Eclipse da elipse

VALUPI

 

Aviso

A leitura do texto abaixo requer o visionamento prévio do filme Kiss Me, Stupid, de Billy Wilder. É uma obra de 1964, a preto e branco, que se encontra sem esforço para visualização gratuita na Internet. Porém, não é certo que se apanhe uma versão sem mutilações, e certamente que não se encontrará alguma com legendas em português. Por estas razões, mas principalmente por aqueloutras, aconselho a que se envie o dinheiro suficiente para uma das contas do sr. Jeff Bezos na esperança de receber em troca, e na morada indicada, o filme em formato DVD ou Blue-ray (o texto é compatível com ambos, embora recomende a segunda opção para todos os felizes possuidores de uma PS3/4). Não tendo o autor do escrito, e infelizmente, qualquer proveito monetário por estar aqui a promover o negócio da Amazon ou congéneres, e podendo estes caracteres estarem a ser lidos num tempo futuro em que o tal sr. Jeff Bezos não seja possuidor de contas bancárias, aceita-se que a obtenção de um desses discos prateados de antigamente, ou o seu conteúdo vertido para um suporte de armazenamento digital adequado, seja feito com (i) recurso a pedidos de empréstimo ou (ii) visita a uma casa, privada ou pública, onde haja algum Kiss Me, Stupid, de Billy Wilder pronto para visionamento durante a estadia ou, ainda, que (iii) se invoque uma necessidade vital e se proceda ao seu furto esteja o filme onde estiver (usando de violência emocional e/ou física, cum grano salis, se preciso for).

Não se garante que esta ligação funcione como pretendido após ter sido aplicada no HTML em que nos encontramos. O HTML é uma metáfora digital da condição humana, a sua insustentável leveza espelha a efemeridade e alucinação holográfica do real. Para qualquer esclarecimento no caso de a ligação aqui deixada já não funcionar, recomenda-se a (re)leitura do aviso prévio.
 

Aparato diegético

Eis a situação. A cena. Cada cena é uma situação. E no cinema as cenas são situações ontologicamente problemáticas que foram resolvidas brilhantemente. Através da luz.

Eis a cena anterior. Dino pretende ter sexo com uma mulher. Pode ser a mulher de alguém. Pode ser a mulher de ninguém. Acaba por se conformar à segunda opção, depois de ter acreditado na primeira. Num pardieiro para bêbados, algures num deserto, indicam-lhe o lugar onde poderá encontrar uma dessas mulheres.

Eis a cena presente. Ele dirige-se para uma caravana e entra no espaço onde Zelda está deitada. Não sabemos se dorme, ou se pensa, ou se chora rindo em sacro silêncio, ou se. É a mulher de alguém. Dino pensa que é a sua actual mulher, por concebê-la como a mulher de ninguém. Recorrendo a dinheiro que leva no bolso, anuncia que pretende ter sexo de imediato. A mulher de alguém a representar o papel de mulher de ninguém vai recusando o preço acenado pelo potencial comprador de parte, ou partes, do seu corpo, mas só até ao momento em que aparenta ter conseguido que ele pague um preço muito mais alto. Nesse novo custo, não bastaria a Dino deixar o dinheiro que tinha no bolso; ele igualmente teria de se comprometer a comprar uma canção. Essa canção era da autoria do marido da mulher de alguém a fingir ser a mulher de ninguém. A cena termina com o Dino a cantar de cor essa canção pelo tempo suficiente para que a mulher de alguém abandone o seu estatuto oficial e se comporte oficiosamente como assumida mulher de ninguém. Beijam-se abraçados. Fim da cena, desvanecendo-se para negro. Nascimento de uma elipse.

Eis a cena seguinte. Consubstancia-se a partir do mesmo negro onde a cena anterior foi parar, o corpo da nossa elipse. Vemos que o Sol se levanta no horizonte. Estamos num templo dionisíaco onde os peregrinos vão ao encontro de um êxtase obtido através do “umbigo”; isto é, o transe é alcançado pela vagina e tudo o que a rodeia no corpo respectivo. Dino sai do espaço interior e fechado do sexo da cena anterior. Sai de casa. A sua casa durante uma madrugada. É uma casa igual a todas as outras, com cama, víveres e mulher à disposição. Sai da sua casa/caravana com as galinhas como testemunhas, símbolos bípedes e com penas do trabalho quotidiano, o seu trabalho. O seu trabalho é o sexo, canta apenas para ganhar dinheiro. Dino dirige-se para o automóvel descapotável. Corte na cena.

Eis a sequência. Zelda acorda com a felicidade estampada no rosto. Está nua debaixo dos lençóis e espreguiça-se revigorada. Topa com o dinheiro deixado por Dino, paga pelos seus serviços. Tocar no dinheiro equivale a tocar em Dino e a sentir Dino a tocar em si. O dinheiro que ganhou vendendo sexo deixa-a com a auto-estima elevada e com a imaginação hiperactiva. Correu bem e muito bem a experiência. Nisto, percebe que Dino se está a ir embora e tenta devolver-lhe o dinheiro, pois aquela noite merecia ser uma borla. Uma mulher de alguém não vende a sua infidelidade por reles dinheiro, oferece-a. Dino não a ouve e parte igualmente feliz, assobiando a sua nova aquisição sonora. Ao mesmo tempo que se faz à estrada, chegam Orville e Polly the Pistol, a verdadeira mulher de ninguém vinda de passar uma noite como mulher de alguém. Zelda fica a observá-los enquanto se despedem dentro do reboque de Barney.

Eis a continuação da sequência. Orville está comovido, quase em choque. Por causa do sexo. O sexo que teve com a mulher de ninguém. Poly the Pistol absolve-o da culpa moral introduzindo o argumento da relativização pelo simulacro. Não houve infidelidade grave porque Orville, mesmo no acto de ter contactos genitais com Polly, esteve sempre a relacionar-se com a sua mulher num plano simbólico e teatral. Aliviado, Orville tenta recompensar monetariamente Polly the Pistol pelos seus serviços nocturnos, cumprindo o acordo original no valor de 25 dólares. 25 dólares em 1963 (tomado aqui como referência por ser o ano anterior ao lançamento do filme) equivalem a um qualquer valor entre 152 e 703 dólares em 2015 (para 2016 não existem cálculos, por razões evidentes). Fazendo a média, temos 427,5 dólares, ou 479,3 euros à taxa de 20 de Maio de 2016, que a mulher de ninguém recusa – ou paga – pelo encanto de ter sido a mulher de alguém por umas horas largas; com direito a usar o anel de casada, fazer a paparoca, lavar a loiça e tudo. Polly the Pistol garante a Orville que nunca o trairá, mantendo para sempre em segredo aquela noitada do seu matrimónio fictício. Fidelidade exemplar de esposa, embrulhada em lubricidade de amante, a recriar as memórias indeléveis de Orville. E sai do reboque para entrar na sua caravana/casa.

Eis a continuação da sequência. Zelda ouviu sem escutar, e compreendeu sem perceber, a despedida amorosa daquele impossível casal. Testemunhou a tentativa de pagamento a uma prostituta e a recusa desse dinheiro por uma mulher casada. Precisamente o oposto do que lhe tinha acontecido a si, a plena aceitação como mulher casada do pagamento como prostituta. Nesse momento, descobre o que fazer ao pecúlio obtido pelo seu serviço no local de trabalho de Polly the Pistol: completar a simetria, repor o equilíbrio no Universo através de uma espiral conotativa, corações e humor ao alto – “Whatever your husband did, he did it for you.” ⇒ “Whatever I did,I did it for him.” Polly the Pistol e Zelda partilham o mesmo marido, discutem acerca dos mesmos problemas caseiros, como a feitura do pequeno-almoço na mesma cozinha. É então justo que partilhem o mesmo cliente e os mesmos rendimentos obtidos da mesma forma na mesma cama. Zelda entrega-lhe 500 dólares de 1963, equivalendo a, em média, 7.638,32 euros ao câmbio do dia em que escrevo. Foi essa quantidade de dinheiro que Dino pagou pelo sexo com Zelda, não nos sendo possível saber se pagou a mais, a menos ou o exacto preço certo pelo produto adquirido. Isto porque um preço é sempre uma contingência do mercado numa economia capitalista. Com esse dinheiro, Polly the Pistol vai finalmente conseguir comprar um popó e sair daquela terra. Vai libertar-se do pecado, prémio supremo da purificação obtida pelo casamento de horas. Em troca, Polly the Pistol salva o ameaçado casamento de Zelda através da defesa apaixonada e apaixonante do regime patriarcal, por um lado, e da promiscuidade, pelo outro. Fórmula vencedora, validada ao longo de séculos ou até milénios na cultura ocidental, que leva Zelda a ficar convencida à primeira. Fim da sequência com a celebração de um umbigo à solta – leia-se, um sexo devasso – deixado na casa de Zelda por Polly the Pistol e garantia da futura reconciliação e harmonia amorosa do casal oficial.
 

Profílmico e posfílmico

A 22 de Dezembro de 1964, Kiss Me, Stupid começou a ser exibido ao público. Antes desta data já muita tinta tinha sido gasta com o filme. Depois de ter passado no crivo do então caduco, e a poucos anos de desaparecer, Production Code Administration – organismo criado nos anos 30 para censurar moralmente a indústria cinematográfica norte-americana -, corria a piada de que a única forma de conseguir passar na entidade censora seguinte, a Catholic Legion of Decency – também criada nos anos 30 para castigar Hollywood e marcar como “pecado mortal” o visionamento pelos católicos dos filmes reprovados -, seria reduzir a obra a 15 minutos e retirar-lhe o som. Este tipo de alvoroço censório não parecia daquela época, a década dos hippies e da pílula, do sexo, droga e rock&roll. Porém, o berbicacho existia e estendia-se a todo o filme, mas em especial à cena que nos leva para a elipse aqui vivida.

Billy Wilder, quando estava na fase da montagem do filme, ficou preocupado e marcou uma reunião com Monsenhor Little, o chefão da americana Liga da Decência Católica. Nela, concordou em baixar as calças e subir o pano. O encontro entre Dino e Zelda na caravana foi filmado de novo. Agora, o fodilhão adormecia inocentemente ao ser massajado nos costados pela esposa do professor de piano e não em trocas de fluídos bocais com a mesma senhora como registado na versão original. Estas e outras alterações não foram suficientes para os católicos assanhados perdoarem o atrevimento, e o filme recebeu um “C” de condenação aos infernos. Juntamente com uma avalanche de críticas cinéfilas muito negativas por causa da frontalidade com que se falava de sexo e de cobiça, com o lançamento do filme no Natal a aumentar o peso das mesmas, o resultado foi o desastre nas bilheteiras e muitos meses de desorientação e dor para Wilder. Era o custo de se ter antecipado 20 ou 30 anos à cultura norte-americana.
 

Ontologia mínima (e breve) da elipse cinematográfica

Há quem defina o cinema como a arte da elipse, dizem. A arte, então, do desaparecimento da situação no ecrã exterior, objectivo, e a sua transposição para o ecrã interior, subjectivo. Qualquer acto filmográfico pode ser concebido, sentido e imaginado como uma elipse, seja da realidade anterior, da realidade simultânea ou da realidade adjunta. Compor um plano corresponde à elipse de cortar tudo o que se decide não entrar no plano. Montar o filme é estabelecer a sucessão das elipses sem as quais a narrativa, qual música sem espaços, não seria sequer possível ainda antes de ter sentido.

A elipse pode ser isso tudo mas ela é muito mais. O muito mais de abrir um espaço onde o universo criado pelo filme pode ser concretizado de forma ilimitada. Que se passa nesse tempo, ou tempos, e lugar, ou lugares, que preenchem a elipse? Estamos, literalmente, noutra dimensão. Se a dissecarmos, nada vamos encontrar. A elipse materializável é um vazio, um nada, similar ao que acontece quando se disseca um cérebro humano à procura das memórias e da consciência. Os neurónios, enquanto células, não exibem esses fenómenos absolutamente reais da consciência e da memória. Onde estão eles, afinal? Que sabe a recta, ser que existe apenas numa dimensão, do cubo, que existe em três?

A verdade é que algo existe na elipse – ou pela elipse. Porque algo se passa. De uma cena para outra, uma qualquer situação iluminável – portanto, real – existe independentemente da película/código, do ecrã, dos espectadores, dos actores e até dos autores. Sabemo-lo com a mesma certeza com que vamos chegar ao fim do filme sabendo que não estamos no seu começo. Trata-se do cinema na sua forma mais completa e imediata por estar ao dispor do poder criativo de cada um de nós, câmaras de filmar.

Fiat lux.
 

[eclipse de uma elipse em Kiss Me, Stupid, de Billy Wilder]

Zelda e Dino beijaram-se durante 5 segundos. As bocas de ambos tinham o travo do bourbon acabado de ingerir, mais o que ambos tinham bebido ao longo da noite. Não houve contacto de línguas, só os dentes dele a mordiscarem o lábio inferior dela. Zelda voltou a separar-se e ficou a olhar para Dino. Este deitou-se na almofada, sorrindo. Ficaram em silêncio na penumbra. Lá fora ouvia-se uma vozearia de bêbados, afastada da caravana. Dino agarrou numa das mãos de Zelda e ficou a brincar com ela, não tirando os olhos dos seus. Zelda começou a sorrir. E disse-lhe:

– There is a special place in hell for women who don’t help other women.
– Ok… That reminds me of this sentence: “One is not born, but rather becomes, a woman.”
– And you agree with Simone?
– Well, the history of men’s opposition to women’s emancipation is more interesting perhaps than the story of that emancipation itself.
– True. I do not think I ever opened a book in my life which had not something to say upon woman’s inconstancy. Songs and proverbs, all talk of woman’s fickleness. But perhaps you will say, these were all written by men.
– I think women may be the one group that grows more radical with age.
– That’s because each suburban wife struggles with it alone. As she made the beds, shopped for groceries, matched slipcover material, ate peanut butter sandwiches with her children, chauffeured Cub Scouts and Brownies, lay beside her husband at night – she was afraid to ask even of herself the silent question – “Is this all?”
– One life is all we have and we live it as we believe in living it.

Zelda ficou a pensativa. Aquela conversa tinha-a levado para a sua adolescência. Para aquele final de Verão em que conheceu Rick, também perdido a caminho de outro lugar. Podia ter partido com ele aos 17 anos. Onde estaria agora? E como? Desistiu de fugir e acabou por aceitar a profissão de esposa de Orville poucos anos depois. Todas as noites algo nela acordava e dava-lhe a ver paisagens onde nunca tinha estado.

– I’m not going to fuck with you.
– Ok.
– I’m here just for one night.
– Ok.
– I’m not Polly the Pistol. I don’t know who I am right now…
– I know who you are… You’re a woman helping another woman.
– Yes, and you are not only charming, but also a very smart man.
– So, I’m going to sleep here, anyway. Naked.

Dino levantou-se num surpreendente salto cheio de energia. Começou logo a despir-se. Zelda ficou a olhá-lo, a crescer de curiosidade pelo corpo que iria ver nu. Ela confiava agora naquele homem tanto como se pode confiar num amigo de infância. Dino acabou de despir-se e ficou virado de frente. Depois rodou o corpo sobre um pé, exibindo-se brincalhão. Não tinha o menor frémito de erecção. Zelda fez uma expressão ambígua e trocista. Dino meteu-se na cama, ajeitou a almofada, despediu-se com um beijinho numa das mãos de Zelda e ficou virado de costas para ela, preparando-se para se afundar na inconsciência.

Zelda continuava com o tronco levantado olhando para o interior daquela caravana. Lá fora os sons eram os dos automóveis que abandonavam o local, o pardieiro fechava as portas. Ela estava numa caravana de putas com um homem que não era o seu homem numa cama que não era a sua cama. E sentia-se em casa, na casa onde tinha nascido, quando lhe custava a adormecer e ficava hipnotizada pelas sombras que lhe entravam quarto adentro e se aninhavam na sua fantasia de menina.

Começou a tirar o pijama. Primeiro a parte de cima, depois as calças, depois as calcinhas. Completamente nua, enfiou-se debaixo do cobertor. O corpo de Dino espalhava calor e odores de suor, tabaco e álcool. Era o corpo de um homem de 47 anos, um corpo de excessos. O seu tinha 32 anos de idade, e era um corpo que nem sequer filhos ainda tinha gerado. Podia fazer o que quisesse com ambos. Encostou-se a Dino e começou a tocar-lhe como se ele fosse um gato muito grande e pachola. Dino reagiu murmurando algo ininteligível. Zelda percorreu com a mão os cabelos, pescoço, costas, nádegas e pernas de Dino. Ele continuava imóvel, como se tudo estivesse a decorrer de acordo com o seu desejo. Zelda também contemplava a possibilidade de tudo estar a decorrer de acordo com o seu desejo. E deixou a sua mão seguir para o peito de Dino. Depois para a barriga. Depois para os pêlos púbicos. Até que lhe tocou no pénis. Continuava sem erecção. Zelda agarrou-o como se fosse um dedo da mão de Dino, apertando-o com delicadeza. A respiração dele indicava que já tinha adormecido. Ela ficou ligada a essa maré baixa, canção da terra a rodar no vazio, mantendo-se a acariciar com ternura maternal o pénis inerte daquele famoso garanhão vencido pelo sono. Adormeceu depois de beijar a nuca de Dino e de sorrir luminosa.

[fim do eclipse da elipse – início da cena seguinte]

 

Valupi precisa de cineterapia.

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