A Galeria em chamas: o esplendor dos romances – algumas estrofes

MANUEL GUSMÃO

 

7.ª estrófe do “velho oceano”

Eu saúdo-te ainda, velho oceano, ó Grande Celibatário,
tu és mais belo que a noite.
Tu nem sequer sofres com o sol, o confronto
nem os compromissos, nem as vénias
para o outro passar
e entrar em cena.

Em ti, dentro de ti, só conheces o dia tamisado, o dia
anoitecido e a noite que densa e fosforescente desce.
Nocturna é a tua vegetação
e os brilhos luzentes e excepcionais dos teus povos
acendem-na;

enquanto um afogado pensativo, por vezes
desce
, flutuação pálida e explosão macia, no Poema

Do Mar.

Até poisar no palco do teu circo

por entre os metais fundentes, as cordas enlouquecidas
e os        perfis ardentes da orquestra submersa.
A noite, sim, é bela. Mas tu, Tu és a noite Multiplicada.

 

Hoje, num poema de HH

os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,

não uses as unhas senão nas linhas mais puras,

e a grande constelação do cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia

e de fogo,

e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,

e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível

contra a turva sede da matilha,

com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros:

queres apenas aquela gota viva entre as unhas,

enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros

à procura do ouro



(poema inédito de HERBERTO HELDER, hoje publicado na página 9 do P2)*

Os cães cegos do Mediterrâneo ladram hoje e hoje a tempestade à lua,
à lua que velozmente desaparecia dos gerais – a montanha, os desertos,
as florestas, o imenso mar sob a pedra frangível
e azul
e negra dos céus.
Entre a constelação do grande Cão e a cordilheira dos Andes
pairava na transparência do quartzo
uma gota de água mínima e puríssima.

O vaqueiro que fora até ao fundo sem fim dos gerais e
voltara com a poesia, para contar o que vira
está parado na noite do espírito; com as unhas separa dessa noite
a noite do mundo e mostra-a à matilha que
amareladamente parece de lobos – à beira-rio e arrepiam o seu fluxo
como se um vento fossem
que cortasse águas e pedras.
Os cães ladram à imagem dos lobos amarelos e é a essa música
que as anãs vermelhas dançam em torno ao Ouro Central:
um rio incandescente e
frio. Em cujas marés a lua se vem, músculo branco e
brando, deslocando a orografia da sílica,
do feldspato e da mica. –

Sentados nos seus quartos traseiros os cães vigiam os quartos da lua e
farejam a gota de água que, antes suspensa, desce
agora, como uma nave espacial
– alumínio rosado e sonhador – desce
como se fosse um meteoro aéreo
que em aquoso se transformasse e então chovesse.

E então chovia: a gota de água puríssima e mínima;
e chover era no Outono um princípio rítmico. E
as cadelas fecundadas pelas águas férteis
pariam coralmente os lobos originais que abrem as fauces
até á raiz do uivo que é ainda inaudível
encapsulado na noite animal que ofegante
respira.

Os cães gerais alucinam a viagem do vaqueiro procuram-no
com o focinho no cu uns dos outros. Ladram
à generalidade amarela dos lobos que entoam o seu grito; –
ladram e são ladrados: o grande pânico
varre as florestas de neve e em cada folha

poisa uma gota de água como um uivo congelado.

* P2, 14 de Maio de 2011.

 

Myra ou A ressaca da amanhã
Com versos e/ou frases de Rimbaud, Herberto Helder, William Blake e Maria Velho da Costa.

Chegara e demorava-se o tempo
dos assassinos
e amava ela um cão que a amava
e amaria um príncipe
que era como se tivesse
sobrevivido à República de Saló.

Agora ao cão chamava-lhe
Rambô
quando estavam a sós. E ele respondia,
com a sua língua áspera:
Hurrah! Hurrah! Pela obra singular
e pelo corpo maravilhoso!

O rapaz princês
que atravessara séculos
até chegar ao desastre
oficiava:
Vamos reunir fervorosamente essa promessa
sobre-humana feita ao nosso corpo e à nossa alma
inventados,
essa promessa,
essa demência!
A elegância, a ciência e a violência!

Tinham-nos prometido enterrar na sombra
a árvore do bem e do mal;
deportar as bondades tirânicas
para que nós pudéssemos
trazer até aqui
o nosso tão puro amor.

O cão lembrava-se do lobo que se escondia
in the forests of the night
e ladrava-lhe à noite, de manhã.

Ah!
Houvesse quem fechado sobre a carne doce e confusa
te
dissesse
pela boca como que cheia de um rumor de música,
um anel de névoa, um anel
de água

como quem
te
tocasse na carne
eletrificada da alma
e então ouvisse
nessa como que música rouca
O inaudível: ________________

E aquilo que começou
entre céu e mar
eis que termina com uma debandada de perfumes;
uma guarda de anjos de fogo e gelo
enquanto ele lhe diz: Agarra-te bem
para eu bater com a espinha antes de ti.

E ela a entrar com ele na morte
que não cessa,
pensa um pensamento vivo
dá ao vivo um pensamento
que ladra.

 

Manuel Gusmão é leitor, escritor, professor.

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