O eco da fuga

FILIPE PINTO

 

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Pensée/pesée
tapete, 140x60cm
2013

 
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D.E.A.D (after Bruce Nauman)
teclado, moedas, dimensões variáveis
2013

 
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Atalho
fotografia, 20x15cm
2013

 
O movimento do homem não é andar, é pisar; o andar transporta a amálgama do corpo – ossos, carnes, vísceras, a massa –, à qual a Terra responde com a força do peso; o peso começa na planta dos pés e sobe até aos cabelos – nada lhe escapa, ninguém lhe escapa./ Dizem os físicos que o peso é uma força; na verdade, nada mais é que incómodo.// Tornamos a terra mais compacta, árida, infértil, a cada passagem do nosso peso bípede – (no passo os pés vão-se substituindo um ao outro, contrabalançando o peso); mas do pisar também resulta o vinho.// Deixamos a pegada – marca do peso – para trás (no espaço), para o futuro (no tempo). Não há pegada mais profunda que a do obeso – aquele que ocupa mais espaço com o próprio corpo – e a da grávida; (do latim gravis provém tanto a gravidade como a gravidez);/ e a pressão concentrada do peso rodopiante da bailarina na ponta romba da sapatilha, em jeito de cone invertido, como no baile de Schlemmer.// (Mas a Terra parece amar os obesos com mais força, como os deuses os mais jovens).// Seguir as pisadas – o peso desenha um caminho; pisar pegadas, como num carreiro no bosque, como num atalho, como no campo minado. Li algures que o melhor caminho é aquele que não deixa rasto – irrepetível; (andar de costas na neve, reenchendo as pegadas frescas esvaziadas pelos próprios pés, apagando o rasto).// Castigamos o chão, pressionamos a relva, símbolo urbano desta violência vertical – p.f. não pisar a relva.// Se passamos a vida a pisar a terra com o nosso peso, a queda suicida (o próprio peso é, em si, a iminência de uma queda) torna-se- nos na morte mais lógica./ Na queda do suicida, do descuidado, do azarento, do empurrado, daquele que finalmente se liberta no passeio público, o corpo parte-se como um frasco de polpa de tomate – a poça vermelha que vai alagando à volta como um mini tsunami lento e encarnado é o resultado líquido da conta entre Terra, peso, aceleração./ Aquele que escolhe a ponte e o rio, dilui, pela largura do caudal, a pressão súbita do corpo acelerado pela queda./ Do encontro da tona da água com o peso exacerbado pela extensão acelerada da queda do desistente, resulta o espirro da água – quanto mais espalhafatoso e espectacular, mais definitivo e mortal./ Depois, antes de a água devolver o corpo à superfície, insuflado pelos gases da decomposição, o fundo reclama-o por um tempo para certificar a asfixia.// (Na água, o que pesa não é o corpo, é a obrigatória dificuldade dos movimentos – a densidade torna-os perros, pesados)./ Quer dizer, boiar parece reduzir-nos o peso – peso pluma, peso mosca, como o do lutador – quase planante, como a flecha que no vôo se apoia na espessura do ar (J.-L. Nancy), mas ao mesmo tempo constrange-nos os movimentos, como se subitamente víssemos o nosso corpo rodeado por uma espessa camada de gordura alheia; o paradoxo da tona da água – somos leves mas gordos como nunca.// Descansar é render-se ao próprio peso; repousar, repoisar, ligação óbvia ao chão. Deitados fazemos menos pressão na Terra – diluímos o peso pelo comprimento e não apenas pelo número da sola – (deitar está nos antípodas da ponta da sapatilha da rodopiante bailarina); e se o rabo é almofadado para o sentar, já os pés são duros e secos.// (Entala-se o dedo numa porta pesada a fechar; o sangue pisado escurece por debaixo da unha rosa – o peso lateral de uma porta).// O mundo comporta o seu próprio peso – (a Terra não tem peso, flutua no vazio rodando sobre si e sobre tudo) –, nós descarregamos o nosso nele. Quanto peso a mais carrega a Terra à custa do homem? Quanto pesa toda a humanidade junta?// Tudo o que morre não cai fora do mundo, escreveu Aurélio – já algum astronauta morreu no espaço?// Todo o homem pesa, todo o homem pisa – os aviadores, pára-quedistas, astronautas, os saltadores em geral, representam um alívio de pressão na Terra, ainda que ínfimo e intermitente; o contrário do peso é a graça – a graça da bailarina, que no palco clássico, perde todo o seu peso.// O peso é coisa de engenharias e endocrinologistas. O peso, a balança – scale.

 

Filipe Pinto é artista e escreve sobre arte.

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