Tensão entre o corpo e a queda do nome (exercício de associação biográfica a partir de uma fotografia)

MATHILDE FERREIRA NEVES

 

Atacado por uma amnésia, a que ele próprio chamava insolente (e que nos calha tão bem),
Nadar esquecia-se de qualquer rosto que não tivesse visto pelo menos vinte e cinco vezes
e que se afastasse mais de quinze centímetros dos seus olhos míopes.

MARIA FILOMENA MOLDER

 

A ocasião imprevista de me encontrar numa sala de espera, num hospital, produziu um facto: peguei, com alguma indiferença, numa revista (a Atual do jornal Expresso, de 25 de Outubro de 2014), abandonada num banco ao meu lado (acontece muito isso nas salas de espera: o abandono) e pude assim entrever o retrato de alguém desconhecido que reconheci.

Quatro ideias a reter na descrição do facto: ocasião imprevista (o mesmo que acaso), paragem (no seu duplo sentido de lugar e acto), retrato e reconhecimento.

Ilustração de um dédalo passevite no meu caderno

Ilustração de um dédalo passevite no meu caderno

O acaso, nesta circunstância, é importante, no sentido em que apanhada completamente de surpresa, sem ter a mente direccionada por nenhuma linha que guiasse a priori o meu raciocínio, embrulhei-me numa série de pensamentos aparentemente desconexos.

Ou melhor, entrever aquele retrato em particular, daquela forma (estando à espera, parada e algo impaciente, num ponto de passagem), criou uma série de ligações improváveis que não tardaram a materializar-se numa associação biográfica estranha que tornou alguém que reconheci num desconhecido extraordinário.

Um dédalo passevite, portanto: um quadrado/rectângulo (que enquadra alguém numa paisagem determinada, numa dada postura) onde se joga uma inusitada tensão entre o corpo e a queda do nome (corpo e nome do retratado, entenda-se).

A fotografia (tirada por José Ventura) é belíssima, por ter gerado em mim a tal tensão e por ser da ordem do comum: de um ângulo picado, vê-se um homem ligeiramente de perfil, com o olhar fixado num nenhures próximo à sua frente, com mãos e braços caídos – mas ligeiramente rígidos – junto ao corpo, numa pose simultaneamente desprendida e o seu inverso. O retratado está ancorado numa paisagem que se diria de abandono ou de liberdade: trata-se de um baldio coberto de ervas altas e bravias, despenteadas pelo vento. [“Baldio” interessa aqui por ser um terreno não cultivado, ou que está por cultivar, e que pode pertencer à comunidade local e ser usado colectivamente, o que pode também corresponder à definição de uma fotografia, ou mais especificamente de um retrato publicado numa revista.] O retratado veste roupas comuns (calças de ganga, pólo azul e casaco verde caqui de estilo militar) e detém-se num terreno comum. O retratado chama-se Pedro Eiras e é, segundo o artigo da revista, assinado por José Mário Silva: “professor de literatura, ficcionista e melómano”, eu acrescento: pai de duas filhas. Na altura, o retratado tinha 39 anos.

veralguem

A fotografia ilustra, assim, um artigo que dá conta do lançamento do último livro de Pedro Eiras, intitulado Bach (Assírio & Alvim, 2014). E o título do artigo é premonitório do meu exercício de associação (e não de aproximação) biográfica: “Ver alguém que vê alguém”.

Baudelaire, 1855

Baudelaire, 1855

Ao contrário do que seria de prever, o autor fotografado não assume uma pose de distinção (própria a muitos autores nestas situações), parece até desarmado dessa distinção, destituído do seu nome (de escritor).

O que vemos antes é simplesmente um homem, a preparar-se para qualquer coisa (confronto, resistência?). O olhar dele denuncia uma força, uma energia que está para lá do quadrado/rectângulo em que o encerram ali. Não é, contudo, um olhar que desafie o público, como parece ser o caso de Baudelaire, fotografado por Nadar.

O plano também não é o mesmo, diga-se: a fotografia de Pedro Eiras não é frontal, nem aproximada e o ângulo é, como já se disse, picado. Somos, desta maneira, colocados acima da linha do seu olhar, acima do corpo retratado que se assume, sem sabermos exactamente como, enquanto ponto centrífugo, enquanto matéria projectiva (de quê?). Um corpo que se destaca e se funde, ao mesmo tempo, na paisagem (um baldio, um terréu) e que parece querer expandir-se, dilatar-se, difundir-se para além das linhas que o tentam conter, e que cria atrito.

Ocorrem-me, então, aqueles quadrados fundos de Gerhard Richter (curiosamente, um deles intitula-se Bach):

Abstraktes Bild (1993) / Bach (1992) / Abstraktes Bild (1993)

Abstraktes Bild (1993) / Bach (1992) / Abstraktes Bild (1993)

Ocorre-me, também, um texto (“o dono do cão / a electricidade / o 2º cristo / morrer de fome”), do livro Animalescos (Relógio d’Água, 2013), onde Gonçalo M. Tavares fala de um quadrado desenhado no chão, no qual se encerrariam um homem ou um cão. O quadrado seria uma prisão simbólica, pois confundir-se-iam os traços no chão com paredes verticais, confusão dada pela loucura (do homem) ou pela experiência cruel de a cada tentativa de fuga provocar uma descarga eléctrica violenta (no cão). Encerrados num quadrado imaginário, as criaturas deixar-se-iam morrer. Gonçalo M. Tavares termina o texto de forma apocalíptica e dionisíaca:

[C]ada traço humano se transformará em coisa concreta; já que os homens querem ser assim tão fortes com mais medo do quadrado no chão do que do inimigo que lhes aponta uma arma. Há depois ainda uma dança em redor deste quadrado que nos ensinou tanto, e dançar em redor de um quadrado é absolutamente de loucos ou de fundamentalistas porque sempre, desde o início dos tempos, se dançou em redor de uma roda e o século XXI inaugura isto, a dança em redor de um quadrado – como se dança, como mexer os pés, os braços?, é difícil, e por isso há quem tropece para dentro do quadrado e ninguém o vá lá buscar, parece uma fogueira: quem cai lá para dentro será queimado, e merece, pois falhou no passo de dança. E é tão bonito ver de cima, de helicóptero alugado a bom preço, é tão interessante ver uma enorme multidão a dançar em redor do quadrado, uma bela festa, esta, que merece toda a nossa atenção pp. 50-51

O retratado, tal como o vejo, tropeçou para dentro do enquadramento da fotografia, falhou no passo de dança e vemo-lo, de cima, a arder. O corpo dele abre uma brecha no nome que lhe tomaram. Mas em vez de render-se, produz o seu próprio desastre, contrariando os parâmetros habituais da imagem de um autor. Um homem comum, num terreno comum, afundando-se no fim do mundo (no seu), recusando o estado terminal do mundo (o nosso).

Maria Gabriela Llansol escreveu, n’O Jogo de liberdade da alma, que “a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor”. Ter a extrema bondade de ressuscitar, ter a extrema capacidade de memória não é, na verdade, para qualquer um. É preciso saber ver, e o retratado “vê alguém”, vê o Outro, como o referem as gordas sobre a imagem e como o indicia o próprio olhar do retratado (e ver o Outro pode ser uma benesse ou uma maldição).

Há ainda outro parâmetro a ter em conta: o retratado sabe que está a ser fotografado, deu-se na sua recusa da normalidade, deu-se para contrariar uma certa imagem de autor, para pôr em falha o seu próprio nome.

À medida que olho o retrato e o escrutino, outra associação emerge das ervas altas e revoltas que suportam aquele corpo fotografado (agora reinventado por mim), é um verso de António Franco Alexandre: “vou-me vestir de terra e já / regresso” – é isso que o retratado, finalmente, parece dizer-me na sua disrupção.

Colagem de um caderno meu

Colagem de um caderno meu

Ao fundo (como quem diz, dentro da minha cabeça), ouço, enquanto termino este exercício de associação biográfica, “Wild is the wind”, na versão de David Bowie, porque a incomensurabilidade de Bach (que é referido em letras minúsculas no canto inferior esquerdo da fotografia) desembaraçar-me-ia e porque Bowie acabou de morrer. Ora, o embaraço e a desaparição são fundamentais para quem aprecia falhas, desordens e labirintos.

 

NOTA: Pedro Eiras foi meu professor. Este exercício não é sobre ele, é sobre um homem que encontrei na sala de espera de um hospital, um homem desconhecido que mal reconheci, numa fotografia.

 

Mathilde Ferreira Neves é artista de variedades.

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