Carta de anteviagem

MARCELO FELIX

 

porque buscas longe
se tens em ti
porque tenho longe
o que busco em mim
HELDER MACEDO, Nocturno

 

Joseph Cornell,  Planet Set, Tête Etoilée, Giuditta Pasta (dédicace), 1950.

Joseph Cornell, Planet Set, Tête Etoilée, Giuditta Pasta (dédicace), 1950.

Dirão alguns que não tenho razão: as viagens são também o que acontece nas distâncias vencidas. E o que muitas vezes acontece são os outros, as conversas, os pensamentos, a paisagem a desfilar veloz, os sons que a acompanham, a refeição, a leitura, a música, o filme, o amor, o sono, a solidão. Todos esses acontecimentos são potenciados pela viagem, que os torna diferentes – é diferente a nossa vida, nos seus pormenores mais repetidos e rotineiros, quando nos movemos.

Mas insistirei que ao partir de viagem, quero significar a viagem. E ao fazer a viagem, significar não só o mundo que encontro, como a própria viagem. Pois viajar tem pouco a ver com ir daqui para ali, ou de além até algures. Viajar não é vencer distâncias, mas descobrir a nós mesmos no que existe. Já percorrer distâncias é apenas isso, percorrer distâncias. Tão banal e inócuo que podemos fazê-lo a dormir, transportados.

Nunca merecerá ser referida como viagem a distância vencida. Mas o caminho que nem se chega a empreender pode ser uma viagem, e aquilo que não veremos pode com todo o cabimento ser mais vívido e real na promessa sempre considerada do que a sua concretização num encontro apenas factual, apenas físico, apenas perfunctório, feito num momento qualquer, ao qual se chega de bagagem desadequada e que se desfruta na apreensão do que falta ver.

Este desarranjo do momento é uma frustração que o turista hesita em reconhecer – pois teria de confessar que não guardou verdadeiramente os momentos que foram pretexto para a sua viagem; apenas avolumou o catálogo pessoal de aquisição dos lugares e acrescentou um episódio à narrativa que, se razoavelmente dominada, lhe servirá de mnemónica, o suficiente pelo menos para o convencer de que esteve realmente onde esteve, mesmo não tendo ele realmente aí sido.

Aquilo que frustra a viagem verdadeira é um truísmo tão óbvio que desejaríamos falar uma língua que o anulasse: estar não implica ser – tanto como olhar e ver são acções que não têm de convergir. O remédio para a infelicidade de viajar mal não é mal viajar, como alguns de nós, mais desalentados, acabamos por pensar. É antes uma educação da viagem, que deve incorporar matérias tão diversas como a higiene da postura, o treino respiratório, o apuramento da visão e o desenvolvimento da memória. Sem elas, receio, o viajante não se acha preparado para viagem alguma digna desse nome.

Mas o essencial é o modo como essa preparação é aproveitada: ela não significa transformar a viagem em um nunca acabar de passeios e visitas que se empreendem graças à resistência e à concentração melhoradas. Até porque a educação da viagem não exclui o viajante distraído ou enfermiço: além de tudo o que só a propensão deste para multiplicar o caminho ao perder-se nele ou de reaver o fôlego demorando esse caminho, lhe poderiam dar a conhecer, ele conseguirá precaver-se da fadiga escusada fazendo, como tantos viajantes, aquilo que deve constituir o princípio de qualquer viagem, e que pode com proveito e prazer constituir o seu fim: munir-se de um mapa.

Com o mapa desdobrado estendido numa mesa ou no chão, aberto a todo o comprimento dos braços ou fixado a uma parede, pode o viajante encetar a aventura da nova terra examinando o desenho dos seus caminhos, admirando o colorido da sua topografia, pasmando com as apercebidas distâncias e entusiasmando-se de antemão com o possível espectáculo do todo. Ao fazê-lo, ele estará a conhecer efectivamente um espaço que até aí pouco lhe dizia, e ao traduzir a escala do mapa para realidades imprecisamente mensuráveis ganhará familiaridade com as suas exigências.

Ao ver o traço serpenteante e azul que assinala um rio, calculará o tempo que medeia entre dois pontos vantajosos das suas margens se o quiser atravessar num bote a remos; e no caso de naufragar, imaginará se o seu caudal e a força das correntes lhe permitirão continuar a nado, talvez até salvando parte da bagagem. Ao rolar na boca a toponímia numa língua que não domina, compreende que terá de memorizar todos os lugares e os seus nomes para evitar que os nativos se divirtam à sua custa trocando as placas das ruas e os destinos dos comboios; e se mesmo assim lhe faltarem à verdade com a disposição das ruas de certo bairro, empregará a lógica para resolver a charada e não se deixar enganar – algo que não conseguiria sem um conhecimento razoável da ortoépia, prosódia e sentido de humor locais.

Não devemos estranhar essa intensificação das expectativas daquele que examina previamente o local aonde planeia viajar. Ele apenas precisou de abrir um mapa, e esse não é de modo algum o gesto mais evidente. Da mesma forma que um gnu teria dúvidas quanto à sua utilidade, muitos outros viajantes o dispensam. Conheci quem, tendo visitado numerosos lugares, não os sabia relacionar entre si, nem nunca sentira curiosidade de os procurar num mapa. Alguém me asseverou ter o Liechtenstein uma fronteira comum com a Hungria e a Bélgica. É uma mistura de saciedade confiante e horror ao vazio.

Não é outra a psicologia do viajante moderno, guiado pelo GPS e instruído por imagens de satélite – nem tão-pouco a dos programas que o assistem. O Mar de Coral, no Pacífico Sul, ao qual o Google Earth acrescentou uma ilha inexistente, é disso testemunha, mas não se perceba aqui uma crítica. O viajante moderno e os serviços de busca fazem parte de uma tradição utopista, e como tal integram uma longa linhagem de geografias imaginárias e transportes imaginosos. Estão nesse particular muito à frente do viajante que analisa o mapa, sem suspeitar ainda da imensa simplicidade com que se pode passar pelo mundo.

Há uma cartografia que deveria ser feita, das fronteiras que encerram povos e línguas, plantas e animais, paisagens e climas. As fronteiras, na sua fragmentação activa, são linhas que intervêm na realidade e geram consequências inesperadas. Que, quando acompanhadas da adopção de sistemas sócio-económicos díspares, contribuem para o desaparecimento das condições prévias – a fronteira que separa e secciona irá actuar num organismo que não poderá continuar a ser o mesmo. Ela acarreta factores de mudança, que tanto podem determinar o enriquecimento como o definhamento desse organismo.

Alguns afirmam que a cartografia foi sempre uma ferramenta lógica e indispensável de sobrevivência. Há nessa percepção mais poesia do que suspeitamos. O primeiro mapa-múndi estava inscrito no céu. Vigiar a posição dos astros e o movimento dos animais eram tarefas cartográficas, assim como a procura de água e abrigo. Carteávamos oralmente ou inscrevíamos sinais onde os pudéssemos rever. Quando desistimos do nosso nomadismo natural passámos a ter pouca necessidade de mapas. Abraçámos a emoção menos angustiante de ter um torrão natal e adoptámos a condição mental e física de guardas fronteiriços. A partir daí cartografar o mundo passou a ser tarefa do poder.

Cartografar servia para visualizar o que se dominava e sonhar com mais. Seria infeliz o soberano – ou o mercador abastado – sem mapas que lhe indicassem a sua condição, feita do que já lhe pertencia e do que lhe passou a pertencer, assim como da esperança do que lhe pertenceria. É essa ansiedade a um tempo necessitada de apaziguamento e de excitação que contamina o cartógrafo e faz dele um visionário. A arte da cartografia, nascida da inquietação perante o mundo que resiste à posse, destina-se a suprir essa necessidade de abarcar, de ver a cada momento a representação do território que interessa. Não é para outra coisa que trabalha o cartógrafo.

Mesmo que o não soubesse, ele sempre foi um geógrafo, um geómetra, às vezes matemático, astrónomo, talvez geólogo, ou linguista. Nos seus mapas podia inventariar riquezas e descrever terras e povos longínquos, ou aperfeiçoar o traçado dos meridianos e a representação do relevo. O produto mais sólido do seu afã é a cartografia física. O elemento político, as linhas de separação estabelecidas pelo homem, são desenhos perecíveis com que ordenamos o mundo – ou pelos quais lhe ordenamos que se adapte à nossa visão. O impossível dessa relação reflecte-se nas constantes alterações do desenho. E embora a forma e o relevo do território mudem com tudo o que alarga, retrai, alui, erode, cresce, mingua, irrompe, afunda, seca, inunda, amontoa, escava, se constrói, se destrói, se drena, se represa, se expande e se esquece, são menores as transformações nos mapas físicos do que nos políticos.

Um mapa político são finas folhas de papel vegetal que podemos sobrepor umas às outras, criando um volume translúcido no fundo do qual, atravessadas as camadas difractivas das várias épocas, conseguimos distinguir o mapa físico. Também este passou por um longo processo de composição e maturação, até poder mostrar tudo o que lhe escamotearam, por conveniência ou ignorância, o cartógrafo religioso, o cartógrafo-funcionário, o cartógrafo-agente secreto. “Tudo” é maneira de dizer. Nenhum mapa conta tudo, mesmo hoje, mesmo esquadrinhando o planeta com satélites, sondas e sensores. De resto, quem o saberia ler? Antes disso ainda, quem o quereria consultar?

Que as insuficiências da cartografia e da nossa relação com ela não dissuadam o viajante de a ela recorrer no trabalho prévio de descobrir o mundo. Decerto teme a altura de acumular imagens dos lugares que de forma alguma abarcará – imagens que serão lenitivo para a consciência de ter falhado. Mas mostrar e recordar são apenas parte do que lhe cabe viver após a viagem – o resto é algo que só depois perceberá, algo que o mapa, com a sua subtil manipulação das escalas, já insinuava: o caminho percorrido, sendo ao mesmo tempo o mundo que muda em si e o mundo que em nós muda, tem o efeito de revelar, no que continuamos a ser, a permanência da memória. A medida da viagem é a extensão do que ficou para trás, e a proporção do que mantivemos na bagagem é aquilo com que enfrentaremos o futuro.

Nada disso implica partir já.

Nem, claro, regressar.
 

Texto publicado originalmente no catálogo da exposição Da Cartografia do Poder aos Itinerários do Saber, curadoria de Catarina Pires, Paulo Bernaschina e Emanoel Araujo. Coimbra, Museu de História Natural da UC e São Paulo, Museu Afro Brasil, 2013-14.

 

Marcelo Felix é cineasta.

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