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ROSA MARIA MARTELO

 

Luís XIV filmado por Rossellini

Mais rendas e mais laços, ordena o rei
ao alfaiate espavorido e já sem artes de exceder
mais uma vez tão desmesurada toilette.
Porque não é a vaidade que move o jovem
rei, ainda não. Por agora há-de tomar o poder,
e para isso vai distrair dele os cortesãos,
com rendas e com laços enlaçar-lhes o tempo
e a razão. Que o muito imaginar e desejar
lhes fique todo entre o ombro e o cotovelo,
onde porás mais fitas – e mais rendas.

Como séculos depois outros se enredarão
noutra invenção, outra alfaiataria. Hão-de
chamar-lhe burocracia, um inferno de rendas
e laços de outra ordem para a mesma usurpação:
que não lhes chegue o dia para pensar, menos
ainda protestar, e que não saibam por onde ir
a desatar tanto nó e tanta fita.
Entretanto,
alguns estarão a caminho, atalhando muito,
por estreitos corredores: o filme será outro,
o fim em vista o mesmo, e uma vez mais os tolos
se hão-de distrair assim, do longe com o perto.

 

A imagem da newsletter
(descrição muito fiel)

Cena de interior, lugar de passagem. Um homem
corre para cá, pasta na mão, casaco aberto
em duas asas negras, gravata revirada
contra o fundo branco da camisa.

Não há cadeira nem mesa, nem janela,
nem porta, nem mais nada, mais ninguém.
Tem a cara deformada pelo esforço,
a boca demasiado aberta.
Lança o braço direito para a frente,
o outro ergue no ar a pasta preta.

Faz avançar a mão, os dedos curvos,
uma garra de bicho acossado.
Não sabemos de onde vem, para onde vai,
corre contra nós, não ao nosso encontro.
Deixou alguma coisa para trás? Procura alguém?

Não há janelas, só duas paredes, vidros opacos,
estruturas de alumínio. O chão muito lavado, asséptico, brilha.
A imagem pretende ilustrar uma ideia: COMPETITIVIDADE.

 

Variações em papel de embrulho

Mais papéis de embrulho, mais invólucros,
ordena o burocrata ao funcionário espavorido e
já sem artes de exceder mais uma vez tão
desmesurado empacotar. Porque não é proteger
o conteúdo o que move o chefe, nunca é. Por agora
há-de fazer-se preciso, e para isso vai inventar
inquéritos, avaliações, ocupar o tempo dos outros
com o dele, com ordens e desordens enlaçar-lhes
a vida e a razão. Que o muito imaginar e desejar
lhes fique todo entre fazer e desfazer
mais pacotes de perguntas – e mais relatórios.

Como séculos antes outros se enredaram
noutra invenção, outra burocracia. Chamava-se
cortesia, um inferno de regras e princípios
de outra ordem para a mesma usurpação:
que não lhes chegue o dia para pensar, menos
ainda protestar, e que não saibam por onde ir
a desatar tanta ordem e desordem.
Entretanto,
alguns estão a caminho, atalhando muito,
por estreitos corredores: o filme ainda é o mesmo,
o fim em vista idêntico, e uma vez mais
os tolos se distraem assim, do dentro com o fora.

 

Rosa Maria Martelo é leitora, escritora, professora.

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