Partir

MATHILDE FERREIRA NEVES

 

 

SINOPSES

Imagem retirada de um portal dedicado a zootrópios, cujo rasto/endereço perdi.

Imagem retirada de um portal dedicado a zootrópios, cujo rasto/endereço perdi.

Sinopse breve

Um burro foge, foge desabridamente. Um rapaz encontra-o.

Tornar-se-ão ambos no que mais temem, sem saberem.

Sinopse desenvolvida

Vêem-se serras calcárias a perder de vista e um burro branco que, numa corrida desenfreada, rasga essa paisagem de pedra e de luz intensa. Na mesma paisagem, noutro sítio ali perto, um rapaz flutua de barriga para cima num riacho, de vez em quando agita-se impetuosamente na água e recita a tabuada. Num cenário aparentemente calmo e idílico, há elementos estranhos, perturbações pressentidas, dores/violências prestes a cruzarem-se.

O rapaz surpreende o burro que, exausto e esgotado da sua fuga, descansa à sombra de uma árvore. Ambos se encaram longamente, o rapaz de forma deslumbrada e curiosa, o bicho de maneira atormentada. O duelo dos seus olhares é interrompido por um bando de gralhas-de-bico vermelho, que distrai o rapaz.

O burro ergue-se e segue na sua fuga. O rapaz arma a sua fisga e caça um pássaro.

O pássaro morto é entregue ao avô, que mora em plena serra. O rapaz tenta convencer o avô que encontrou um burro branco selvagem, ele não acredita, desalentando assim o neto.

Ao cair do dia, no desespero da sua fuga, o burro cai e parte uma perna. Fica imobilizado e num sofrimento atroz, ainda mais danado e perdido do que estava.

No dia seguinte, o rapaz dá com o burro moribundo. Tenta ajudá-lo, mas em vão. Aflito vai a correr pedir ajuda ao seu avô. Primeiro, o avô não acredita, porém, de seguida, diante da insistência do neto, resolve partir em socorro do bicho.

Uma vez diante do bicho, o avô apercebe-se da gravidade da situação: o burro está condenado, sem salvação possível, a única solução é aliviar-lhe brevemente a dor, prepará-lo para a morte e executá-lo. O rapaz resiste, recusa-se a encarar a execução do bicho. O avô é contundente. O rapaz cai em si e compreende, por fim, que não há alternativa: é preciso matar – a dor é insuportável, a fuga acabou (e a infância?).

Enquanto o avô vai buscar a espingarda e um unguento de alfazema, o rapaz deita-se sobre o corpo dilacerado do burro. O avô regressa, o rapaz espalha o unguento pelo corpo do animal, tornando-o num corpo outro, de tonalidade púrpura. Chuvisca. A cor desliza do corpo para a terra, formando-se uma impressionante mancha púrpura circular. O rapaz despede-se, agora também ele dilacerado. O avô executa o animal e parte logo de seguida.

O rapaz encara o burro sacrificado e faz-lhe a derradeira pergunta, que permanecerá sem resposta, ou quase.

Chove torrencialmente. Na escuridão, um piano irrompe.

 

NOTAS DE REALIZAÇÃO

Fundamento

Quando, às vezes, eu saio, à tarde, a passear,
As aves e os répteis e os outros animais,
Todos fogem de mim, ao verem-me passar
E tremores de susto agitam os silvais…
TEIXEIRA DE PASCOAES

“Partir” é doer-se.

O filme é sobre a fuga e a morte. Fuga que não precisa de razões. Morte no sentido literal e no sentido de queda em si. Procura-se captar duas forças, que também são duas falhas e que correspondem a um momento fundador para um rapaz que caça pássaros.

O cinema enquanto eco de uma fuga veloz e fatal e também enquanto refracção de um rapaz que cai em si quando confrontado com a brutal experiência do burro. Tempo de um movimento implacável, espaço que se abre fundo e desmorona. Tentativa de cristalizar a suprema metamorfose.

Tempo

Antes de as rosas murcharem
bebemos a água das flores.
JUDITH HERZBERG

O ritmo do filme corresponde a uma sucessão de quase gemidos: um sopro (serras), um arfar (burro), um arrulhar (criança), um fragor (dor), um silvar (espingarda), um gotejar (chuva), uma sonata (piano). Ir em busca do quase silêncio e pontuá-lo de forma a compor uma vertigem. Na verdade, a vertigem é a chave rítmica do filme: sensação ilusória do movimento – apesar do movimento – ou movimento à volta do corpo – afinal, para dentro.

O filme inscreve-se no instante, a sua composição fragmentária não passa tanto pela elipse, mas pela vontade de fixar pedaços. Construção que não parte propriamente da continuidade temporal, mas que procura estabelecer uma continuidade da problemática.

Sobre o burro e o rapaz pouco se sabe. Não têm aqui passado e o que importa é a cristalização, a suspensão, a concentração do encontro breve de ambos. A passagem (que se dá do burro para o rapaz) é o ponto de ruptura e o ponto onde tudo pára, embora a vida continue e palpite.

Espaço

Compreendia que não só bastava uma leve deslocação do olhar para ver o inapercebido, como também, antes de olhar para o mar, o mar estava à minha espera, isto é, outros olhos o tinham surpreendido antes. Aquela paisagem era já, tinha-se tornado, o conteúdo de uma transmissão.
MARIA FILOMENA MOLDER

O lugar é decisivo, molda as personagens; as serras calcárias (juntamente com a sua fauna e flora) esculpem os seus modos de ser, sendo a matéria que os constituem e sustenta. Mas, os corpos fundem-se e resistem ao seu meio. Há um confronto latente entre o burro e a serra, entre o rapaz e os animais (que povoam a sua realidade e o seu imaginário), entre o avô e a natureza inelutável da morte. O espaço é aqui uma segunda pele. Cabe à câmara ser sismógrafo.

Imagem

O instante poético é o momento em que a luz e a sombra se encontram.
ANTÓNIO RAMOS ROSA

A câmara permanece pousada, são as paisagens e os corpos que fremem.

A luz começa por ser explosiva: o verão queimando a terra, incendiando pedras e riacho. À medida que o filme decorre, as sombras vão-se opacificando, vai escurecendo, as nuvens carregam o céu e aliviam a vista do lume precedente, até ao negro.

Em vez da beleza declarada, o enquadramento que fende e falha, complexo. A ageometria como libertação da fixação de linhas perfeitas e alheamento das coordenadas.

Som

Para mim, o saber é sempre uma via silenciosa de mudez – o atravessar de uma paisagem inesperada, e não segura.
MARIA GABRIELA LLANSOL

O som será trabalhado como textura e contraponto, simultaneamente. Por um lado, os sons da natureza surgirão intensificados, saturando o espaço – o rumor das serras será permanente, só a música, no final, dará lugar ao silêncio. Por outro, as vozes funcionarão como sussurros, frágeis perante a imensidão das serras e, em simultâneo, portadoras de uma energia que as torna poderosas, como um balbucio no meio de um qualquer discurso fluente. Na partitura do filme, vozes e sons sobrepõem-se, ora harmoniosamente, ora de forma descompassada. Trata-se de um espaço polifónico.

A reverberação será trabalhada de forma particularmente plástica.

O magma sonoro dará profundidade ao filme e será contrapeso da imagem.

 

CARACTERIZAÇÃO DAS PERSONAGENS

Face au suicide massif de nos cellules, suicide qui sculpte du vivant, un biologiste ose enfin parler de ‘mort créatrice’. Et pour nous, sans savoir comment, c’est une évidence, la création jaillit de la mort. L’œuvre ne jaillit pas sans elle, la mort.
CLAUDE RÉGY

Burro

Burro branco, robusto, de tamanho médio. O corpo todo em tensão, sobressaltado. Contrariando a espécie (dócil), resiste ao contacto humano, parece danado. Olhar regalado e triste, expressão esbaforida.

Rapaz

Tem oito anos. Cabelo castanho e crespo. Olhos grandes e claros. Rosto redondo e sardento. Corpo franzino. Pele muito morena. Inteligente e bravio, atento a tudo o que se passa em seu redor. Simultaneamente frágil e resistente. Gosta muito de animais. Vive fascinado por pássaros.

Nasceu e cresceu nas serras de Aire e Candeeiros. Conhece os montes como a palma das suas mãos. É muito apegado ao seu avô materno.

Frequenta a segunda classe, é muito bom a matemática. Recita a tabuada para se distrair ou acalmar. No Verão, pelas férias, anda à solta pelos montes o dia todo: ora em exploração, ora ajudando o avô na colheita de plantas com propriedades medicinais, ora caçando gralhas.

Usa calções curtos brancos e t-shirts igualmente claras. Calça sandálias castanhas de couro.

Avô

Tem setenta anos, viúvo. É de estatura baixa. Magro, mas musculado. Cabelo farto, branco. Barba rala, grisalha. Rosto prazenteiro, curtido pelo sol. Mãos pequenas, grossas, encardidas pelo seu trabalho na terra. Olhos claros e grandes, muito vivos. Ostenta um ar simultaneamente severo e simpático. Também é muito afeiçoado ao neto.

Vive em plena serra desde sempre. Sustenta-se da terra, que sempre cultivou. É tido como sábio, por compreender da fauna e flora das serras como ninguém. Como passatempo estuda e pratica fitoterapia: infusões, unguentos, xaropes das várias plantas que se encontram pelos montes.

Apesar de viver numa casa antiga de pedra, isolada, mantém-se ao corrente do estado do mundo. Tem como hábito, enquanto sacha a terra, embrulhar uma telefonia pequena num lenço à volta da cabeça, ouvindo assim os noticiários e demais programas informativos. Usa quase sempre um chapéu de palha de abas largas.

Veste geralmente calças escuras, camisas leves de manga comprida (arregaçadas até ao cotovelo) e um casaco muito gasto castanho de malha, já com buraquinhos nos ombros. Calça umas alpergatas pretas.

 

ARGUMENTO

PRELÚDIO

Cena 1
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Burro

Um burro branco corre desenfreadamente pelos montes calcários das serras. É um animal robusto, de tamanho médio. Traz na boca um pano grande vermelho esfarrapado (que se assemelha a uma cortina). O bicho corre sem parar, atravessando a imensidão da paisagem, que se encontra abrasada pelo sol. À medida que o burro corre, levanta uma linha de poeira, espantando a passarada. O susto dos pardais alvoraça, por sua vez, ainda mais o burro. O pano grande vermelho esfarrapado, que o burro segura com afinco entre os dentes, fica preso a uns cavacos e desprende-se da sua boca. O pano fica para trás. O burro corre, corre.

Cena 2
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Rapaz

Um rapaz com oito anos, de rosto redondíssimo e corpo franzino, toma banho num riacho. Flutua de barriga para cima, olhando o céu limpo e luminoso.

De súbito, interrompe o sossego em que está, aplicando na água chapadas com força. A água agita-se brevemente, quebrando em reflexos rápidos a luz do riacho. Depois, cerra os olhos e recita a tabuada do sete, flutuando sempre de barriga para cima.

1º MOVIMENTO

Cena 3
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Burro e Rapaz

O burro corre até ficar sem fôlego. Chega a um descampado coberto de papoilas. Está exausto. Uma espuma branca e espessa escorre-lhe pelo focinho abaixo. Estaca durante um longo momento e mexe as orelhas insistentemente. Ouve-se uma corrente de água, o animal segue o trilho que a ela leva.

Uma vez junto ao pequeno ribeiro, bebe sofregamente. Vê-se o calor vibrar na vegetação, um bando de gralhas-de-bico-vermelho circula no horizonte, rebentando no ar o seu piar, a luz fortíssima queima a superfície da água. O burro deita-se à sombra de um carvalho. Continua, porém, agitado. Zurra, então, altíssimo. O eco do seu urro perpassa longamente as serras.

De repente, estalam passos rápidos ali perto. Surge, pouco depois, por detrás de uns arbustos baixos, o rapaz de cabelo a pingar, que olha com grande curiosidade o bicho e tenta aproximar-se. O burro zurra de novo, cada vez mais agitado e desata aos coices e cabeçadas aplicadas no ar. O rapaz amedronta-se um pouco, recua alguns passos, mas permanece olhando o burro, deslumbrado.

Bicho e criança enfrentam-se num duelo de olhar fixo. Ambos têm medo e, no entanto, nenhum dos dois cede, nenhum dos dois foge. O bando de gralhas-de-bico-vermelho sobrevoa o ribeiro, distraindo o rapaz. O burro segue então, no sentido inverso, o trilho que o tinha conduzido à corrente de água.

A criança vê-o afastar-se sem se mexer.

Cena 4
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Rapaz

O rapaz está junto do carvalho. Retira do bolso dos calções uma fisga. Concentra-se nos círculos que o bando de gralhas-de-bico-vermelho desenha no céu. Aguarda uns instantes. Apanha uma pedrita a seus pés e arma a fisga. Faz pontaria e acerta.

Ouve-se um pio agudo e o pássaro cai, com forte impacto, uns passos adiante. O rapaz dirige-se à gralha atingida, pega-lhe com as mãos tremendo e fixa intensamente o cadáver por um breve momento. Afasta-se com o pássaro morto nas mãos, não sem antes olhar na direcção que o burro seguiu há pouco e nessa direcção tudo está quedo.

Cena 5
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Rapaz e Avô

O rapaz dirige-se a uma casa pequena de pedra, isolada num monte. O telhado de ardósia está coberto por uma camada de musgo verde seco. Os muros também salpicados por musgo, com pequenas corriolas-campestres brancas e violetas suspensas no intervalo das pedras. Há ramalhetes de orégãos, louro, alecrim, camomila, carqueija, alfazema, pendurados nas persianas de pau. A casa encontra-se rodeada por regos de terra cultivados.

Um homem, com setenta anos, magro e com o rosto muito curtido pelo sol, está sentado na ombreira da porta. Assim que vê o rapaz aproximar-se, levanta-se e vai ao encontro dele sorridente. Chegando-se a ele, faz-lhe festas carinhosas no cabelo e pergunta:

    AVÔ
    Conseguiste?

    RAPAZ
    Sim, avô. Estavam à beira do regato.

O rapaz entrega-lhe o pássaro morto.

    AVÔ
    Bela gralha.

    RAPAZ
    Avô… aconteceu uma coisa…

    AVÔ
    Alguém te viu, foi isso? Já te disse para só caçares quando não há ninguém por perto. É uma espécie protegida, ainda nos vêm chatear…

    RAPAZ
    Não, não foi isso. É que… à beira do regato… apareceu um burrico.

    AVÔ
    Um burrico?

    RAPAZ
    Sim… um burrico sozinho…

    AVÔ
    Um burro aqui na serra, sozinho? Não pode ser.

    RAPAZ
    Era um burrico, sim senhor, e sozinho. E era branco.

    AVÔ
    Branco?! Um burro branco selvagem por aqui?! Andas a ver coisas, rapaz! Um burro branco, qual carapuças!

O rapaz fica ofendido, o rosto tenso pela dúvida do avô. O velho contemplando o pássaro morto, abstrai-se da desilusão do neto.

    AVÔ
    Queres que te guarde as penas?

    RAPAZ
    Não.

O rapaz afasta-se sem se despedir do avô, tristíssimo. Põe as mãos nos bolsos e encolhe o corpo. Caminha devagar e vai pontapeando as ervas mais altas.

O avô satisfeito com a gralha nem dá por nada e entra contente na casa.

2º MOVIMENTO

Cena 6
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Entardecer
Burro

O burro corre. A vegetação por onde foge vai-se adensando. O mato obriga-o ao dobro do esforço enquanto corre. Vai penetrando, desatinado, no mato e à medida que se embrenha nele vai ficando ferido. Cavaquitos magoam-lhe as patas; silvas rasgam-lhe as orelhas; ervas altas agarram-se-lhe ao pêlo, envolvendo-o quase por inteiro.

Depois de algum tempo, extenuado pela fuga, o bicho vai diminuindo o ritmo, mas sem deixar de caminhar apressadamente, até que tropeça num monte de pedras bicudas e cai. Além da espuma branca borbulhante que lhe corre pelo focinho abaixo, uma aguadilha translúcida vai escorrendo dos seus olhos esgazeados e vermelhos. Tem uma ferida de grandes dimensões numa das pernas.

O burro pousa a cabeça sobre um braçado de papoilas que se eleva de um tronco cortado. A respiração ofegante vai-se tornando mais espaçada e funda. O burro cerra os olhos, o corpo coberto pelo mato agreste, a cabeça coroada de flores. Zurra baixinho.

A luz diminui de intensidade lentamente, o dia cai. As sombras vão cobrindo o animal. Grilos e cigarras cantam. Ao longe ouvem-se mochos e folhas sendo levemente sacudidas pelo vento.

Pequenas convulsões trespassam o corpo do burro. O bicho abre os olhos, ergue a cabeça a custo, tenta levantar-se mas é claramente impossível fazê-lo.

A noite instala-se, ficando escuro como breu, vegetação e bicho deixam de se distinguir. Os zurros, já quase inaudíveis, são absorvidos pela escuridão.

3º MOVIMENTO

Cena 7
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Rapaz e Burro

No dia seguinte, de madrugada, enquanto passeia pelos montes, vigiando os círculos que o bando de gralhas-de-bico-vermelho desenha no céu, o rapaz dá com o burro ferido.

O burro permanece deitado no mesmo sítio da véspera. O corpo rígido, ensanguentado, a perna deslocada, agitando-se violenta e involuntariamente em convulsões, a boca caída, o olhar vago e vermelhão, ainda envolvido por ervas e arbustos espinhosos. As papoilas, sob a sua cabeça, estão já murchas, desfeitas. Vai lançando zurros fundos de dor. Ao ver o rapaz chegar, o bicho tenta levantar-se. Tentativa novamente falhada. Sem conseguir erguer-se, mexe a cabeça e arroja um pouco o corpo. Deixa de zurrar, apenas a sua respiração cava e difícil se ouve. O bicho agoniza e parece deveras incomodado pela presença do rapaz.

De rosto pálido, o suor caindo em bica da sua testa, as mãos tremendo, o rapaz cai de joelhos na terra, junto do burro. Com as mãos, que tremem com cada vez mais intensidade, palpa-lhe as feridas, afasta as ervas e retira os arbustos espinhosos do seu dorso, acaricia-lhe o focinho. Ao suor juntam-se lágrimas. O rapaz começa a soluçar e abraça fortemente o burro. A sua roupa fica manchada de terra e de sangue. Agarra-o cheio de genica, tenta pô-lo numa posição mais confortável, erguê-lo um pouco, tenta aliviá-lo, ajudá-lo e não consegue. Já desesperado, o rapaz começa a falar com o burro:

    RAPAZ
    Levanta-te burrico, levanta-te…

O animal, afligido, pousa a cabeça na terra com algum estrondo e cerra os olhos. O corpo fica menos teso, abandona-se, resigna-se. O rapaz levanta-se de súbito e desata a correr. Afasta-se em direcção à casa do avô.

Cena 8
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Avô e Rapaz

O avô encontra-se junto da casa, sachando o quintal. Tem uma telefonia pequena agarrada à cabeça por um lenço vermelho. Traz o seu chapéu de palha de abas largas. Estão a ser transmitidas as notícias.

Quando ouve os gritos de socorro do seu neto, que se aproxima correndo depressa na sua direcção, estremece. Larga a enxada, tira o chapéu, desembrulha o lenço e pousa a telefonia no chão sem a desligar. Parte aflito ao encontro do neto, a passo rápido.

    RAPAZ
    Avô! Avô! Ajuda, avô, o burrico partiu a perna e está para a morte. Anda, avô, depressa!

    AVÔ
    Oh rapaz, o que foi?! Que alarido é esse?

Encontram-se ambos ofegantes e aflitos a meio caminho. Assim que se juntam, o avô cai por terra de joelhos (tal como o rapaz o havia feito perto do burro) e limpa as lágrimas do rosto do neto. A seguir procura-lhe feridas, tentando compreender de onde vem o sangue que lhe mancha a roupa.

    AVÔ
    Estás ferido, caíste? Ai, o que te aconteceu?!

O neto responde-lhe de um só fôlego, contendo os soluços.

    RAPAZ
    Não, avô, não estou ferido. O burrico é que está, caiu lá no mato das pedras bicudas. Tem a pata partida e o corpo cheio de mazelas. Tens de ajudar, avô. Anda depressa. Anda, avô, por favor!

    AVÔ
    O quê?!! Lá estás tu com o burro… Por onde andaste?

    RAPAZ
    Oh avô, estou a sério, é o burrico, o burrico branco que vi ontem. Caiu e tem a perna em sangue. Tens de vir!

    AVÔ
    Irra, que estás danado!

    RAPAZ
    É verdade, avô! De onde achas que veio tanto sangue?!

O avô percebe, por fim, que não é mentira e decide ajudar.

    AVÔ
    Nas pedras bicudas, dizes tu?!

    RAPAZ
    Sim.

    AVÔ
    Vai buscar aquelas canas pequenas e traz a corda. E leva um balde. Eu trato da gaze e da aguardente. Já vamos, já vamos.

Separam-se, cada um para seu lado. Ambos apressados e nervosos, o velho ainda perplexo e o seu neto ligeiramente mais tranquilo.

Cena 9
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Avô, Rapaz e Burro

Chegam os dois esbaforidos junto do burro, acercam-se dele e começam a tratá-lo. O rapaz lava-lhe as feridas no dorso e nas orelhas, fazendo-lhe festas suaves. O avô lava a perna, ao que o burro reage com gemidos dilacerantes de dor.

O rosto do velho torna-se mais rígido à medida que se apercebe da gravidade da situação. Ora fixa com angústia o burro, ora olha preocupado para a criança.

    AVÔ
    Rapaz, o burro está mal, está muito mal. A perna está partida em mais de um sítio, não foi só a queda, deve ter sido também o esforço que fez para tentar levantar-se.

    RAPAZ
    Mas avô…

    AVÔ
    Está mal, não posso curá-lo.

    RAPAZ
    Mas avô… o burrico é forte. Faz-lhe umas talas e eu vou chamar gente à aldeia para ajudar a carregá-lo. Eu tomo conta dele. Vais ver avô…

    AVÔ
    Não pode ser. Não há talas que o salvem. O animal tem a perna estraçalhada e o corpo todo ferido. Não vês que o pobre bicho sofre que nem um desgraçado. Está a pedir a morte. Temos que lhe aliviar a pena. Vai buscar mais água fresca ao regato, o bicho está desgasto de tanta dor.

    RAPAZ
    Mas avô…

    AVÔ
    Vai buscar água, já te disse! Irra que és teimoso! Vai lá, depressa.

O rapaz vai buscar água. O avô faz festas ao burro enquanto canta uma lengalenga imperceptível.

O burro recomeça a tremer com violência. O velho tenta afastar, com cavacos floridos, as moscas da perna e das múltiplas feridas, continuando a lengalenga. Depois de uns instantes, despe o casaquito de malha e a camisa que traz vestidos e cobre, na medida do possível, o burro.

O neto chega com o balde cheio de água. O velho ensopa o seu lenço na água e aplica-o sobre a boca do burro. O burro freme e parece apreciar muito o gesto.

    AVÔ
    Vou buscar o espingardum.

    RAPAZ
    Não!! Avô, por favor, avô, não faças mal ao burrico!

    AVÔ
    Qual mal, qual carapuças! O burro é que está mal, é preciso aliviá-lo.

    RAPAZ
    Oh avô…

    AVÔ
    Um homem não chora, ouviste?! És um homem, ou és um gato? É preciso tratar do bicho. Deixa-te de choros e vai-lhe dando água. Eu já venho.

O avô levanta-se e parte de tronco nu. A criança dá mais um pouco de água ao bicho. Depois, cuidadosamente, estende-se sobre o dorso do burro. Fica assim deitado sobre ele. O animal já não se mexe, só a respiração cava dá sinal de ainda estar vivo.

CADÊNCIA

Cena 10
Serras de Aire e Candeeiros
Exterior/Dia
Avô, Rapaz e Burro

O avô regressa. Vem com outra camisa vestida. A tiracolo traz a espingarda. E carrega numa das mãos um garrafão de plástico transparente que contém um líquido espesso de cor púrpura.

O rapaz continua estendido sobre o dorso do burro. Assim que sente a presença do avô, agita-se.

    RAPAZ
    Avô…

O velho estende ao rapaz o garrafão.

    AVÔ
    Toma. É óleo de alfazema, um unguento que fiz há que tempos. Acalma as dores do animal. É remédio que já vem dos romanos. Besunta-o todo com isso e despede-te dele.

O rapaz pega no garrafão aos soluços. Todo o pequeno corpo dele vibra. Cessa de chorar.

Abre o garrafão e começa a untar o dorso do burro em movimentos circulares. Unta-o até ficar coberto por inteiro. O animal já não é branco, mas púrpura.

A luz acinzenta-se. Começa a chuviscar.

O avô, até agora um pouco distante de ambos, aproxima-se. Faz sinal ao neto. O rapaz ergue-se, aplica uma última festa ao focinho do burro, com as duas mãos percorre-lhe devagarinho o dorso. Dá alguns passos para trás, as mãos e a roupa manchados também de púrpura.

O velho avança, pega na espingarda e sem hesitação no gesto, apenas o olhar denuncia perturbação, dá um tiro no burro. Estrondo seco e fundo.

Chove um pouco mais intensamente. Rapaz e velho vão ficando encharcados. A cobertura de óleo de alfazema sobre o pêlo do burro começa a escorrer e a diluir-se na terra à volta, formando um círculo púrpura desbotado em seu redor.

Dado o tiro, o velho torna a colocar a espingarda a tiracolo e afasta-se visivelmente abalado: o olhar endurecido e vidrado, o rosto contraído, os punhos cerrados. Vai-se embora sem uma palavra.

O rapaz permanece afastado alguns passos do cadáver do burro. Não se move, o olhar fixo na ferida de morte que vai borbulhando sangue.

Ao cabo de alguns instantes, a boca do rapaz entreabre-se, parece querer dizer algo. Tenta múltiplas vezes falar, até que consegue:

    RAPAZ
    Burrico, oh burrico, de que fugias?

Chove torrencialmente.

Vai a negro. E à medida que o som da chuva se desvanece, ouve-se um piano (Sonata n.º 17, Opus 31, nº 2, de Beethoven).

 

Mathilde Ferreira Neves é artista de variedades.

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