«Ah, a eterna mania das citações»

PEDRO EIRAS

 

Os livros não me dizem nada.
JOSEPH ROTH, 1939: 66

Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
HERBERTO HELDER, 1968:43

 

Certos livros recebem um destino muito antes de existirem como livros: é o caso das Passagens, a obra inacabada de Benjamin sobre a qual se teceram muitas lendas desde que Adorno falou dela pela primeira vez num ensaio publicado em 1950.
Rolf Tiedemann, 1989: 11
 

      Deste projecto temos milhares de páginas, estudos de material que ficaram escondidos em Paris durante a ocupação. Mas não é possível reconstruir o conjunto. A intenção de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. A filosofia tinha que acolher o surrealismo até se tornar ela própria surrealista. (…) Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar de citações. (…) A filosofia fragmentária permaneceu em estado de fragmento, vítima talvez de um método em relação ao qual não ficou resolvido o problema de saber se pode incluir-se no meio do pensamento.Theodor W. Adorno, 1955: 23
          Por muito benjaminiana que esta concepção possa parecer, o editor está persuadido de que Benjamin não tinha intenção de proceder assim. Nenhuma carta corrobora esta afirmação e as duas notas das próprias Passagens (…) em que Adorno se apoia dificilmente podem ser interpretadas neste sentido. Rolf Tiedemann, 1989: 12n

não se deve esquecer que não existem nenhumas Passagens. Estamos realmente a confrontar-nos com um vazio. O fenómeno a que o título se aplica, volume V dos Gesammelte Schriften, dá-nos numerosas pistas de uma obra desejada que nunca se concretizou. Contudo, em termos simplesmente quantitativos, este volume constitui um sexto da produção intelectual de Benjamin, e os seus fragmentos de pesquisas e comentários debruçam-se sobre aquele conjunto de temas que guiaram todo o seu pensamento e escrita de maturidade. Susan Buck-Morss, 1989: 47
 

          Pela sua constituição, Walter Benjamin era o oposto de um filósofo: era um exegeta. (…) [E]ncontramos nele desde o início a imitação camuflada do exegeta, o gesto de se esconder por detrás de montões de material a comentar. Sabe-se que o seu sonho era desaparecer, no auge da sua obra, atrás de uma coação intransponível de citações. E não me referi ainda ao pressuposto que é a violência principal e decisiva de um tal comentador: renunciar, com hipócrita modéstia, ao texto sagrado, mas ao mesmo tempo tratar qualquer outro texto que seja objecto de comentário com a mesma devoção e meticulosidade que o texto sagrado tradicionalmente exige. Roberto Calasso, 1991: 53

 

as Passagens fazem de nós detectives históricos mesmo contra a nossa própria vontade, obrigando-nos a tornarmo-nos activamente envolvidos na reconstrução da obra. Susan Buck-Morss, 1989: X

      Dispomos de uma grande quantidade de reflexões teóricas e de interpretações mas, ao fim e ao cabo, elas parecem quase querer desaparecer atrás da pilha de citações. O editor das Passagens perguntou-se algumas vezes se seria razoável publicar esta esmagadora massa de citações. Rolf Tiedemann, 1989: 12
          não é possível infligir ao leitor quatrocentas páginas de citações. É impossível que Flaubert tenha querido isso, a obra não seria legível, um tal empreendimento não seria digno dele. (…) Mas com que direito se pode decidir? Terá Flaubert realmente renunciado à literatura nesta pesquisa paciente, ainda literária? Acaso não afirmou sempre a importância desta cópia? Geneviève Bollème, 1966: 11

 

O que nos deram sempre não é um livro inacabado mas um livro truncado, e esta pseudo-conclusão da obra existia realmente, confirma-o Flaubert: O meu segundo volume está terminado em três quartas partes e será composto quase só por citations: O segundo volume é constituído pelas citações previamente recolhidas durante anos a fio, cujos elementos estão reunidos na Biblioteca de Rouen em oito manuscritos, totalizando 2186 folhas que nos habituámos a designar sob o nome de «Disparatário». Geneviève Bollème, 1966: 10

                  U.E. – Tenho um fascínio pelo erro, pela má-fé e pela estupidez. Sou extremamente flaubertiano. Tal como o Jean-Claude, adoro a idiotia. Umberto Eco & Jean-Claude Carrière, 2009: 130
      O filósofo chinês Chuang Tsi compôs, ainda na força da idade, um livro de cem mil palavras, do qual nove décimos eram constituídos por citações. Livros destes já não se conseguem escrever entre nós, pois falta o engenho. Em consequência disso, os pensamentos produzem-se só em oficina própria, passando por preguiçoso aquele que não apronta quantidade suficiente. Bertolt Brecht, 1948: 29
          Para dizer tudo, este livro não precisaria de autor, Flaubert seria quando muito o prefaciador. Geneviève Bollème, 1966: 24)

 

As citações, no meu trabalho, são como salteadores à beira do caminho, que irrompem armados e retiram ao passeante a sua convicção. Walter Benjamin, 1928: 98

      Como vai acontecer muitas vezes eu citar assim, pois bem, volta a ser uma citação de Benjamin por Adorno que me encoraja a pensar que o meu uso das citações deveria ser aqui tudo menos académico, protocolar e convencional, mas antes, mais uma vez, inquietante, desorientador, ou mesmo unheimlich. Duas páginas antes, no mesmo texto, Adorno lembra que Benjamin «levava à letra (wörtlich) a frase de Rua de Sentido Único segundo a qual as citações nos trabalhos se pareciam com os salteadores dos caminhos (wie Raüber am Wege) que surgem de repente para despojar o leitor das suas convicções» Jacques Derrida, 2002: 21-2

 

O meu livro tem de se tornar uma bíblia científica – um padrão real e ideal – e germe de todos os livros. Novalis, 1798-1799: 99

      Sim, falar como quem cita a verdade. Era o mestre Brecht que dizia. Que os actores devem citar. Jean-Luc Godard, 1971: 20
          Antigo aluno da «Central», estabelecera para consigo mesmo que o livro onde acumulasse o essencial da sabedoria ensinada desde que o homem existe, lhe revelaria matematicamente o segredo da vida e da morte. Por isso, coligia afanosamente máximas de todas as proveniências e, tal como em pequeno, bastava aquele entretenimento dos recortes para o distrair. François Mauriac, 1923: 13-4

 

      Uma citação, mesmo quando literal, é sempre uma interpretação. Luís Miguel Nava, 1991: 80

Há um contar de si no escolher,
no buscar-se entre o que dos outros,
entre o que outros disseram
João Cabral de Melo Neto, 1974: 113

      Ver-me-ei na obrigação de utilizar bastantes citações. Nunca, a meu ver, para conferir autoridade a qualquer demonstração; mas meramente para fazer sentir com que terão sido tecidos, em profundidade, esta aventura que conto e eu mesmo. As citações mostram-se úteis nos períodos de ignorância ou de crenças obscurantistas. Guy Debord, 1989: 16
          As citações são deslocadas de um contexto para outro, alterando-se nesse movimento quer o ponto de partida quer o de chegada, uma vez que citar é sempre assinalar uma perda de contexto, uma ausência do passado como um todo disponível, e interromper aquilo que seria o contexto actual. Sendo esse o excesso da herança no campo do pensamento, no qual a acumulação não tem a mesma importância que no campo do conhecimento, o modo de citar não deixou de levantar problemas. Silvina Rodrigues Lopes, 1998: 169
              Qualquer signo, linguístico ou não linguístico, falado ou escrito (…), pode ser citado, posto entre aspas; nesse sentido ele pode romper com qualquer contexto dado, gerar infinitamente novos contextos, de forma absolutamente não saturável. Isto não significa que a marca valha fora do contexto, mas pelo contrário que apenas há contextos sem nenhum centro de ancoragem absoluto. Jacques Derrida, 1971: 36

 

¿como distinguir o mau ladrão do bom ladrão? o mau ladrão rouba a cinza e o bom ladrão rouba o fogo
¿e como saber se é fogo ou cinza o que há à mão do roubo?
¿será que a cinza é só cinzenta e o fogo roubado queima até ao osso?
Herberto Helder, 2013: 59

      Roubo tudo o que valha a pena. Palavras, frases, ideias. Normalmente, roubo aos mortos. Estes mortos já tinham roubado a outros que, por sua vez, já tinham roubado a outros ainda. É uma tradição antiga e muito bonita. Não me importo nada que me roubem, o prazer é todo meu. Rui Manuel Amaral, 2013: s/p
          Beaufoy (Lerdifalando)
          (…) Nenhum cavalheiro nato, ninguém com os mais rudimentares reflexos de cavalheiro se aviltaria a semelhante conduta particularmente abominável. É um desses, meus senhores. Um plagiário. Um furta-cor xaroposo mascarado de literateur. É perfeitamente óbvio que com a mais inerente baixeza ele surripiou de meus livros benvendáveis, material realmente deslumbrante, uma gema perfeita (…).
          (…) Meu agente literário senhor J. P. Pinker está presente. Suponho, meu senhor, que receberemos as habituais indemnizações de testemunha, não é assim? Estamos consideravelmente parcos de bolso por causa desse foca desse joão-ninguém da imprensa, essa gralha de Reims, que nem sequer esteve numa universidade.
          Bloom (Indistintamente)
          Universidade da vida. Malas artes. James Joyce, 1922: 333

 

É precisamente devido a ligeiras modificações que pode haver transferências (…) entre a Sagrada Escritura e a sua imitação, o jornal: é nisso que, na opinião de Kraus, se baseia a teoria da citação, o cume da sua sátira, se é certo que «a suprema proeza estilística [da sátira] é a disposição gráfica». Essa ligeira modificação pode ser apenas a junção das aspas a um texto e a sua reprodução, sem comentários, na página de «Die Fackel»; porque essa página é um ordálio: a citação sairá dela viva ou morta, mas sempre transformada, terá falado uma outra língua. Roberto Calasso, 1991: 36-7
 

      E apesar disso: não estão lá, precisamente no Leôncio e Lena, aquelas aspas que, invisíveis, sorriem para as palavras, e que querem ser entendidas (…) como qualquer coisa que se põe à escuta, não sem receio, de si e das palavras? Paul Celan, 1960: 62

Na foto dos anos 1940 ou na carta às irmãs, as frases aparecem como máxima de vida e funcionam como programa literário. Mais tarde, as citações serão absorvidas num movimento que é o da transfusão do seu viver na literatura, do seu viver de literatura. A visão dos manuscritos revela frases entre aspas, muitas vezes sem a identificação da proveniência. Algumas foram assimiladas. A própria Olga Borelli, no livro Clarice Lispector. Esboço para um possível retrato, apresentou citações transcritas sem indicação de aspas. Claire Varin assinalou as aspas desaparecidas em sua tese de doutorado, em 1986. Carlos Mendes de Sousa, 2013: 32

          Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método. Machado de Assis, 1881: 41

 

Escreverei aqui os meus pensamentos sem ordem, e não talvez numa confusão sem intenção: é essa a verdadeira ordem, e que distinguirá sempre a minha matéria pela desordem mesma. Seria honrar demasiado o meu tema tratá-lo com ordem, já que pretendo mostrar que o considero incapaz dela. Pascal, s/d: 24

                  Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. Pessoa/Soares, 1998: 54
      A última coisa que descobrimos ao compor uma obra é onde havemos de pôr a primeira. Pascal, s/d: 24
              Estou a afastar-me do tema, como sempre… Jacques Derrida, 2004: 38
          e apontei nesse caderno tudo
          o que pudesse ser útil ao texto invisível
          que imaginava
          Miguel-Manso, 2008: 39

 

ainda nem citei como deve ser (…) e, não obstante, a citação de livros novos e velhos é o maior prazer de um jovem autor, e umas citações bem eruditas são um ornamento completo para a sua pessoa. Não pense, Madame, que me faltam os conhecimentos quanto a títulos de livros. Além disso, conheço o truque dos grandes espíritos, que sabem tirar as passas dos bolos e as citações das revistas universitárias; também sei como se fazem as coisas. Heinrich Heine, 1826: 59

          Marina Colasanti: O título Perto do coração selvagem é tirado de Joyce, se não me engano.
          Clarice Lispector: É de Joyce sim. Mas eu não tinha lido nada dele. Eu vi essa frase que seria como uma epígrafe e aproveitei. Clarice Lispector, 2005: 144
      sou um homem de recursos, tenho as minhas 10000 citações anuais para consumir, mais, inventei um processo de fazer passar citações falsas por verdadeiras. Heinrich Heine, 1826: 60

Munido de uma boa máquina de pesquisa e de uma biblioteca digital, qualquer aluno universitário falhado pode passar por um académico erudito, citando os clássicos sem ter lido nenhum. Espen J. Aarseth, 1997: 28
 

Gostaria de perceber que no momento de falar uma voz sem nome me precedia há muito tempo: bastaria, então, que eu encadeasse, prosseguisse a frase, me alojasse, sem ser percebido, em seus interstícios, como se ela me houvesse dado um sinal, mantendo-se, por um instante, suspensa. Não haveria, portanto, começo Michel Foucault, 1970: 5
 

talvez o anjo cabalístico
tocando-me o lábio superior ao nascer
me tenha condenado ao destino paradoxístico
e ocioso de repetir, repetir, repetir
Manuel António Pina, 2003: 18

              Cada vez que falava citava sempre um autor qualquer. Afonso Cruz, 2010: 44

Ah, a eterna mania das citações; era como se, para ele, a passagem pela existência não fosse mais do que uma longa vagabundagem por uma Paisagem infinita decorada apenas com citações, bonitas e multicoloridas colecções de citações expostas como bibelôs atrás das vitrinas, e era por isso que às vezes agia como se estivesse muito pouco disposto a duvidar de que, em virtude da sua auréola mágica, uma citação sobre a esperança pudesse realmente infundir esperança. Ricardo Cano Gaviria, 1989: 16
 

Nove em cada dez americanos venderam a alma a troco de uma citação. Gravitam em torno de uma fórmula de palavras que não em torno dos seus próprios centros.
(…) Encostem à parede um americano na discussão de um qualquer problema fundamental, aos vossos olhos e à vossa escolha, e por seu último arquejo servirá uma citação. Ezra Pound, 1950: 13

          o homem é submergido pela enxurrada de tudo aquilo que nunca foi. Friedrich Nietzsche, 1874: 115
      Eu tinha uma quantidade de cadernos durante o tempo do liceu e da faculdade, mas quando deixei os estudos, por alguma razão estúpida – ou talvez sensata… – deitei tudo fora… Escrevia nesses cadernos noite após noite. Mas se os não tivesse deitado fora, talvez nunca tivesse escrito nada de original – porque eles eram sobretudo a acumulação de coisas que eu tinha lido e ouvido, citações de livros. Jim Morrison, 1971: 10-1

O homem moderno acaba por ficar com a barriga cheia de uma massa enorme de conhecimentos indigestos (…). Quem quer que passe por isto tem um só desejo: que uma tal cultura não morra de congestão. Friedrich Nietzsche, 1874: 116
 

o cura (…) disse para o barbeiro que lhe fosse dando os livros um a um para ver de que versavam, pois que entre eles se podiam encontrar alguns que não merecessem o suplício das chamas.
– Não, não – exclamou a sobrinha – não há direito de perdoar a qualquer deles, pois que todos fizeram dano. O melhor é atirá-los pela janela para o pátio e lá longe, donde não chegue o fumo, fazer uma fogueira com eles. Miguel de Cervantes Saavedra, 1605: 52

      Desde o começo do século X, os abades de Cluny punham os irmãos constantemente em guarda contra as perniciosas seduções das letras profanas. A mesma atitude se notava em Raul Glaber:
      (…) Um tal Vilgard aplicava-se com uma paixão pouco comum ao estudo da arte gramatical[.] (…) [U]ma noite, os demónios tomaram a aparência dos poetas Virgílio, Horácio e Juvenal e apareceram-lhe; fingiram agradecer-lhe o amor com que se dedicava a estudar o que haviam dito nos seus livros (…). Corrompido por esta mistificação diabólica, pôs-se a ensinar com ênfase muitas coisas contrárias à santa fé: declarava que as palavras dos poetas deviam ser dignas de crédito sob todos os aspectos. Por fim foi julgado como herético e condenado por Pedro, pontífice da cidade. Descobriram-se então, por toda a Itália, numerosos sectários deste pernicioso dogma, que sucumbiram também pelo ferro ou pelo fogo. Georges Duby, 1967: 53-4

 

E eu citava demais. Tinha influências demais. E isso até me manietou um bocado. (…)
Até que descobri (…) aquele célebre ensaio do Eliot em que ele diz: fales o que falares – o «Tradition and Individual Talent», não é? O que eu tenho feito, o que tu, jovem poeta vais fazer, não faz mais do que repetir até à eternidade o que já foi dito. Se conseguires repetir bem um verso de Homero – porreiro! Não há outra coisa. Não há nada de novo. Rui Knopfli, 1987: 510

      se abordarmos um poeta (…), acharemos frequentemente que não só os melhores, mas os passos mais significativos da sua obra, poderão ser aqueles onde os poetas mortos, seus antepassados, mais vigorosamente afirmam a sua imortalidade. E não me refiro ao impressionável período da adolescência, mas ao da plena maturidade.
      Contudo, se a única forma de tradição, de legado, consistisse em seguir os caminhos da geração imediatamente precedente, «a tradição» devia ser francamente desencorajada. Temos visto muitas destas singelas correntes perderem-se na areia; e a novidade é melhor do que a repetição. T. S. Eliot, 1919: 22

 

qualquer subchefe de secção metia-lhe debaixo do nariz as papeladas, sem dizer ao menos «uma cópia disto», ou «aqui tem um trabalhinho interessante, uma beleza», ou qualquer daquelas coisas simpáticas que é costume dizer-se educadamente nos serviços. E ele aceitava tudo, lançando apenas uma mirada para os papéis, sem erguer os olhos para ver quem lhos tinha trazido e se tinha esse direito. Pegava nos documentos e logo se punha a copiá-los. Nikolai Gogol, 1842: 48

      De início, Bartleby executou uma quantidade extraordinária de escrita. Como se andasse esfomeado por algo que copiar, parecia saciar-se nos seus documentos. Não havia pausa para a digestão. Trabalhava dia e noite, copiando à luz do sol e da vela. Hermann Melville, 1853: 83
          Um dia, encontram por acaso o rascunho de uma carta escrita pelo médico. O Prefeito tinha-lhe perguntado se B. e P. não seriam loucos furiosos.
          A carta é uma espécie de relatório confidencial, a explicar que a mania deles é pacífica e que se trata de dois imbecis inofensivos. (…)
          – Que vamos fazer? – (…) Copiá-la, claro está! – Sim! Copiemo-la. (…) e copiam-na. Gustave Flaubert, 1966: 55
              Saciada a sede de escrever, ia para a cama, sorrindo antecipadamente ao pensamento sobre o dia seguinte: o que lhe enviaria Deus para copiar? Nikolai Gogol, 1842: 52

 

Voltemos a isto, à contagem dos erros
José Miguel Silva, 2010: 11

          Eu sei, eu sei. Tem medo de cometer erros. Não tenha. Os erros podem ser proveitosos. Ray Bradbury, 1953: 117)
      Fico muitas vezes a pensar nas falhas. A história de uma pessoa é a história das suas falhas, percebes? Não daquelas pequenas coisas, de mais dinheiro ou menos dinheiro, da escola pior ou melhor, não, falha é quando um de nós deixa de ter significado para outra pessoa, na melhor das hipóteses, porque acontece muitas vezes que uma falha nossa pode significar rancor, ou mesmo ódio. Carlos Alberto Machado, 2013: 239

 

Teria querido falar. Mas não encontrou palavras.
Nem sequer em Shakespeare. Aldous Huxley, 1932: 241)

 

Gostei da sua pergunta sobre o que seria citável. Sim, o que é citável de um livro, de um autor? Decerto, a sua morte pode ser citável. E, sobretudo, o seu silêncio. Herberto Helder, 1977: 63
 

      Notei que no dia seguinte Bartleby nada fazia a não ser estar à sua janela, de pé, em devaneio frente à parede cega. Após lhe ter perguntado por que razão não escrevia, respondeu-me que decidira não fazer mais trabalho de cópias.
      – Porquê? – Como? – exclamei. – Não trabalha mais?
      – Não.
      – E qual a razão?
      – Não vê por si mesmo a razão? – respondeu ele com indiferença. Hermann Melville, 1853: 98

                  Quando copiasse a última página, fecharia o livro simplesmente (…). Quem me poderia levar a mal o facto de, por cima do título, acrescentar o meu nome? Zoran Živković, 2002: 79

     
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    2003 Os Livros, Lisboa, Assírio & Alvim.

    POUND, Ezra
    1950 Patria Mia; ed. ut.: Lisboa, Hiena, 1989.

    ROTH, Joseph
    1939 Die Legende vom Heilingen Trinker; ed. ut.: A Lenda do Santo Bebedor, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997.

    SAAVEDRA, Miguel de Cervantes
    1605 El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha; ed. ut.: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, in D. Quixote de La Mancha, 2ª ed., Lisboa, Bertrand, 2002: 25-402.

    SILVA, José Miguel
    2010 Erros Individuais, Lisboa, Relógio d’Água.

    SOUSA, Carlos Mendes de
    2013 Clarice Lispector. Pinturas, Rio de Janeiro, Rocco.

    TIEDEMANN, Rolf
    1989 «Introduction» a Walter Benjamin, Paris, Capitale du XXe Siècle. Le Livre des Passages, Paris, Cerf, 1989: 9-32.

    ŽIVKOVIĆ, Zoran
    2002 Biblioteka; ed. ut.: Biblioteca, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2005

     

    Pedro Eiras é ficcionista, dramaturgo e ensaísta.

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