[Este silêncio picotado]

VASCO GATO

 

Este silêncio picotado
após a chuva
após o receio de que o mundo
se desconversasse
para sempre
esta trégua erguida como
cenário diante da rara luz
com que se assinam
as ruas

ver assim o sossego
a pilhar os prédios
a colar os miúdos às janelas
com o mesmo espanto oblíquo
de cães e gatos
ver assim o futuro a assobiar
para o lado
para que não nos distraia
deste epicentro
a ambição da mera e pobre fome
com que o calendário inteiro
desejamos dissecar
o coração
e sentenciar:
vês
nada

este filtro
com que é possível
por vezes peneirar
os borbotões da realidade
e sacar-lhe um mindinho
de gozo
nada de festas
nada de proclamações
apenas o fim da chuva
algo caramba
de muito concretamente nosso
que o humano
não é senão um contágio da paisagem
uma tarefa da atenção
repara

 

Vasco Gato é poeta e tradutor.

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