Fragmentos

CAROLINA GONÇALVES (com a ajuda do Pedro Cassiano)

 

Ceci est une histoire vraie.
Le diable un jour vint sur la terre et constata avec dépit qu’il s’y trouvait encore des hommes pour croire au bien. Comme le diable ne manque pas d’esprit de finesse, il eut vite fait de constater que ces gens-là présentaient certains traits de caractère communs: ils étaient bons, c’est pourquoi ils croyaient au bien ; ils étaient heureux, c’est pourquoi ils étaient bons ; ils étaient calmes et équilibrés, c’est pourquoi ils étaient heureux. Le diable en conclut, à son point de vue, que tout n’allait pas pour le mieux dans le meilleur des mondes et il avisa aux moyens de changer tout cela.
« L’enfance est l’avenir de la race, se dit-il : commençons par l’enfance. »
Et il apparut aux hommes sous les traits d’un homme de Dieu et d’un réformateur de la société. « Dieu, déclara-t-il, exige la mortification de la chair. Il s’agit de commencer dès l’enfance. La joie est péchée. Les rires sont blasphèmes. Les enfants ne doivent connaître ni joie ni rires. L’amour d’une mère est un danger : il effémine l’âme du garçon ; il faut éloigner les fils de la mère afin que rien ne fasse obstacle à sa communion avec Dieu. Il faut que la jeunesse connaisse la vie qui est effort. Saturez-la de travail (en latin ‘tripalium’, trois pieux, instrument de torture) ; saturez-la d’ennui. Que tout ce qui risque d’éveiller l’intérêt soit banni : seul est bon en soi le travail désintéressé ; le plaisir s’y introduit-il : perdition ! »
Ainsi parla le diable. La foule s’inclina, front contre terre. « Nous voulons être sauvés ! » cria la foule. « Que faut-il faire ?
– Créez l’école. »
Et, sur les indications du diable, on créa l’école.
L’enfant aime la nature : on le parqua dans des salles closes. L’enfant aime à jouer : on le fit travailler. Il aime à voir son activité servir à quelque chose : on fit en sorte que son activité n’eût aucun but. Il aime à bouger : on l’obligea à se tenir immobile. Il aime à manier des objets : on le mit en contact avec des idées. Il aime à se servir de ses mains : on ne mit en jeu que son cerveau. Il aime parler : on le contraignit au silence. Il voudrait raisonner : on le fit mémoriser. Il voudrait suivre sa fantaisie : on le plia sous le joug de l’adulte. Il voudrait s’enthousiasmer : on inventa les punitions. Il voudrait servir librement : on lui enseigna à obéir passivement. « Perinde ac cadaver. »
Le diable rit dans sa barbe !
Très tôt le régime porta ses fruits. Ferrière, Adolphe (1947). Transformons l’école. Paris: Ed. J. Oliven

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sexta-feira, março 15, 2013

(…) uma formação [de professores] algures na linha de Sintra. uma escola com população altamente carenciada. miúdos que não têm o que comer e passam o dia agarrados ao estômago. no meio deste cenário e, numa sala com cerca de 20 professores, há uma que diz algo como: “estes miúdos não têm educação, são uns selvagens, nem ao museu da vila foram. os pais deviam era dar-lhes cultura e levá-los a museus e a espectáculos. hoje atiraram uma pedra à porta”. e o delírio foi por aí fora. quando ela acabou, toda eu espumava e não me pude conter: “se eles não têm hipótese de conhecer o mundo pela mão da família, cabe à escola dar-lhes essas experiências, e todo o trabalho aqui tem de descer os degraus necessários para não deixar um único aluno para trás.”

ao meu lado, alguém foi muito para além disto e disse com a maior descontração: “olha, eu às vezes também me apetece atirar pedras a algumas pessoas. a si não? quem é que aqui nunca teve vontade de atirar pedras a alguém? neste momento, atirava uma pedra aos autores das metas de aprendizagem. muita paciência têm os miúdos e só as atiram às portas.” (…)

Entrevistadora – Escreve na aula de língua portuguesa?
Aluno19 – Ditados, só ditados. Composições, não. Eu… por acaso até gostava… era isso, tipo também que eu gostaria de fazer na aula de língua portuguesa. Antes, nós fazíamos assim, composições na aula, composições mesmo, por nós próprios… que nós quiséssemos. Se nós fôssemos adultos o que é que fazíamos, se nós fôssemos os melhores jogadores do mundo, se nós fôssemos os melhores bailarinos do mundo o que é que fazíamos… Era desse tipo que eu gosto porque composição é um estudo livre, pode-se pensar o que se faz… o que se vai fazer… até um… numa composição até um adulto pode ter uma imaginação fértil. É esse tipo de coisas que eu gostaria de fazer na língua portuguesa.
Entrevistadora – Percebe os enunciados das outras disciplinas?
Aluno19 – Sim, consigo. De história… Às vezes, porque a stôra também é… como se diz, é uma portuguesa mesmo que usa aqueles vocabulários, mesmo: “enuncia”… depois eu pergunto: “stôra, o que é que é enuncia?”, a stôra fica chateada, mas eu… mas depois, nós dizemos: “a stôra é má”, mas vejo que a culpa não é dela, porque ela fica… porque é toda a gente a perguntar e isso e a stôra fica chateada, mas há vezes mesmo que eu não consigo compreender as coisas…

Entrevistadora – Qual é a razão por ter tão pouca vontade de estudar?
Aluno19 – (pausa) Não sei… (risos). Essa pergunta mesmo, acho que não sei responder a isso. Porque é que eu tenho tão pouca vontade de estudar? Não sei. Estudo, pronto… olhe, parar de… ficar assim a estudar… p’ra nós é um sacrifício. É como se fosse um atropelamento. ‘Tão-nos a atropelar, a stôra a falar, a falar, a falar, e depois diz: “Estudem em casa!”. Pronto e nós ficamos assim cansados e é aquela coisa…
Entrevistadora – Que conselhos daria a um professor de língua portuguesa para que a aprendizagem da disciplina tivesse mais sucesso?
Aluno19 – (pausa) Tentar ter calma connosco, gritar menos, e assim… para que a aprendizagem… e que possam fazer que a aprendizagem pronto… seja divertida e não um transtorno. Porque se a aprendizagem não é divertida p’ra nós, pronto… os alunos querem uma coisa boa, assim que lhes entre mesmo bem, que eles gostem.

Entrevistadora – Que outros alunos teriam de ter mais atenção?
Aluno16 – Olha, na minha turma, por exemplo, eu acho que a stôra devia, a minha stôra de português devia prestar mais atenção na minha colega, na I. que ela não é de cá, acho que ela é da Guiné ou qualquer coisa assim… Ela não percebe muito bem as coisas, eu acho.

Entrevistadora – De que forma é que o professor lhe poderia dar mais atenção?
Aluno16 – É assim, ela não percebe aquilo… e se percebe, percebe pouco aquilo que a gente diz. Então, eu acho que a stôra devia chegar mais nela, devia-lhe pedir p’a ela fazer leituras porque a stôra… todos fazem a leitura na turma, mas a I. normalmente ela nunca faz. Ela tem dificuldades e ela tem vergonha. Não sei se a stôra ajuda quando… a sós, sei lá… quando elas tiverem a sós, se calhar, não sei. Mas eu acho que a stôra devia-lhe ajudar memo no meio da turma p’a ela se sentir melhor. Com todos da turma, com os outros professores também porque eu acho que ela não é muito chegada, mas mesmo no intervalo, ela fica só num canto. Isso é mau.

 

Domingo, 20 de dezembro, 2015

Sentei-me ao lado do P., que está no 6.º ano, mas bem podia estar a caminho do 9.º ano, tendo em conta a sua idade. A sua história de vida não lhe tem permitido ir mais além, é um miúdo institucionalizado e marginalizado. Na sua apresentação de produções, fiquei fascinada. Falou quase 10 minutos sobre golfinhos sem qualquer suporte. Conhecia todos os pormenores, espécies, etc, sabia coisas tão específicas e com vocabulário tão científico que não consegui reter tudo. Durante a aula, pediu-me ajuda na realização de uma ficha de compreensão. Efetivamente, a história de vida do P. tem-lhe trazido muitas inseguranças, e, apesar de ser um miúdo que pensa muito bem, dificilmente realiza um trabalho, em aula, autonomamente. Começou aliás por murmurar rudemente que não era capaz, só quando sentiu que estava com ele, acalmou e foi fazendo. Na aula seguinte, o processo já foi mais natural entre nós. Já nos conhecíamos e havia um implícito que nos ajudava a avançar. Num determinado momento, perguntou-me se sabia onde se tirava o curso profissional de zootécnico. Não lhe sabia muito bem responder, mas comprometi-me em ir pesquisar e depois passar a informação aos estagiários. Pesquisei, pesquisei e não encontrei muitas soluções. Pareceu-me que precisa de ir para a universidade. Falámos um pouco sobre isso, criou-se um laço. No final, agradeceu-me muito, com uma genuína educação, daquela que nos incomoda. Ainda nos cruzámos no corredor e ele disse-me: ‘até à próxima, stôra’. Naquele momento, levei um murro no estômago! Não havia até à próxima.

O futuro ainda demora muito tempo? Nada mudou? Tudo mudou? Estamos num momento de transição. Pressentimos o fim de um ciclo histórico, iniciado em meados do século XIX, quando se inventou a modernidade escolar e pedagógica. Mas temos dificuldade em abrir caminho à contemporaneidade.
(…)
A escola de hoje é infinitamente melhor do que a escola de ontem. É mais aberta, mais inteligente, mais sensível à diferença. Mas não chega.
Pedagogicamente, ela encontra-se enclausurada nas fronteiras da modernidade. A diferenciação pedagógica, o interesse e a motivação, os métodos activos ou os modelos de aprendizagem centrados no aluno foram inventados para educar melhor as nossas crianças, todas as crianças, e não para servir de pretexto (e de desculpa) à nossa incapacidade para as instruirmos.
Socialmente, ela continua prisioneira de falsas concepções democratizantes que, na verdade, reproduzem a ‘lógica dos herdeiros’ e privam os mais fracos de adquirirem o indispensável ‘capital escolar’. A abertura da escola, por si só, não produz nenhum fenómeno de democratização.
(…)
A educação nunca fez e nunca realizará uma mudança revolucionária (Pierre Furter, 1970). É outra a força da educação. É outra a sua importância. Cultura. Arte. Ciência. Lucidez. Razão. Invenção. Evidentemente, a educação. Ainda iremos a tempo?”

Nóvoa, A. (2005). Evidentemente – histórias da educação. Porto: Edições, Asa, p. 14-15. (adaptação livre)

Être et Avoir, de Nicolas Philibert, 2002

Être et Avoir, de Nicolas Philibert, 2002

 

Carolina Gonçalves é inquieta e desinquieta.

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