4ou5 ABREVIATURAS PARA O CAVALOdADA

GUSTAVO RUBIM

 

1. sms

O poema já é curto por tradição, breve, elíptico, interrompido, incisivo, um sulco só, epigrama, inscrição, registo mínimo, traço, marca.

Poderíamos descrevê-lo como o mais antigo sistema de mensagens curtas.

E, na sequência, perguntar pelo destino do poema no tempo do sms, da estenografia generalizada, quotidiana, proliferante.

Nunca deveríamos mesmo perguntar pelo destino do poema a não ser tendo em mente o que acontece à escrita e o que muda, numa certa data, num certo lugar, quanto à relação do poema com a escrita e com as mutações da escrita (o destino do poema não seria, portanto, coincidente com aquilo a que na modernidade se pode chamar a questão da poesia).

Uma célebre declaração francesa — On a touché au vers. — nunca terá mesmo significado outra coisa, isto é, que nada acontece ao poema que não passe pela escrita, independentemente de poderes e revoluções, governos ou quedas de governo. Nessa declaração, o verso, a prosódia representam a escrita, ou implicam-na, por uma certa conjugação da música e das letras.

Mas já estamos noutro tempo do poema e noutra conjuntura da escrita, num ponto da história em que o poema está longe de se identificar pelo verso ou em que tocar no verso deixou de ser notícia.

O poema tem agora outras ramificações, outras articulações, não se projeta mais contra o espaço exclusivo, mais ou menos demarcado, da música e das letras. O poema projeta-se agora noutros ecrãs e essa projeção nova deixou de ser mera experiência pontual, dependente de um projeto peculiar.

Os ecrãs estão por todo o lado, de vários tamanhos e formatos, e o poema circula por todos eles, não intacto, não indiferente às outras escritas incessantemente projetadas.

O espaço do poema não é externo à realidade do sms. Simplesmente, esse exterior não existe.

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A capa de As Aventuras de CavaloDada em + realidades q canais de TV di-lo obliquamente e em registo cómico: a mulher que se assusta com o rato no ecrã de televisão. A mulher que salta para cima do aparelho com medo do rato projetado no ecrã.

Piada gráfica popular e ao mesmo tempo piada tecnológica, piada da era do ecrã. Como piada, diz que não há nada com que se assustar, que é ridículo tomar a TV pela realidade e assustar-se com a mera imagem de algo que já de si é demasiado pequeno para ser assustador. Mas também diz que a TV é uma das realidades da realidade em que a mulher se assusta e que da realidade da mulher assustada não é possível excluir a realidade do aparelho e da imagem de TV.

A capa do livro, neste caso, é um ecrã. Projeta sobre uma imagem uma inscrição, um título. Nesse título as aventuras anunciadas passam-se, não «em mais realidades que canais de TV», mas literalmente «em + REALIDADES Q CANAIS DE TV». A melhor língua para este livro é, portanto, a língua das mensagens curtas e rápidas, a língua que substitui palavras completas por sinais estenográficos, económicos: a língua do sms, para simplificar.

É uma língua de ecrãs: telemóveis, tablets, laptops, etc. O livro é um ecrã a mais, outra forma de ecrã, não é preciso abandonar o sistema sms quando se passa dos outros ecrãs para o livro. A poesia (se se trata de poesia) conecta-se, põe-se, por assim dizer, em rede ou em linha com a estenografia sms. É uma opção de escrita do cavaloDada, uma opção afinal pouco tradicional, se tivermos na memória certa ligação do poético à língua elevada, nobre, ou à ideia das «belas-letras». Aqui, nada a opor ao sistema sms, ao seu desprezo pela língua clássica e escolarizada, ortográfica, pelo contrário: radicalizar o sistema, explorá-lo, expandi-lo, fazê-lo entrar no livro desde o título.

CavaloDada (ou Reuben da Cunha Rocha, mais adiante voltaremos a esta dupla assinatura) chama, no interior do livro, a esse sistema «a escrita instantânea do ambiente digital». Cito-o, das páginas 76 / 77 das Aventuras, páginas inscritas como se fossem uma só, aqui menos um ecrã que uma parede atravessada de lado a lado pelo elogio da escrita instantânea.

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O instantâneo decorre assim da orientação da escrita pela conversa, independentemente de haver ou não haver conversa efetiva, falada ou escrita. A conversa, ainda ocorrendo «apenas virtualmente na / cabeça de quem tecla», significa que a escrita se afasta da obediência gramatical e instala ou permite uma certa anarquia no interior do «ambiente digital»: mesmo não sendo certo que «agora cada 1escreve do jeito / q quer», basta que possamos ler este acoplamento entre verbo e artigo indefinido em forma numérica para admitir ou concordar que está em vigor uma liberdade não ortográfica que a gramática não prescreve nem controla. Teclar, neste sentido, não é o mesmo que escrever, não é sobretudo o mesmo que escrever bem ou bem escrever. E o poema aplaude esta dimensão Dada de uma escrita desobediente à ordem do Verbo. A liberdade de traçar segundo o desejo ou o prazer de quem tecla também desencadeia uma interpretação alternativa do digital: em vez de ambiente publicitário clean, ultra-regulado, o digital é como que a selva gráfica.

Parte destas Aventuras tem um aspeto bastante selvagem. Tem as caraterísticas de um livro, mas parece mais uma coleção de graffiti. Reuben, o cavaloDada, também tem um nome para isso, uma série de adjetivos, para ser mais exato, que ele mesmo inventa e sobrepõe, referindo-se aos «pixadores», aos que cobrem a cidade com «nuvens / de gigantes gafanhotos tipográficos / tintográficos riscogrifogritográficos» (p. 80 / 81).

E ele mesmo faz entrar no livro alguns desses gafanhotos, estilizações ideográficas ou caligráficas sem significação simbólica, ícones sem código. Nada como ver (nas p. 72 / 73 e 74 / 75) uma parte desses gafanhotos, algo monstruosos, que estão aqui como poderiam estar num muro ou numa parede:

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Essas pichagens mais tintográficas do que tipográficas não se deixam determinar pelo Sentido e pela sua ordem verbal: deixam-se ficar assim, com o risco do sem sentido bem à vista. Podemos falar ainda de livro? Em que sentido? Qual a relação do livro e do livro de poemas com a tintografia? A verdade é que uma escrita, não só não tem de obedecer à palavra, como não tem sequer de se sujeitar à letra: a letra alfabética não é senão uma forma possível da marca ou da grafia. Entre muitas outras.

A partir da selva gráfica não localizável, essa seria uma interessante tarefa atual da poesia: destruir o livro ou insistir em destruí-lo, torná-lo irreconhecível à força de o fazer sofrer mutações incessantes e inesperadas. Tarefa dadaísta, assumida agora por Reuben da Cunha Rocha para reinventar a poesia como máquina útil: não pela seriedade de uma finalidade cultural ou literária, mas pela sua potência de deslocação numa ecologia hiper-semiótica, grafada por todos os lados. O próprio Reuben lembrou, via Roman Jakobson, a fundamental «possibilidade de compreender-se o poético além da poesia, enquanto estado de exploração da linguagem — não da linguagem verbal, muito menos da escrita», sendo que essa recusa de encerramento no verbal escrito, a que dou o nome de livro, não é da ordem do programa, mas do domínio das operações.
 

2. tag

cavaloDada ou cavaloDADA ou CAVALOdADA não são formas alternativas de um simples pseudónimo literário: leio-as como tag de grafiteiro.

Faz pertencer a assinatura ao terreno da emblemática urbana ou metropolitana. A tag designa ao mesmo tempo um artista e uma personagem, um autor e uma invenção, uma identidade e um jogo. Operação de assinar que desencadeia um efeito, em vez de querer cavar uma rotura; desloca signos no lugar de monumentalizar nomes próprios.

A tag é invasiva, como o graffiti ou o «pixo» em geral. Dissemina-se, espalha-se, sobrepõe-se. De certa maneira, não há tag que não modifique a superfície onde é traçada — e compreende-se que uma parte dessa modificação inevitável seja classificada como «vandalismo». Por caligráfica que seja, a tag sempre vem sujar alguma coisa. Ela é impertinente: interfere sem regra na ordem estética urbana, que não respeita como face acabada e de que faz uso bastante livre enquanto superfície a preencher.

Essa interferência tem tudo a ver com o sentido, o faro político do cavaloDada em matéria de poesia. A poesia como máquina útil é esta que interfere: não apenas abre o livro ao «vandalismo» do graffiti urbano, como faz do livro um ponto de vista que lê doutra maneira isso que não parece senão «vandalismo». O próprio livro começa por aí, pelas marcas sujeitas a outra leitura, neste caso as marcas do mijo: lembro o primeiro poema ou o primeiro rectângulo preto com esta inscrição lá dentro:

aqueles q mijam no
espaço urbano ñ o fazem
p/ demarcar território (e
sem dúvida ñ o fazem p/
“depredar”) mas sim indicar
às autoridades (q ñ andam a
pé) os locais + estratégicos
p/ a instalação de banheiros
públicos

Interferência é a operação da marca que, todavia, não demarca: indica, aponta, sinaliza, sobretudo o que falta, o que poderia ou deveria estar e não está no espaço urbano. Podemos sempre lê-la como forma de humor radical, piada crítica, quase cínica, mas na verdade este começo pelo mijo e suas marcas é uma operação que sublinha a força da assinatura anónima enquanto modalidade da tag.

De imediato a podemos conectar com aquela que, depois do proémio urinário, é a primeira parte das Aventuras, ou seja, a Introdução ao Skate. Não é verdade que o skatista é outro género de interferente, este não agindo pelo cheiro mas pelo movimento e pela velocidade?

(Como parêntesis, caberia dizer que um certo conservadorismo de esquerda persiste em querer projetar nas metrópoles atuais a antiga figura do flâneur como se a nossa modernidade, o que quer que isso ainda signifique, tivesse de ter por modelo ou paradigma a da Paris do Segundo Império e não houvesse nada a escrever poeticamente sobre cidades para lá do que escreveu Baudelaire ou do que Walter Benjamin decidiu sublinhar em Baudelaire. A poesia, nesse sentido, anda bem mais depressa do que a teoria e a crítica e circula hoje, pode dizer-se, com outra agilidade nos meandros urbanos do século XXI. O transporte poético, é de suspeitar, vai agora mais longe e mais rápido do que os lentos fetichismos da fidelidade crítica e teórica. Sobre isto há bastante a escrever nos próximos tempos, dado o considerável atraso de toda a espécie de marxismos, mais ou menos espectrais, que atravancam a leitura lúcida da poesia metropolitana. Longa história que exigiria mais que um parêntesis e que teria de passar, sem falta, pela série de equívocos e de impasses que em certas paragens ficaram conhecidos como «estudos culturais».)

É uma das forças mais intensas na costura deste livro de Reuben da Cunha Rocha a maneira como o skate lança uma espécie de ensaísmo elíptico que religa aceleradamente poesia e pensamento. Um exemplo nesta definição dupla das páginas 8 / 9:

SÃO PENSADORES DO ESPAÇO URBANO

raciocinam o espaço ocupado: ñ o espaço maquete

 

ELES SÃO (E ELAS) ESCULTURAS MÓVEIS NO
espaço onde (passam) dão 1tempo dançam. Tudo consiste
em se refazer continuamente no ar

Apanhar o movimento em movimento, cruzá-lo, é um dos traços da tag grafopoética de cavaloDada. Mais uma vez, nesta introdução ou esboço de uma estética, é o pensamento ocorrido anonimamente (entre eles e elas, skatistas) a tomar forma e, sobretudo, força de arte e assinatura de artista. Esta não-relação do skatista com o «espaço maquete» insiste na interferência e na sobreposição: ocupar um espaço em função de um espaço já ocupado, nada projetar de raiz, nada reduzir ao vazio arquitetónico prévio a qualquer construção ou obra. O skate é neste sentido figura do livro, emblema das maneiras poéticas de lidar com o que já existe, com o que já está escrito, publicado, dito, feito. Isto é, modo de transitar sempre «em + realidades q canais de tv», de não levantar objetos que não sejam esculturas móveis, a mobilidade tirada da mobilidade. E reiterada: «se refazer continuamente no ar» é também uma via para a sabotagem do livro cultural (ainda que poético), um outro tipo de movimento interno na sequência das páginas, um outro modo de assinar incessantemente mudando de escrita ou de traço.

Por exemplo, na passagem de algumas formulações enfáticas sobre skatistas (pp. 14 / 15) para uma série imediata de tintografias, pixos ou traçados cuja impressão de rapidez e movimento poderia sugerir serem inspiradas nessa deslocação dançada dos skatistas, mas que ao mesmo tempo não precisam dessa leitura de continuidade temática e a recusam mesmo, como se se desviassem do elogio do skate para outra coisa cuja relação com o skate fica por enunciar, suspensa, sem nome. Uma inflexão, isto:

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Ao mesmo tempo, a analogia com o skate permanece ativa, o skate é lição de poesia e de escrita, coisa da rua e forma de pensar. A poesia aprende-se na rua, o livro tem qualquer coisa de relato, se há flâneur, esse é o próprio escritor, soprando a imaginação, ou dançando-a, com «as pernas sempre ventiladas da perambulação vagabunda por aí» (diz a contracapa). O livro, portanto, trava a sua linha, desvia-se, interrompe, inflete com facilidade noutra direcção, desdobra movimentos para manter o seu próprio movimento imprevisível de grafias sobrepostas e justapostas: umas alfabéticas e discursivas, outras não.

A natureza de «cavaloDada» enquanto tag percebe-se aí: ela joga com o que já existe desviando-o, mantém vivo o dadaísmo inventando um dadaísmo irredutível ao significado cultural do movimento que surgiu faz um século agora. Em rigor, é isso: Reuben põe-se a cavalo do dadaísmo, aproveitando esse cavalo de brincar que era já um dos sentidos possíveis da não-palavra “Dada” em 1917 ou 18. Nenhuma rotura, nenhuma superação, nenhum revivalismo, nenhum fetiche da citação. Uso, desvio, jogo e liberdade para uma descoberta que não tem de estar terminada, que se mantém como via aberta para o poema e para a escrita. Poeticamente, Reuben reescreve um outro famoso Manifesto e declara em 2014, enquanto ri e perambula: um espectro ronda a cidade, o espectro do dadaísmo.
 

3. dub

Não será uma alucinação?

É bem essa a pergunta que pode ocorrer perante este título que promete aventuras «em + realidades q canais de tv». Que certeza temos de que serão ainda realidades, se já os próprios canais de tv parecem eles mesmos cada vez menos reais e cada vez mais mero delírio encenado de reality show?

A tendência de Reuben da Cunha Rocha é para responder qualquer coisa do estilo: alucinação não é irrealidade — pelo contrário. Uma parte essencial do livrinho e, aliás, não pequena na economia do mesmo, é essa que se intitula «Anotações para uma teoria da maconha», com essa página de título que parece começada na página anterior:

grfig5

A maconha, com todos os outros nomes que ocorrem ao longo das Aventuras, favorece certas formas de alucinação, como por exemplo o «[…] gozo de se deparar c/ algo como se [/] pela 1ª vez» (p. 33) e no entanto é preciso não separar esse gozo do como se que já é sugerido naquela montagem que, antes da página com o título «Anotações para uma teoria da maconha», junta uma foto de mulher em bikini segurando um peluche com a frase manuscrita «TE LIGA!» e um quadradinho preto dentro do qual se lê um elogio dos pescadores que «[…] além [/] do + fumam maconha p/ [/] enxergar à noite».

Também é pela primeira vez que vemos essa página, com sua imagem e textos sobrepostos, mas sabemos que a imagem é antiga, como sabemos que a frase «TE LIGA!» é paródia de outra que já muitas vezes vimos escrita em anúncios onde mulheres aparecem, como esta, nuas ou quase nuas. Trata-se de uma imagem remixada e a página final de colaborações e créditos indica que esta série «TE LIGA!», prolongada em mais quatro páginas com outras imagens, usa fotos de revistas dos anos 50 e 60 do século XX, como O Cruzeiro, Cinelândia ou Seleções de Rir Ilustrada. A imagem é portanto replicada e misturada com outras linhas gráficas, neste caso textuais, manuscritas ou tipografadas. A série «TE LIGA!» (que tem aliás design de Tazio Zambi e colaboração de Bruno Azevêdo) procede, pois, por ligação, mistura, mixagem, dubbing, se é possível dizê-lo musicalmente. Uma certa cultura de massas e sua produção de imagens e mitologias é sujeita a intensa reciclagem, sem endosso da mensagem de origem nem paródia que apenas sugira sua redução possível a uma mensagem anacrónica posterior («Me liga!») que fizesse de todas as imagens mediáticas de mulheres anúncios de prostituição. Recorte e descontextualização criam, não uma zona de confronto e guerra satírico-ideológica, mas uma palavra de ordem poética, um apelo à função conectiva da escrita, incluindo essa forma de escrita que é a imagem fotográfica estereotipada.

Trata-se de manter aberta outra relação com a cultura de massas que não seja a de a discriminar constantemente da cultura poética ou literária, ao mesmo tempo que não se trata também de a replicar na sua lógica interna e nas suas mitologias disfarçadas de coisa real ou de promessa social (daí a vantagem do anacronismo e da revisitação rápida do arquivo do moderno: vê-se a repetição do mesmo e o seu desgaste). Este jogo de mixagem não é mera habilidade interartística ou interdisciplinar, programa de «poesia e outras artes» ou algo que o valha. É aposta num texto amplo, travessia de um hipertexto anterior ao conceito informático de hipertexto, já ativo antes de ser inventado nesta grafia generalizada saturada de imagens que são mensagens. Atravessar esse texto, cruzá-lo, misturá-lo, devolvê-lo alterado no sentido e na forma, se a diferença entre sentido e forma continuasse aqui a ter qualquer espécie de pertinência (que não tem), eis o novo gesto musical e gráfico que não se limita a tocar no verso. Essa palavra de ordem «TE LIGA!», com efeito, é apelo a um novo tato que não dispensa o corpo do leitor e, por isso, ela se liga também à maconha, às sensações produzidas pelo consumo de erva e sobretudo à realidade ou às realidades a que a maconha dá acesso. Alucinar, neste sentido, é tornar real.

Não posso demorar-me, neste espaço necessariamente abreviado, pelas páginas das «Anotações para uma teoria da maconha» e tudo o que nelas se sugere contra a interpretação policial, estatal ou moral do consumo da erva. Sublinho só a deriva em direção a uma experiência da porosidade, que é o sentido da ligação produzida pela mixagem em geral, incluindo a mixagem sintática tão apreciada pelo cavaloDada, com os seus artigos colados aos nomes: não um apelo à comunidade (ou ao comunismo) nem uma insinuação de fuga caótica para dentro do eu, mas um modo de fazer comunicar sentido e sentidos, lucidez e prazer. É outra anatomia que está em jogo, uma anatomia do limiar:

O TATO Ñ É 1SENTIDO ISOLADO Ñ PERTENCE
A 1ÓRGÃO: LIMIAR Q MANTÉM QQR VIVENTE

atado ao mundo: total contato do corpo nu c/ o sem-fim
onde navega p. 42

Aqui a poesia, ou o poema, melhor dizendo, se mantêm na esfera de certa resistência ao constrangimento cultural, com suas leis incontornáveis. CavaloDada, nesse ponto e por muito culto que seja (e é: não farei aqui a lista de citações e remissões que estas Aventuras contêm, sem dúvida também enquanto parte da aventura e dos seus riscos), não tem dúvidas de que há uma função contracultural da poesia, algo que a porosidade da experiência da maconha ajuda a entender e que ele converte num emblema de ação poética. Em geral, a erva é um produtor de desarmamento e, portanto, uma máquina de apagar fronteiras. Sugiro a leitura da formulação genérica dessa associação tal como ela está inscrita no texto, isto é, numa sequência de páginas ou telas em que a primeira não é verbal, é de novo tintografia ou, neste caso, uma série de «pixos» a traço fino, por vezes bastante parecidos com a eventualidade de uma tag extremamente abreviada de «cavaloDada», outras vezes um traçado quase esquizofrénico sem tradução alfabética viável:

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Dir-se-ia que é a porosidade que não exclui do livro essas linhas ininteligíveis. Também os poros do livro se abrem para lá do interpretável, contra a noção, hoje tão corrente, de que o destino da poesia é a sua hermenêutica.
 

4. sp

Um dos momentos críticos destas Aventuras diz respeito precisamente ao destino, não da poesia, mas de uma cidade brasileira:

sabor amônia: vê-se
q SP é 1cidade condenada
pelo modo como trata
sua maconha p. 52

É uma anotação, claro, ao mesmo tempo teórica e a respeito de maconha, última aliás das anotações dessa secção, e histórico-irónica a respeito do futuro de uma cidade das proporções de São Paulo. Neste último plano e na sua estrutura de anotação, ela realiza de maneira singular aquele dito segundo o qual Deus está nos pormenores.

Uma leitura mais literária ou mais académica aproveitaria antes, talvez, para perguntar se esse não é o sinal da pertença destas Aventuras por inteiro à literatura brasileira ou, pelo menos, à história (complicada) da poesia moderna no Brasil. O assunto, em si mesmo, é menor, até pela maneira como se percebe que cavaloDada não tem problemas com a eventual dificuldade de decifração por um estrangeiro das iniciais SP: facilmente elas se descodificam a partir do momento em que são dadas como iniciais de uma cidade. Tanto basta para a leitura cosmopolita da poética do cavaloDada, dialogante Reuben da Cunha Rocha (de São Luís do Maranhão) com todos os habitantes em múltiplas línguas de cidades ou metrópoles onde circula maconha, se traçam graffiti nas paredes ou se anda de skate mesmo pelas avenidas mais infernizadas de carros. O destino de SP, em qualquer caso, nunca será apenas um problema brasileiro ou de brasileiros, como não o é o destino da Amazónia. Quer uma, quer outra, se forem espaços condenados, estão muito para lá das fronteiras do Brasil pelos efeitos dessa condenação — e nestes primeiros meses de 2015 as notícias de certo apocalipse paulista (medido, entre outros critérios, pela crónica escassez de água) são tão próximas, familiares e assustadoras como todo o pânico que a destruição da Amazónia é capaz de causar em qualquer canto do planeta. Em que condições poderíamos, então, fechar aqui um contexto brasileiro ou, pior, uma poética brasileira que circunscrevesse o alcance das Aventuras? Isto é, em que condições poderíamos fazê-lo sem falsificação?

Nada impede que reconheçamos, com efeito, como não especificamente brasileiro o homem a quem é dedicado o conjunto das Aventuras. Cito a dedicatória, saltando por cima de toda a parte do «livro» (ponho agora a palavra entre aspas, na medida em que as aspas mais se justificam no ponto em que deveríamos reconhecer uma certa solidariedade moderna, de princípio, entre a noção cultural de livro e a ideia de nação ou de literatura nacional) que se chama «Teste de Indeterminação Induzida» e que é aquela que contém justamente as páginas, por onde começámos, sobre a «escrita instantânea do ambiente digital», ambiente cujas fronteiras são difíceis de configurar a não ser por violentos exercícios de acesso e corte de acesso; cito, então, a dedicatória:

dedicado ao homem q vi caminhar na tarde de 30/12/11 no meio
da rua na Av. Paulista, sentar-se no cruzamento c/ a Bela Cintra
e atrapalhar os carros, bloquear o tráfego, provocar motoristas c/
beijos e piruetas tlvz por 15min até ser imobilizado por 2policiais

Este pequeno evento, com sua data e local precisos, com sua duração aproximada, seu protagonista anónimo, não determina o destino de SP mas igualmente não saberíamos dizer que é São Paulo (ou São Luís, estas cidades com nomes de santos para lhes dar sentido e história transcendental, que estão hoje fora de toda a ordem humana ou sobreumana que lhes impeça o caos e a condenação) que, por si só, determina localmente o que nela sucede de imprevisível, de fora de toda a decisão planeada. Esse acontecimento tem lugar, fora da poesia? Puro episódio, qualquer um, de passagem por SP a 30 de Dezembro de 2011, circulando na Paulista, o poderia ter testemunhado. Sem tv, podemos projetá-lo, longe de SP, noutro cruzamento. E isso basta para suspeitar que passa aí toda a verdade da poesia. Abreviando imenso: um fait-divers.

 

Gustavo Rubim sonha ser ensaísta a tempo inteiro.

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