Enquanto perder for habitar com exatidão

CASÉ LONTRA MARQUES

 

Enquanto perder for habitar com exatidão:
esta
vontade de fala — nosso gesto nenhum —

continuará a nos impelir: (continuará a nos oprimir):

mantendo
os ruídos abertos?

preparo outras margens
para
o incômodo

que deixarei descansar debaixo

da
anemia

— ainda insistir é principalmente uma ameaça —

nossas sedes
não
conseguem sequestrar

sempre
as mesmas

mímicas:

nadamos (e nadamos e nadamos)
com
a tensão que antecede

— de novo —

o reconhecimento
do
lapso onde encaixar

(onde
encravar)

um corpo;

mesmo
sem extinguir
essa
impaciência:

por
que eu não toleraria anoitecer

também?

mesmo
sem extinguir
essa
impaciência:

dançar — de fronteira em fronteira —
contra
outra asfixia

(juntando
os olhos tingidos por uma rajada

de tempo);

desejo
isso que mal se reduplica:

dançar (de fronteira em fronteira)
contra
toda asfixia

— dançar —

até
um rumor

emergir?

desejo
aquilo que quase me destrói — que nunca nos anula —

eu: (finalmente inválida; furiosamente ávida):

desejo
não só desaparecer;

eu — ostensivamente velho —

ninguém
precisa me suportar

(jamais respeite
a
minha miséria);

ninguém
poderia me suportar:

jamais respeite
a
minha miséria

— volto a pedir —

jamais respeite
a
minha miséria:

(porque
perder é habitar uma exatidão):

procuro
sua nuca no assoalho
do
assombro

— nada preservarei desta vez —

procuro
uma boca na limalha
da
língua:

(depois
de experimentar outros raptos?):

essa areia em boa
parte
dos órgãos

também participa

da
voracidade;

desconfigurando
a
pressa espalhada (clinicamente)

por
não poucos

pânicos

— há pedaços de sol
na
borda da garganta —

como
em qualquer trincheira:

há pedaços de sol
na
borda da garganta:

apenas
banhando os mortos que recebem

melhor

umas
bruscas mas resistentes

afasias?

por aqui esperaremos (a partir daqui povoaremos)
os
chiados da próxima enchente

— com
as retinas quase vazias —

hoje entendi
como
muita palavra amanheceu

durante

a
apneia:

aproximando
os
mortos que percebem logo

umas súbitas

mas
persistentes

euforias?

desacelerar a solidão: (distante de alguma leveza):
é
necessário desacelerar a solidão — sei que falo —

e esqueço o que falo; e me esqueço no que falo;

enquanto
a gente luta?

dentro
da calma que deforma
o
diafragma

— nada preservarei — nada: (mais uma vez):

onde
perder será habitar

contra

a
exatidão?

nada
preservarei — tento prosseguir —
pelo
menos alguma vez:

desacelerar a solidão: (diante de qualquer leveza):
é
necessário desacelerar a solidão — longamente —

a dor (ainda difusa) engasga sobretudo agora:

enquanto
a
gente luta:

qual
silêncio não extrapola
a
memória?

 

Casé Lontra Marques é poeta e reúne o que escreve aqui.

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