Três museus

PEDRO EIRAS (texto)
SUSANA PAIVA (fotografias)

 

As linhas projectadas

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Era director do seminário, teólogo, e gostava de mostrar as escavações aos raros visitantes que se atreviam a subir o monte. Alto, forte, nem o sol a pino lhe tirava o fôlego. E discorria sobre celtas, castros, numismática.

A certa altura, dobrou-se, pegou num caco de cerâmica que não tinha sido guardado: um fragmento curvo, parte de um vaso antigo. Explicou:

– A partir desta curvatura pode-se desenhar o resto do vaso, o vaso todo, mesmo que o vaso propriamente dito nunca chegue a aparecer. É como o corpo e a alma. A partir do corpo, que é um fragmento, pode-se projectar as linhas e encontrar o desenho da alma.

Mas depois pegou numa pedra redonda, pesada, fechada sobre si própria, e fitou-a muito tempo em silêncio, melancólico.

 

O vento

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Era um pequeno museu de arte sacra, na velha sacristia. Quanto ao convento, desde muitos anos se tinha transformado em hospício. Às vezes, vinha um carro da cidade deixar um louco.

O vento corria o vale como uma faca, e os loucos andavam no pátio a ouvir a serrilha. As pessoas da aldeia diziam que era o vento, era o vento que punha os homens malucos.

A sacristia não passava de um amontoado de telas bolorentas e estátuas comidas pelo bicho. O sol gelado ia batendo, ao correr do dia, nos relicários vazios.

Às vezes, o capelão deixava um louco entrar e ver. Os loucos gostavam de olhar para as caras dos santos, os olhos fitos no céu.

Não passava de um pequeno museu, mas o convento já tinha sido, em tempos, famoso pelo seu escritório. Como dizem todos os guias de viagem, ali se escreveu e ilustrou, no século XIII, um importante Apocalipse.

 

A Imagem

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Quando os anjos o vieram despir, lavar, perfumar, para apresentá-lo de novo, resplandecente, ao Criador, ele pediu que não lhe tirassem aquele uniforme de riscas, puído, nojento, que não o penteassem nem limassem as unhas, que não lhe apagassem com mansas esponjas os rasgões na cara, os dedos torcidos. Era assim, assim mesmo, que queria aparecer.

 

Pedro Eiras é ficcionista, dramaturgo e ensaísta.
Susana Paiva é fotógrafa.

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