Bricolages

ANDREIA C. FARIA

 

Calcanhar

O calcanhar cedia
Abaulado, moído de chão,
podia-se colhê-lo à mão
como a sombra quando é áspera
em redor das clareiras

Pé de barro mal cozido
que levámos a morrer
quando verteu
a primeira goma
Entregámo-lo

não à cova, ao artesão
que entendeu fazê-lo
abóbada, desvão
um tosco plano de céu
acolhendo a extremidade

 

Bricolage

Far-te-ei de qualquer matéria
Da metonímia dos móveis
Da impermanência do pó

Paciente gume de madeiras, de motores
Também da menor morte, da mais inteligível
pedra

ou dor de pau, esfacelando
a tua ausência de perfil, coligindo lascas do que cresce
no jardim, na arrecadação

far-te-ei bolbo, cruz transeunte, poema
Um moldar sem ver
à pouca luz das mãos

 

Quer o poema a torção

Quer o poema a torção
do vento ao transitar umbrais
Desocultar, lavrando
os nomes, devolvê-los ocos

Quer o pudor irrigado
de árvores em parques centrais
por vísceras veios
do latim remotos

Tendo aparência de pássaro,
pelo bico voar
Abrir ao cantar
sinceras fendas no espaço

 

Andreia C. Faria é escritora e copywriter.

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