O Galo de Tróia

DIOGO BENTO

 

(Pequena historiazinha do nosso Portugal contada à nossa escala)

A gente já dissemos isto várias vezes mas a gente repetimos pr’ás qu’ainda nã perceberam: a gente fizemos-se isto a várias mãos. Távamos todas a escrever, todas a fazer a mema história, a construir um reino, as malhas qu’o império tece. Todas!!! Muita gente na labuta, muita fábula a correr, muita tinta, muita cabeça a rolar e a funcionar ao memo tempo.

Como a gente acha que nada se perde e que tudo se transforma, a gente transformámos-se, mas nunca conseguimos fugir àquilo de onde tudo vem. Porque isto anda tudo à pêra, anda tudo à batatada há muito tempo.

Atão roça assim a lenda: a gente ouvimos-se d’zer que depois do outro ter sido morto à traição pelo general romano que o apanhou de costas e le deu cabo do canastro (e como a gente o percebemos que se fosse a gente fazíamos a mema coisa, porque já se sabe que foi assim que os alemães perderam a guerra), veio um castiço bater na mãe p’a le ficar com o minifúndio das alfaces. Claro que como era sovina e não queria nada com a família, tratou de tornar o minifúndio um cadinho maior e expulsar tudo o que se benzia a Alá e mandá-los lá pá terra donde eles vieram. É pá, que vitória! A gente éramos-se dez, eles eram binte e memo assim ganhámos-se. Era tudo a dar-se sumisso à frente do nosso piqueno, tudo a dar de frosques com a meia leca atrás. No fim, fizemos-se um banquete, distribuímos-se as terras, demos-se uns ósculosinhos, d’ssemos-se umas rezas e prometemos-se umas igrejas e ir à bola c’o papa. Até que sem se estar à espera, quando távamos-se todas à volta da fogueira a aprender como ganhámos-se uma bandeira, um da gente, todo p’ó armado em espertalhão, virou-se p’ó anão e disse-le:

Olha lá, ó afonsinho do condado, e se o people descobre que tu andas aí c’uns tamancos pa pareceres mais alto e que na verdade és mais mirrado qu’uma melusina? Vai-se a dignidade toda dos homens e vão-se as terras conquistadas p’ó cano do conde. Tás a ouvir, ó matraquilho?! O melhor é colares os saltos agulha à sola do pé e queimarem-te todo, assim que bateres o coturno! Vê lá mas é se não te encontram essas ossadas, senão o mito qu’é nada qu’é tudo já era. Olha, e já agora passa aí a mão toda lambuzada de sangue pelo escudo e diz que vistes Deus e que falastes com ele, como a filha daquele outro solnado, qu’é pa ver s’o people todo come a história até ao fim e se cala bem caladinho.

Ora, a gente comemos-se a história toda até ao fim e calámos-se bem caladinhas. Como sempre. Comemos-se sempre e calámos-se sempre. Depois, nhec nhec, fáfáfá, blá blá blá, ai uma universidade, ai el rei de Portugal e dos Algarves, ai o que é isso? são rosas senhor, ai uns trovadores, ai a coita d’amor e a quinta das lágrimas e as ninfas do Mondego, ai uma padeirinha e um mosteirozinho, ai uma nova dinastia, e coisa e tal, e pumba! A gente tivemos-se uma ideia, ou então roubámos-se, mas isso agora não interessa: bora lá chegar à Índia pelo mar que tá lá um João prestes a s’ir embora sem nos dar umas sedazinhas e umas pimentinhas p’a nos melhorar aqui o orçamento de estado.

Ora, deus quer, a gente sonhemos-se, a obra narce, coiso e tal, e uaaaaaau a terra é redonda, uaaaaau o Brasil, que mais tarde nos vai dar tanto ourinho pa fazer um conventozinho ali em Mafra, uaaaaaau os pretinhos do Biafra que mais tarde temos que os matar (e o melhor é poupar uns agora e por-le-zios a trabalhar pa nã dizerem qu’a gente semos más, porque a gente nã semos más, a gente semos é umas conquistadoras e queremos ser toda gente em todá parte). Prontos, portantos canta-se o já fui ao Brasil Praia e Bissau Angola Moçambique Goa e Macau pa animar a malta, porque a gente gostamos-se é de festa e de forrobodó. Atão, quando tava tudo a ir tão bem, é pá, tava tudo a ir tão bem, a ir memo memo memo memo memo bem, é que era memo o protótipo da perfeição, tava tudo tão certinho, quando.. olha… caramba… temos-se o caldo entornado. Fodemos-se à grande!

E porquê? A gente fodemos-se à grande por causa daquela amostra de gente que quis ir lá p’a África, quando toda a gente já sabia que aquilo é animais que não valem as catanadas que levam. Por causa daquela gente cor de caca, fiquemos-se espanholas e com um trauma pa resolver, que não há divã de psicanalista que nos livre da maravilha fatal da nossa idade!

P’ra quê tanta educação, e tanta reza, e tanto jesuíta, e tanto pequeno-almoço na cama, e tanta loucura e fervor religioso se depois era p’a desaparecer assim sem deixar rasto? A gente bem qu’o desejamos-se, mas ele nã queria saber de nada, só queria cavalgar e brincar aos larylas e loyolas.

Ora, Sebastião pr’Alá e nuestros hermanos pra cá, vem a filipada toda e ai paella, ai castanholas, ai mi abuelita, ai the-the-the-the-the-the-the-the-the. Mas chegou a altura em que a gente tivemos-se que dizer: Prontos, adios! Já chiega, cabrones hijos de puta madre, até niunca miais, qu’isto se o minifúndio é da gienti, pr’á gienti tem de voltar. Qu’isto a gienti temos um pacto com Dios e semos-se protegidas por iele diesde que narciemos. Vá, tudo a reboque, tudo prá casa da mãezinha, tudo a voltar outra vez p’ágente. C’a gente semos-se ricas!

E então vêm umas barrazinhas do Brasil, vão uns escravozinhos p’á sanzala e uns indiozinhos pa debaixo da terra. A terra treme, vem a onda gigante e por arrasto vêm umas nespressezinhas e o George Clooney, vem a Sinh’á Moça e vem a Kanangazinha do Japão. Até que vêm também dois irmãos e começam à porrada. Lá está, tudo ao soco outra vez. E porquê? Porque um quer ser rei à maneira antiga, o outro quer ser rei à maneira moderna. E até podíamos-se fazer aqui mais um quadro, uma rabulazita, contar mais uma história bonita do nosso país à beira mar plantado, não tivéssemos a gente a bexiga pequena e com vontade de ir ao toilette e ainda temos que chamar o ascensor barra lift, qu’é assim qu’a gente dizemos-se na dezanuviada siècle enquanto fumamos-se umas cigarrettes pensativas.

Bom, vá lá ver, a gente resume pa chegar lá mais depressa: Tratatatatatata, e lá foi mais um, tratatatatattatatta, e lá foi mais outro, há um que foge, outro que é morto, há aquele que se escapa, até que: Surpresa! Aí vem ela, a desejada, toda nua, toda descascada, aí vem ela de mamas à mostra, a dar ao mamaçal, olha ós melão, aí vem ela de mamas ao léu pa dar leitinho à gente qu’agora semos muitas e queremos todas tar lá em cima. Todas! Todas a beber leitinho das tetas suculentas da republicazinha, todas p’á assembleia, à mama, e quantas mais formos melhor, qu’isto a história dos três porquinhos é muito pobrezinha e dos sete anões também. A gente semos-se mais, semos-se muitas, e não é poucas não é!?! Bastantes! A gente semos-se mais que os cento e um dálmatas ou as vinte mil léguas submarinas, porque a gente queremos é despir-se e dispor-se em tudo, a gente queremos-se é ser presidentes nem que seja por um dia.

Tudo quer ser presidente do retangulozinho, tudo quer mandar e ter o poder, e opinar e legislar e fazer leis. Morrem mais uns e matam-se mais outros na guerra quando de repente, porque a ocasião faz o ladrão, acaba por vir o lobo mau do tostãozinho. Vem pé ante pé pa comer os porquinhos, torturar uns ali p’ó lado de péniche, pôr outros a andar e matar pretos (agora sim, mais e mais e outra vez porque a diferença encontra-se na repetição). Tra-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-

Pausa.

A gente precisamos-se de uma pausa.

Pausa para respirar de alívio.

É mortos a mais pr’á gente e a gente afligimos-se.

Pausa.

Pausa de bancarrota e de misérias da Europa.

Pausa de tanto dizer mal da gente.

Pausa dos vencidos da vida.

A gente precisamos-se de se acalmar e de aumentar o id, o ego e o superego da gente.

A gente precisamos-se de propaganda e de dizer bem da gente, porque a gente nã semos-se animais.

A gente queremos-se é encher os bolsos e pôr a cabeça a descanso e o corpo a prémio.

A gente precisamos-se é de uns cartazes, umas frases e de alguma coisa pra sentir saudades.

A gente semos-se o menino da lágrima.

A gente semos-se um poema de melancolia e dor.

A gente semos-se um plácido rosto contemplando o mar ao longe.

A gente semos-se uma vasta planície do Alentejo.

A gente semos-se boas.

A gente semos-se boazinhas.

A gente semos-se super boazinhas.

A gente semos-se super hiper mega boazinhas.

A gente semos-se obedientes.

A gente amamos-se e respeitamos-se a deus.

A gente amamos-se ao próximo com’à gente mesmas.

A gente sentimos-se tanto, tanto, tanto.

A gente sentimos-se imenso.

A gente semos-se as melhores na construção civil.

A gente semos-se aquedutos, pontes sobre o Tejo, escolas primárias e padrões.

A gente semos-se um mundo. Português.

A gente temos-se a luz de Lisboa, os pastéis de nata, o fado e o vinho do Porto.

A gente compreendemos-se um olhar raiado de sangue de uma viúva cujas rugas tremem com tanta cólera e mágoa sentidas. A gente cheramos-se. A gente fartamos-se de cherar!

A gente tamos-se todas queimadinhas.

Já chega de pausa.

Ora, no momento em que o lobo mau tava quase a rebentar pelas costuras da cadeira, eis que surge vindo do nada como uma fénix renascida, saído de uma manhã de nevoeiro, morto há tanto tempo, o nosso esperado, o nosso destemido, o nosso único e incrível e lendário – Galo Nosso de Tróia.

Ele já tava tão farto do lobo mau, mas tão farto, tão farto, tão farto, tão cansado de ver o capuchinho e os porquinhos mais os memés todos a fugir, que se vira para o espelho e pergunta:

Espelho meeeeeeeeeu, óóóóóóóó espelho meeeeeeeeeeu, há aqui alguém mais belo que eu?

E o espelho responde:

Ai filho, que coragem! Ao nível do galo, não há ninguém mais belo que tu, melher. Mas olha: há por aí uns muito ricos sempre à sombra de uma oliveira, protegidos pela nossa senhora que lhes apareceu por cima e que parece que ficou pra lá pendurada num dos ramos. Eu, se tivesse no teu lugar, dava cabo deles e mandáva-le-zios ir dar uma volta ao bilhar grande.

Atão, depois do espelho falar, pôs-se uns quantos capitães dentro do Galo de Tróia e como ele era muito vaidoso, e não se queria ficar atrás do cavalo, disse-les assim antes de se porem os capitães a caminho de Ulissipo (e isto aqui é só mais uma referência pa deixar as ratas da literatura todas contentes):

Meninos, nada de tiros qu’eu sou pela paz. Ponham antes essas florzinhas nos canos dessas armas que vocês aí levam penduradas e muito murchas porque o espelho diz que aqui não há galo mais belo do que eu.

Um dos capitães perguntou:

Quem és tu?

E o galo respondeu:

Das duas uma: ou samicas alguém ou então ninguém.

E o capitão disse:

Samicas caganeira.

E o galo respondeu:

Cagamerdeira. Má ravugem que te dê.

E o capitão disse:

E esta barca, onde vai ora, que assim está apercebida?

E o galo respondeu:

Vai para a ilha perdida, melhér, e há-de partir logo ess’ora. Portantos, fecha essa matraca e cal’ó bico qu’aqui quem tem bico sou eu.

E prontos: esta é a história do Galo Nosso de Tróia e isto é tudo tão verdade quanto a gente continuarmos-se todas muito pobrezinhas, muito invejosas, a gritar umas c’as outras, a brincar às ricas e ao jogo do tira e põe e rouba o tostãozinho ao outro e não ao mesmo. Toooooooooooodas!

 
Texto integrante do espetáculo Tropa Fandanga,
apresentado pelo Teatro Praga no TNDM II, Lisboa, e no MC 93, Paris.

 

Diogo Bento é actor e professor.

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