Arquétipo, ou poeta a cavalo

ANA CLÁUDIA SANTOS

 

Uma vez fui ao campo. Não à vila, aldeia ou lugarejo a que se chame campo por se tratar de local que não seja Lisboa, mas ao campo verdadeiro: aquele que, visto de longe, constitui as paisagens campestres; a terra onde se pratica a agricultura e se semeia a variedade de coisas vegetais que comemos. Como era primavera e esse campo se situava no Alentejo, eu e o meu avô tínhamos à nossa frente uma planície toda plana, de cor extensamente verde. Mal saímos do carro, como um pião que se larga e vai girando sem governo, eu comecei a correr em direcção ao campo até entrar nele, pelo que se pode dizer que comecei a correr pelo campo, expressão que, pluralizando-se o dito, poderá sugerir aquilo que, na altura, sendo eu criança, me terá levado a começar a correr mal saímos do carro. Quem não tem familiaridade com o campo e só o conhece do imaginário, já que ninguém é obrigado a ser do campo ou da cidade, pode ser que vá a um campo e logo comece a correr dentro dele pensando que está a correr pelos campos, o que, como sabe quem já o fez, é muito desconfortável, dadas a altura e a textura das ervas. A interpretação do meu avô foi menos convoluta, breve como um verso, não tanto como uma nota: «A moça é maluca!» Isto diz-se muitas vezes de comportamentos imprevistos, incomuns ou ininteligíveis, e isto é apenas o início da história.

O pai de todos os amantes foi o arquétipo, que foi o tipo com quem perdi a virgindade, nos tempos do liceu. No que à virgindade diz respeito, impelia-me a curiosidade primordial de a perder. Escolhi a pessoa com quem a perderia pela razão prosaica exigida pela prosa de todos nós: apaixonei-me. Além disso, ele tinha ar de quem saberia fazer o que havia a fazer. Conhecemo-nos no grupo de teatro, em que tínhamos ingressado por amor à Arte, tendo ambos em comum a indecisão em relação a qual nos fosse mais cara, razão por que a cultivávamos nas suas variadas expressões. Ele chamava-se Ercílio e era conhecido por ser, em igual medida, privilegiado, comunista, sério, zombeteiro, político, artista, sociável, reservado, libertino, decoroso. Conheciam-se-lhe três namoradas, todas elas donzelas do liceu cujas famílias tinham assento histórico nas cátedras da política socioeconómico-cultural da cidade, se não erro a ordem. Num dos ensaios da peça que íamos representar no final do ano, que era Um Auto de Gil Vicente, ele surpreendeu-me a pousar numa mesa a camisa branca que eu acabara de despir, e que me lembro de ser a minha camisa preferida porque me fora dada pela minha mãe. Para efeitos desta parte da história, a mãe da protagonista é adjuvante: imagine-se uma boa camisa branca, elegante, adulta, cara, belíssima no meu corpo de dezasseis anos que ia vestir D. Beatriz. Quando Ercílio me viu em soutien, eu vi-o a ver-me e lembro-me de ter pensado: “vês?”. Do dia para a noite, ele livrou-se da terceira namorada que se lhe conhecia e tornámo-nos nós os dois namorados, com desenvoltura, com realismo, sustidos por excelentes intenções. Decidi de imediato que Ercílio seria o meu primeiro amante, decisão que ele aprovou com o fervor do jovem revolucionário que era.

A peça representou-se, o ano escolar chegou ao fim, era verão. Se me detenho a pensar no assunto, concluo que os acontecimentos mais importantes da minha vida tiveram lugar num verão, o que não é raro acontecer durante a juventude, que pode durar tanto quanto a vida. As revistas femininas que eu folheava na época ensinavam as jovens mulheres a preparar-se para um encontro com um homem, e um dos conselhos de expertos falava da importância de estar bem na própria pele. Eu comecei a estar atenta à minha pele e àquilo que ela revestia. Sozinha no quarto, fazia as minhas tarefas em roupa interior, às vezes sem nada, para me habituar a estar bem na minha pele, em que em breve alguém iria tocar. Via-me ao espelho, dava reviravoltas, ensimesmava-me como uma actriz, perdia-me a imaginar mãos em mim, posturas, ângulos de visão, pedras de toque. O meu conhecimento do sexo era como o meu conhecimento do campo. Depois, descobri que era muito diferente de qualquer coisa que pudesse ter imaginado, o que foi uma surpresa que ainda hoje consegue surpreender, pois não se perde o imaginário como quem perde a virgindade ou uma camisa. Assim, aos dezasseis anos, um verão pode justificar muitos anos de existência passada, prolongar-se pela futura e, caso se tenha sorte, determinar que se creia na sorte. Eu cria na sorte que tinha. Naquela altura, a vida e Ercílio eram maravilhosos, e ainda hoje penso com amor nos ombros dele. Passámos o verão na casa de campo dos seus avós, um monte com árvores, alguns animais e uma piscina cheia de água, onde estávamos quase sempre aprazivelmente sós. Os meus pais julgavam-me noutras localizações, todas verosímeis, confirmando-se a minha presença nelas graças à serventia dos nossos amigos, também eles adjuvantes. Descobri as vantagens do sexo enquanto forma de higiene, além de fonte de inspiração para realizar com alegria os afazeres terrenos; o que, aos dezasseis anos, não era de bom agouro aos olhos da polícia pública de prevenção sexual.

Porém, nem só de sexo vivíamos. Ercílio era, como quase todos sabiam e uns poucos desconfiavam por sugestão e adivinhação, poeta. Como eu lhe amava os olhos, o cabelo, que ainda o tem bom, os ombros de atleta liceal grego, a voz e até o nome, decidi que havia de lhe amar também os versos, que ele fazia sentado à sombra de um dos chaparros do monte, enquanto eu, como é expectável, chapinhava nas águas da piscina. Na verdade, eu achava obsceno que ele escrevesse à minha frente, mas naquela fase ainda não tinha coragem de lhe dizer o que achava e, muito menos, de agir de acordo com o que achava. Ercílio era torrencial, manancial, a juvenília em pessoa e verso. Tinha uma confiança em si fundada na beleza e no privilégio natos, o que era compreensível. E gostava tanto dos seus versos como gostava de si a escrevê-los ou a não os escrever, pelo que me instava a fotografá-lo em vários actos que o próprio legendava segundo uma fórmula descritiva da sua autoria, como se vê nos exemplos: o poeta a sorrir para a namorada; o poeta a cochilar ao sol com as mãos postas sobre o ventre escorreito; o poeta nos espaldares; o poeta a comer um bitoque; o poeta a cavalo. Uma destas fotografias figura hoje, como se sabe, na capa da primeira edição da sua obra completa. Mas não me quero adiantar. Quando Ercílio me mostrou pela primeira vez o que escrevia, tive de me concentrar nos ombros para me esquecer dos versos. Fiquei tão triste que durante uma semana não apareci no monte. Os poemas dele insultavam não só a inteligência mas também a música; não havia neles rasto de humor, de delicadeza, de arejamento ou de mistério, já para não falar da velha rima. Tudo era lúgubre, feio, banal.

É neste ponto que o verão acaba e a história é ensombrada pelas nuvens escuras e as aragens frias da discórdia. No ano lectivo que se seguiu ao nosso verão amoroso, deixámos o grupo de teatro e dedicámo-nos de corpo inteiro à literatura, que enfim se revelara a Arte da nossa predilecção. Ercílio continuou a escrever poemas, frequentemente à minha frente, e eu comecei a escrever textos em prosa, o que nos trouxe, como se pode imaginar, toda a espécie de problemas. Por meu lado, à frente de Ercílio eu nunca escrevia, embora não me importasse de lhe mostrar os meus textos depois de feitos. Podia ser pertinente evocar agora algumas das opiniões que partilhou comigo sobre o que eu escrevia, que sem dúvida dariam a este retrato os matizes inopinados que tanta importância têm para se conhecer bem o colorido de uma pessoa. Fico-me, no entanto, pela mais interessante, que não era tanto uma opinião quanto um vaticínio (o qual, diga-se, nunca se concretizou). O vaticínio, que não foi tanto um vaticínio quanto uma expressão de impaciência, determinou por sua vez que nos separássemos. Após eu ter pedido a Ercílio que lesse mais um dos meus textos, ele disse-me que se estava mesmo a ver que eu ia ser Águstina Bessa-Luís e ele o marido d’Águstina Bessa-Luís; que era, como se está mesmo a ver, a única escritora reconhecida por Ercílio que lhe podia servir para a analogia. Eu não hesitei. Enquanto lhe voltava as costas, a corrida pelos campos e o dito do meu avô, postos de reserva no fundo de camadas de memórias indistintas, assomaram à altura da consciência da moça com a clarividência desse tipo de assombrações. Podia ter corrido, mas não estávamos no campo.

Estivemos separados durante cerca de seis meses, ao fim dos quais Ercílio publicou o seu primeiro livro de poemas, Arquétipo, que, como se sabe, foi uma edição de autor (custeada pelos avós). O que talvez muita gente também não saiba é que o quarto poema desse livro, intitulado «Mangas de chemise», e que agora só se pode ler na obra completa, é sobre mim. Durante o período de afastamento, fui infeliz como não me lembrava de alguma vez ter sido antes, embora a infância não seja tão inocentemente pitoresca como alguns a pintam. Ercílio reatou o namoro com a terceira namorada, que aproveitou a segunda oportunidade para espalhar no liceu calúnias delirantes sobre mim. Não se dando por contente, engravidou. Entretanto, a minha mãe deu-se a participar num inédito “digades filha, mia filha velida, porque deixastes o vosso amigo?”, assumindo pela primeira vez o papel de oponente. Percebi que a tinha subestimado. Ela não só descobrira (através de uma analepse, desconfio) tudo acerca do meu verão amoroso no monte dos avós de Ercílio, como decidira não me dizer que sabia. E agora que eu perdera o primeiro namorado, o que queria dizer que podia haver na minha vida lugar para um segundo, antagonizava-me. (Saibam as mulheres e os homens deste mundo que devem atribuir todos os males, sobretudo os de amor, às mães. Saibam também que foi para receber as culpas que se fizeram as mães. O mesmo, mas noutro grau, e de forma diversa, vale para os pais.)

Foram tempos muito maus, aqueles, tempos muito miseráveis, que teimaram em piorar pela primavera, com o reviçar dos campos. A terceira namorada – como Ercílio, de família veneranda – foi mandada com o rebento e uma prima na mesma condição para uma terra camiliana no norte do país, de nome vagamente impronunciável, até o nome dela se perder nos anais da história do liceu. Ercílio, que já antes tentara sem sucesso reatar o nosso namoro, maquinou uma estratégia de reaproximação que tinha a característica de parecer infalível. Como se está já a adivinhar, ele foi expor à minha mãe o seu plano, que por acaso coincidia com o plano dela. Conspiraram que iríamos acabar o liceu juntos, que iríamos para a universidade juntos, que ele se converteria no poeta da universidade, que, ao chegar à vida pública, triunfaria como poeta público, que ele seria o meu marido e eu a mulher de Ercílio A. da Fonseca R. Cascalheira, que ele me daria filhos e o nome para eles. Encostaram-me os dois contra uma parede, magoaram-me. Para falar verdade, eu não desgostava de Ercílio, fora os poemas e a namorada engravidada que ele ajudara a expulsar. Mas seria eu capaz de estar num mundo com uma mãe má que não me ia dar roupa boa para levar à escola? Seria possível viver sem piedade filial? Ocorreu-me que, se lhes fizesse a vontade, o mais certo seria nunca mais escrever textos ou correr pelos campos como um pião desgovernado. E o que teve de acontecer teve toda a sua força. Pensei com amor nos ombros de Ercílio, fiz da minha vida um livro em branco e, até hoje, não olhei para trás.

 

Ana Cláudia Santos lê, escreve e traduz.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s