Quatro aproximações à criatividade

JOÃO PEDRO DA COSTA

 

I

O termo não fazia parte do léxico da Grécia Antiga (cujos filósofos postulavam a descoberta através da imitação); o Cristianismo elegeu-o como produto da inspiração divina; o Renascimento como fruto do talento individual; o Iluminismo como um filho da Imaginação; o Romantismo como manifestação do génio egocêntrico; Edgar Allen Poe como o resultado de uma percentagem considerável de transpiração; e o séc. XX (para o logro de inúmeros profissionais de marketing) como um fenómeno supostamente passível de ser analisado, quantificado e, mais grave ainda, metodicamente emulado. Para muitos, a criatividade continua a ser o maior dos mistérios: a indelével diferença que separa o dois da soma de duas unidades, o “golpe de asa” de que falava Mário-Sá Carneiro, o quantum leap que teima em fintar a ciência, apesar de os seus discípulos dela se alimentarem incessantemente. Mas a criatividade é, sobretudo, e pelo menos para mim, a genuína irmandade que me une à espécie humana. Das elipses gravitacionais de Kepler a um quadro de Matisse, do esforço que inúmeras famílias fazem para conseguir pagar as contas ao fim do mês àquele ingrediente subtil e secreto que faz das saladas da minha mãe a mais misteriosa das iguarias – também eu me sei humano devido a este ímpeto comum que nos faz, por brevíssimos momentos, levantar os pés da terra. A criatividade é o inverso da gravidade. Até porque, contrariamente a esta, não se deixa reger por nenhuma lei.
 

II

Se partir do particular para o geral (indução) ou do geral para o particular (dedução) são conceitos que aprendemos a dominar e a usar desde a mais tenra idade, a abdução é outra fruta bem mais densa. Charles Sanders Pierce definiu-a como um tipo nebuloso de inferência: abduzir A a partir de B, implica determinar que A é suficiente (mas não imprescindível) para que B aconteça. No fundo, a abdução, apesar da sua ampla utilização em áreas que vão do cálculo probabilístico à inteligência artificial, nada mais é do que a tentativa de incluir a criatividade no domínio da lógica. O esforço é louvável, mas a conceptualização não me convence por aí além, na medida em que qualquer definição filosófica da abdução (e incluo aqui o I Ching) não consegue resgatar o termo do seu estatuto de arte da adivinhação. E é precisamente esta intangibilidade que torna tão fascinante a capacidade abdutiva de uma vasta galeria de personagens que vai do Sherlock Holmes ao Dr. House, passando por figuras tão marcantes da minha adolescência como a Miss Marple, o Jules Maigret ou o insuperável Isidro Parodi.
 

III

Se alguma vez participaram numa reunião cuja agenda de trabalho incluía o pomposo termo “brainstorming”, então já sentiram na pele os crimes tenebrosos que se cometem em nome do pensamento lateral. O termo (lateral thinking), apesar de ter as costas largas, foi cunhado pelo teórico maltês Edward De Bono e é uma espécie de abdução de colarinho branco, uma fórmula de cabelo desgrenhado que emana uma fragrância de ginásio e Old Spice com um travo a menta e nicotina, um conceito que tanto alterna tailleurs da Gucci com vestidos da Desigual como sapatos Oxford com sapatilhas da Nike, e que pode ser encontrado um pouco por todos os escritórios onde se aglomeram indivíduos de nariz mais ou menos empinado que se movimentam no famigerado “mercado de trabalho”. Enquanto que a abdução é uma capitulação disfarçada de epistemologia, o pensamento lateral é bem mais modesto e, na maioria dos casos, não passa de um instrumento eficaz utilizado pelos superiores hierárquicos para se apropriarem da criatividade alheia.
 

IV

As Estratégias Oblíquas são um baralho de cartas criado por Brian Eno e Peter Schmidt em 1975. Tomei conhecimento do mesmo em 2005, através da dica de um bacano chamado Frederico Sacramento e sou há 8 anos o legítimo proprietário de um exemplar que me foi gentilmente oferecido por outro encanto de pessoa que se dá pelo nome de Giada Monachino. Sempre que nos encontramos perante um dilema ou uma dificuldade, tira-se uma carta à sorte do baralho e faz-se os possíveis para aplicar o que vem lá escrito (invariavelmente uma indicação mais ou menos críptica ou ambígua) na sua resolução. No fundo, as Estratégias Oblíquas pretendem ser, à semelhança da abdução e do pensamento lateral, uma ferramenta para despoletar ou desbloquear um processo criativo. No entanto, este baralho de cartas possui, pela minha modesta experiência, duas grandes vantagens em relação aos conceitos da abdução e do pensamento lateral: por um lado, é tangível («o tacto é o mais nobre dos sentidos», já dizia Vergílio Ferreira); e, por outro, funciona mesmo. Querem uma prova? Quando me sentei para escrever este texto sem fazer a mínima ideia de como iria abordar o tema que já tinha escolhido, resolvi pegar nas minhas Estratégias Oblíquas e tirar uma carta à sorte, no verso da qual se podia ler:

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Foi o que fiz, até porque, como com certeza já terão percebido, não existe forma mais eficaz de enfatizarmos as nossas próprias falhas do que correr o risco de criar ou de fazer algo, que, não por acaso, em Grego antigo (poiein), também significa escrever.

 

João Pedro da Costa é música, lavoura e corridas.

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