Três poemas de 40

LUÍS MAFFEI

 

1976

A palavra formiga é muito longa para ser formiga
O boi não cabe em suas letrinhas
Armário escrito num papel colado ao puxador não
cria um outro armário sobre o armário nem
desmata o que foi mata e já se desmatou há muito
nem desmata o armário morto pelo texto que o inventa só
na morte Isso
tudo é educação pelas perdas que mal se têm
que nem se veem
que só se notam quando é noite a gente sua
e chora como quem responde ao mundo uma resposta muito
boi pouco formiga
e entende
aos poucos
que é por pouco que não fomos concluídos bem no instante de
nascermos que é
um pouco
ir para a vida ir para a morte
ir a palavras como boi como fer
mento muito curta para ser de au
mento muito longa para ser um
boi Isso era educação caso não
fosse noite mal dormida como nunca uma vigília imitirá quando
palavras forem vozes de uma vida que
sem jeito
se encontra a si em poça de suor e urina e cabelos ensebados
pelo medo pelo armário sem
amante nem vestido sem
infância com
infância demais quando não falo
e mais quando só falo e falo dessa infância onde tudo fica ainda e quando boi
era formiga e um mendicante amor de tudo era o
futuro em que
(é agora?)
mendigo ainda e sei que tu mendigas pelo avesso o mesmo
extremo encontro a mesma aberta
cárie a mesma morte que me abraça como
um urso e consegue a criação da vida inteira e o suadouro das palavras
que usam boca e a ressuscitam

 

1984

O infante dobra a esquina até o colégio
ao lado do senão e da padaria
Sufoca-o a exigência de uniforme
e teme a secreção do sacramento
ativo desde a cera fazer uso
esquivo de caixote e natação

Se os brônquios querem os pés na natação
é espreita o muro baixo do colégio
O conga mostra a ver experto uso
da pressa que o levara à padaria
Mas antes ele baba o sacramento
e suja-se o azulado do uniforme

É quando o mecanismo que é uniforme
inteiro joga luz na natação
Sem brônquios que respirem sacramento
um mar se funda e sorve até o colégio
instado pelo andar da padaria
havido pelo riso deste uso

Então só cabe haver no palco uso
sem sigla nem botões no uniforme
Atrás do muro esquece a padaria
e cansa o musculito em natação
o infante que esperava no colégio
naufrágio não apenas sacramento

Braceja imaginando sacramento
ao qual clamasse o fim de faina e uso
cnêmio e mais braçal nesse colégio
que força o abraçamento de uniforme
exceto quando arfando em natação
o náufrago recorda a padaria

Visitam-no lembrando a padaria
os gostos de um primeiro sacramento
ou vendo o quanto custa a natação
recorda-se do esperma o prisco uso
Pão doce é creme e açúcar em uniforme
ensejo de montar um bom colégio

O infante do colégio à padaria
arranca do uniforme o sacramento
e a casa é uso anverso à natação

 

1990

Os dias demoram demais a passar
no país mais triste do mundo
Deve ser assim que caminham corpos sem alma
dias sem futuro ou fundo
tudo adiado inclusive o direito de existir
Mas eu
eu comi a mais linda atriz pornô do mundo
branca e de perfil sob o suor que em mim gemia mais
que a soviética sequência de atropelos líquidos na minha boca
boca e tudo e ela debaixo do que serei sou serei
correto e adocicado

A tristeza é um país sem cabeça

19902

 

Luis Maffei é poeta, ficcionista, ensaísta e professor.

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