Calendário

PAULA JANUÁRIO

 

Os homens e as mulheres depressa esquecem as alegrias genitais para reproduzirem os medos que rodeavam a sua espera tão vaga durante o tempo ainda não semantizado da sua longa infância.
PASCAL QUIGNARD, Sombras Errantes

 

Ugo Mulas, Pistoletto (1970).

Ugo Mulas, Pistoletto (1970).

 
Na cadência dos anos a sucederem-se aceleradamente – empurrando para o futuro em dias que passam e continuam a passar, sem fim, conforme se ouve Laurie Anderson em “White Lily” –, voltamos sempre, num dado momento, a estar equidistantes do princípio e do fim do Verão. Exactamente em Fevereiro, estamos fora da influência da sua ligeireza, plenamente imersos no poder da winterreise. As avaliações de Fevereiro são defensáveis em qualquer estação.

De volta à recente rentrée na época laboral, relembrando Setembro em detalhe e recordando-o de longe, algo no processo de retomar a regularidade embate na sua própria lógica interna e gera uma última revisão à naturalização da dicotomia que opõe o Verão aos restantes meses como nenhuma outra estação faz. Uma perseveração que gera uma espécie de suspensão do arranque desenrolada na extensão do tecido próprio do regime laboral, da utilidade, da malha da economia do negócio e da regulação semio-capitalista que esta faz da possibilidade do ócio, da absorção do excesso pela autoridade do consumo: do calendário da combustão homeostática, da dispensa em intervalos adequados à sustentabilidade da regra. Dispensar o excesso nos padrões de um tempo compatível com a medida da funcionalidade é a forma de a propagar sem míngua e, também, de não descontinuar a mediocridade. Enquanto pausa, seria esperado que o Verão fosse oco, desprovido de conteúdo, contudo, a imprensa condescendeu essa inutilidade enquanto silly.

De entre as diversas ofertas literárias, cinematográficas e discográficas de Verão, a dazeddigital – versão online da revista britânica Dazed & Confused – apresentou no último Verão um programa desinteressado, inconclusivamente aquém ou além da sua intenção consciente, eventualmente de uma honestidade ilusionista, capaz de se surpreender a si mesma. No contexto do States of Independence – classificado como “Summer US Project” –, a revista convida curadores, instituições e publicações a tomar a revista por um dia.

Uma das semanas é dedicada a uma visão alargada sobre sexo que se denomina semana State of Sex. Num dos dias, a carta branca foi dada à recentemente criada publicação Adult (no segundo número). O programa inclui uma mesa redonda, United Nations of Erotics, com a participação das mais recentes publicações eróticas, que no conjunto representam realmente os nomes mais visíveis do espectro editorial duma certa wave of new sex-orientated magazines, na qual, no entanto, a auto-identificação enquanto intellectuals who operate from gut instinct and thinkers who are afraid of stupidity and laziness (revista Sang Blue, mas generalizável por extensão ao conjunto do painel) serviria melhor uma revisão do fundo imagético daquilo que pode constituir o erótico se estivessem presentes outras publicações, de entre as quais a E.R.O.S..

Mantendo latente este ambiente da proposta da revista Adult ao convite da Dazed & Confuzed, interessa focar o olho da tempestade – se pensarmos de forma assim ciclónica o afunilar dos restantes meses para o centro do Verão – e passar a um outro contributo da participação da Adult: o lançamento do primeiro filme realizado especialmente para a revista, Long Explosure (Berkeley Poole e Jamie Webster), para o descartar e finalmente parar, para permanecer onde o filme foi, segundo os autores, inspirado num tumblr que classificam como um dos favoritos da América. Trata-se de um blog que consiste na publicação de fotografias de genitais masculinos, produzidas pela própria pessoa ou por um íntimo, submetidas voluntária e anonimamente, e que são avaliadas e pontuadas considerando a sua qualidade fotográfica, em função da confluência de critérios técnicos e sensuais. A justificação apresentada pela Adult da sua escolha enquanto fonte de inspiração para o filme, e simultaneamente motivo indirecto da sua realização, é a tentativa anteriormente repetida e falhada da revista de produzir, para a edição impressa, um dick pic (fotografia de pénis) satisfatório o suficiente para publicação.

No ricochete do embate da produção de cultura de massas no perímetro onde o intervalo de veraneio se alterna com o regime de funcionalidade, outras formas antónimas de alternância se expõem a descoberto. Para além da primeira oposição entre íntimo e público, a forma casual e lateral como este tumblr surge no programa da Dazed & Confuzed enuncia uma dialéctica que se dirige à sazonalidade enquanto plataforma política. Considerando esse género de tumblr na medida do excedente de inspiração, que tem capacidade de dispensar à popular Dazed & Confuzed – uma plataforma não alheada dos principais paradigmas artísticos e sociais em problematização actualmente – a sua colocação no Verão (diversas outras publicações propõem temas de sexo e erotismo na edição de Verão, e, por exemplo, a parisiense Les Inrockuptibles reserva anualmente o mês de Julho para o tema), insinua um duplo movimento destas imagens. Não só para fora da sua esfera apropriada, do privado para o público, mas também para a aritmética do regime de excepção, situado no espectro oposto ao regime útil da norma.

Partindo de Lacan, Slavoj Žižek organiza o prazer em duas categorias. No contexto da economia sanitária da sociedade consumista actual, distingue o prazer (pleasure) do gozo (enjoyment, jouissance). Este último é um excesso mórbido, além do princípio do prazer e sempre excessivo; em oposição ao prazer, que é em si moderado, regulado pela medida certa e praticado pelo hedonista “iluminado” que o calcula cuidadosamente, de forma a prolongá-lo sem tocar o dano, e que se opõe ao jouisseur “disposto a consumar a sua própria existência no excesso mórbido de divertimento”. A chave para o entendimento da situação do prazer, nomeadamente o erótico, na nossa sociedade reside na sua ausência de função, na sua inutilidade. Sendo o gozo aquilo que não serve para nada, o esforço da sociedade contemporânea, continua Slavoj Žižek, é “incorporar esse excesso incontável e inexplicável no campo do contável e explicável”. Concomitantemente, Bernard Stiegler refere-se à semântica da distribuição temporal: “a excepção é a regra, mas é preciso cultivá-la, quer pelo culto, quer pela cultura como otium, para conter o seu excesso e, ao mesmo tempo, para a reafirmar e manter continuamente, pois ela faz falta estruturalmente e aparece primeiramente como defeito, isto é, como a singularidade da idiotia. Estando voltada para o extra-ordinário onde se eleva, todas as condições existem para que a excepção seja contestada pela força estúpida mas espontânea do vulgar. Como regra, o excesso que é a excepção é a vida enquanto vontade de poder, enquanto força que é preciso proteger dessa contra-força que é a vontade de poder invertida em forte banalidade espontânea do vulgar, que tende espontaneamente a submeter a existência à hegemonia da subsistência”.

O suporte e o contexto de publicação relacionam-se com a imagem para lhe indicar o seu campo apropriado, e essa relação constitui-a mesmo retrospectivamente no momento em que é gerada, motivo pelo qual à pergunta quem somos?, lembra Bernard Dufour sobre a exposição física humana, respondemos há milhares de anos, invariavelmente, não somos animais, prosseguindo que qualquer ser humano cujos genitais estão expostos deve manter-se anónimo. À possível irrelevância duma dada imagem fotográfica perdida no cosmos profundo da internet – que pode ser esquecida, apagada, destruída – sobrevive a imagem pensada, que transporta a relação contratual a que Ariella Azoutay chama, noutro contexto, contrato civil da fotografia. Esta é conduzida pela mesma categoria de tensão latente entre os estudos visuais e a história da arte, posterior ao primeiro objecto contratual consciente e intencional para a imagem, a moldura; e nos interstícios da qual, W. J. T.Mitchell pergunta não só what do pictures want?, mas também qual é o segredo da sua vitalidade? Referindo-se à participação do corpo na performance, Kristine Stiles enquadra-a numa forma de construção do que significa o verbo ser, na qual nada pode substituir o emprego do próprio corpo. Nesta avaliação, uma fotografia de genitais masculinos pode ser uma pornografia falaciosa, uma forma simultânea de transparência e opacidade somática, equidistante da mais íntima privacidade e da maior exposição, aqui sem se atrever a ir contra a dicotomia imposta pela exclusão recíproca que biblicamente opõe face e genitais em matéria de exposição do corpo. Neste caso, insinua-se um salto democrático no vazio, no gesto de fotografar os próprios órgãos genitais (ou de alguém íntimo), submeter a fotografia a um avaliador igualitário e torná-la visível a uma audiência indecifrável do cosmos aberto e descontrolado de algoritmos, pixéis, programação, codificação, de um regime intelectualmente incompreensível mas ao acesso dos dígitos.

A exposição pública voluntária por pessoas privadas e anónimas de genitais sugere um avanço indiferente à desigualdade fomentada pela democratização do capital que, defendem alguns, invade a esfera individual e lhe retira a autoridade sobre o seu prazer para lho voltar a devolver depois de credenciado medicamente e prescrito pela cardiologia, nutricionismo, dermatologia. A exposição pública voluntária por pessoas privadas e anónimas de genitais apresenta-se como um eventual desdém a um contrato anterior e vira do avesso a plataforma contratual, inutilizando-a. Kristine Stiles, novamente abordando o corpo no contexto da performance e respondendo às questões de W.J.T.Mitchell acima mencionadas, sugere que comissura é o que as imagens procuram.

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BIBLIOGRAFIA

AZOULAY, Ariella, 2008, The Civil Contract of Photography, Nova Iorque: Zone Books.

DUFOUR, Bernard, 2009, “A Universal Taboo”, in 100 000 Years of Beauty (ed. Elisabeth Azoulay, Angela Demian, Dalibor Frioux), Paris: Gallimard.

MITCHELL, W.J.T., 2004, What Do Pictures Want? The Lives and Loves of Images, Chicago: University of Chicago Press.

GROYS, Boris, 2010, Going Public, Berlim: Sternberg Press.

STIEGLER, Bernard, 2004, Descrença e Descrédito (trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira), Lisboa: Edições Vendaval.

STILES, Kristine, 2003, “Performance,” in Critical Terms for Art History (ed. Robert Nelson and Richard Shiff), Chicago: University of Chicago.

ŽIŽEK, Slavoj, 2012, O Ano em que Sonhamos Perigosamente (trad. Rogério Bettoni), São Paulo: Boitempo.

 

Paula Januário escreve sobre arte.

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