí redonda no passeio. Fiquei com os joelhos e braços todos esmurrados na calçada ao lado do elétrico. Mas o que mais me lembro é o olhar do meu pai, o teu avô… abraçou-me com tanta força. Queria ajudar-me, mas tinha um olhar vazio, os olhos muito vermelhos. Se a tia Zé não tivesse aparecido naquela altura…

    MANUEL (fora de campo)
    E lembras-te de alguma coisa de Moçambique?

    LUÍSA
    Claro! Gostava muito da estação de comboios em Lourenço Marques, onde o teu avô trabalhava. [Pausa] Agora é a estação de Maputo, claro. Era um sítio meio mágico, mas também me enchia de medo. Queria sempre lá ir, mas depois passava o tempo agarrada aos meus pais.
    Uma vez, fomos visitar uns primos afastados dos avós à Rodésia. Naquela altura chamava-se Rodésia. O comboio sai daquela estação antiga e imponente. Eu adormeço logo a seguir e, quando acordo, estamos a atravessar a selva, com o som dos carris a ouvir-se muito, muito.

    MANUEL (fora de campo)
    Como eram os avós lá?
    Os vossos amigos eram todos brancos?

    LUÍSA (levemente irritada)
    Os avós eram maravilhosos lá! Claro que não.
    Já chega de perguntas, Manel. E se fosses ajudar o teu irmão a pôr a mesa?

cena05

 

CENA 06
INT. SALA DE ENSAIOS DE TEATRO (DIA)

Num pequeno palco, a câmara filma, num plano fixo e muito aberto, Luís (64 anos) sentado numa cadeira metálica grande e preso por umas amarras. Está absolutamente inerte, com um olhar distante. A poucos metros da cadeira, encontra-se uma cama de hospital e, do lado oposto, a igual distância, uma cadeira normal de madeira. De pé, junto à cadeira onde Luís está preso, está Chico, o amigo de Manuel, muito sério/concentrado, vestido com uma bata de enfermeiro. Por detrás da cadeira, está uma porta. Alguém bate à porta. Chico dirige-se solenemente até à porta e abre-a, revelando Manuel, que se precipita na direção de Luís e começa a abrir as fivelas das amarras. Chico corre atrás dele e impede-o.

    CHICO (no papel de enfermeiro)
    Porque é que insistes, rapaz? Não vês que não te serve de nada.

    MANUEL (no papel de Mauro)
    E se fosse o teu pai amarrado à cadeira?

    CHICO (no papel de enfermeiro)
    Vá, comporta-te! Senão só o voltas a ver para a semana.

Manuel puxa a cadeira de madeira e senta-se junto a Luís. Segreda-lhe algo ao ouvido (impercetível), perante o olhar atento de Chico, que entretanto pega no telemóvel.

Luís interrompe a atuação.

    LUÍS
    Ó Manel, desculpa lá, há aqui uma coisa que não entendo.
    Se eu… se o João, o pai, está catatónico, porque está amarrado?

    CHICO
    Pois é Manel, porquê que ele está amarrado?

    MANUEL
    Cala-te Chico.
    Está vidrado, porque foi sedado… até te podes babar um pouco.

    LUÍS
    Então, mas foi sedado porquê?

    CHICO
    Ya?!

    MANUEL (lançando um olhar irritado a Chico)
    Porque tentou fugir.

    LUÍS
    Fugir para onde?

    MANUEL
    Para a Zaila.

    LUÍS
    Mas a Zaila existe?

    CHICO
    Eh pá, professor. Nunca tinha pensado nisso… é todo um outro filme!

    MANUEL (tenso)
    Talvez.

    LUÍS
    Talvez???… mas tens que saber! Ou não sabes?

    CHICO
    Não me digas que não sabes?

Manuel olha outra vez irritado para Chico.

    MANUEL
    Mas não pode ficar em aberto? Tipo ambíguo? O que acha?

    LUÍS
    Tens de saber o que queres, Manel. Sim, pode ficar…, mas olha que isso tem implicações. Pensa bem no filme que queres fazer. Para ficar em aberto, tens de lançar a dúvida. Por exemplo, para o João ela pode ser absolutamente real, mas se calhar o Mauro nunca a conheceu e não acredita que ela exista. Queres tentar fazer a cena assim?

    MANUEL
    Sim… podemos tentar…

Há um corte na imagem. Manuel desapareceu da imagem e Luís e Chico estão novamente nas posições iniciais. Luís está agora a babar-se um pouco. Manuel bate novamente à porta e todo o movimento inicial da cena é repetido: Chico dirige-se solenemente até à porta e abre-a, revelando Manuel, que se precipita na direção de Luís. Desta vez, em vez de abrir as fivelas, olha indignado para Chico.

    MANUEL (no papel de Mauro)
    Isto é coisa que se faça?

    CHICO (no papel de enfermeiro)
    Ele tentou fugir outra vez.
    Quer que o deixemos ir assim sozinho para a rua?
    Zaila, Zaila… o homem não se cala.
    Aposto que essa mulher nem existe.

    MANUEL (no papel de Mauro)
    E se não existir? Qual é o mal?
    Já não se pode sonhar?

Manuel puxa da cadeira e senta-se ao lado de Luís, olhando de soslaio para Chico, excessivamente raivoso. Depois, sussurra algo ao ouvido de Luís, baixo, mas suficientemente alto para se perceber o que diz.

    MANUEL (no papel de Mauro)
    África. Vai para Moçambique. Ela está lá.
    A Zaila está à tua espera.

    CHICO (no papel de enfermeiro)
    Mas o menino está doido ou faz-se?
    O quê que pensa que está a fazer.

Depois de dizer estas palavras, ouve-se um toque de telemóvel. Manuel e Luís olham para Chico, que tira o telemóvel do bolso, atrapalhado, e olha para o ecrã do telemóvel.

    CHICO
    Desculpem, mas tenho de atender.
    [Dá um toque no ecrã]
    Estou, mãe…

O ecrã fica negro. Em seguida, surge um plano aproximado de Luís, preso à cadeira. Manuel sussurra novamente algo a Luís e desamarra discretamente as amarras que prendem Luís à cadeira. Depois de soltar Luís, ouvem-se as rodas da cama a rolar e um estrondo.

    CHICO (no papel de enfermeiro, fingindo-se ferido)
    Ai… ai… Está louco!

    MANUEL (no papel de Mauro, a gritar)
    Foge, Pai! Foge Pai! Foge Pai!

 

CENA 07
INT. SALA DE ENSAIOS DE TEATRO (DIA)

Através de um dispositivo amador de retroprojeção, vemos o rosto e os ombros de João, enquadrado de frente num plano ligeiramente contrapicado, a correr, em frente a um ecrã onde são projetadas as seguintes imagens: corredor de hospital; jardim; ruas e praças de Lisboa; espaço exterior e interior da Gare do Oriente, bilheteira.

Há um corte na imagem. Através do mesmo dispositivo, João aproxima-se de uma bilheteira na Gare do Oriente retroprojetada na sala de ensaios. A fila, junto ao plano retroprojetado da bilheteira, é formada por Rita e Chico, ambos vestidos com as suas roupas habituais, como se fossem simples transeuntes.

    CHICO (como transeunte)
    Ó homem. Isso não se faz.

    LUÍS (como João)
    Um bilhete para Nampula!

Há novo corte na imagem, e vemos agora as mãos de um jovem, vestido com uma farda escura, a passar um bilhete de outros tempos para as mãos de Luís. Em seguida, vemos Luís filmado de frente, novamente com o efeito de retroprojeção, como se estivesse junto à bilheteira.

    JOÃO
    Sai daqui a quanto tempo?

    CHICO (em off, engrossando a voz)
    Está a sair.

Novamente com o efeito de retroprojeção, João corre para a plataforma e corre ainda mais para apanhar a porta do comboio já em movimento.
 

CENA 08
INT. SALA DA CASA DE MANUEL REIS, AVENIDAS NOVAS, LISBOA (DIA)

Um comboio antigo é filmado no chão da sala, sobre o tapete bege. Em fundo, uma sucessão de quadros: primeiro de Lisboa, depois paisagens rurais (Alentejo), seguido por mar, deserto, savana, selva (através de quadros de Henri Rousseau). O comboio para precisamente em frente a uma reprodução de uma selva de Rousseau.

cena08

    MANUEL (em off)
    Chegado a África, João corre pela selva, até chegar a uma clareira distante, onde se vislumbra uma pessoa. É Zaila! João para a um metro dela. Olham-se nos olhos, felizes. O FIM!

    CHICO (em off)
    Mas achas que isso é forma de acabar um filme?

 

Gonçalo Robalo faz filmes.
João Paulo Oliveira traduz e, quando pode, brinca aos realizadores.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s