Inquérito: Cinema e Literatura

Existirá um cinema em diálogo (contra ou em tensão) com a literatura? Sempre, por definição? Em que medida será operativo pensar um cinema narrativo e um cinema poético ou lírico?

responde MARCELO FELIX

 

Acho esse diálogo e essa tensão omnipresentes. Talvez o diálogo de um filme com a literatura comece por existir na maneira de falar sobre ele. A explicitação dos temas do filme vai muitas vezes buscar conceitos a uma escrita que o precederia. Fala-se de história, descrição, adaptação, transposição, notação, apontamentos… E assim imaginamos a sua existência a principiar com a passagem de uma ideia ao papel, antes de qualquer captação de imagem.

Alexandre Astruc propôs a caméra-stylo como meio de libertar o realizador – e porventura o seu pensamento – de um ponto de partida que não seria especificamente cinematográfico. Mas a ideia de uma câmara que intervém na realidade com a fiabilidade de uma caneta no papel confirma a dificuldade de emancipar o cinema de uma expectativa literária. A forma nos filmes de Jonas Mekas, independentemente de tudo o que nela limita essa expectativa, participa de uma ideia que temos de diário. O cine-olho de Dziga Vertov não dispensa uma estruturação dramatúrgica. A secundarização do sentido pelas vanguardas aprendeu com as formas da literatura tanto como com a música.

Os procedimentos e as técnicas da literatura, escrita ou oral, fazem parte da bagagem inconsciente que qualquer espectador traz para a sua relação com um filme. Por consequência, eles integram o diálogo que o cinema, quer apresente ou não diálogos ou argumento, e quer seja ou não narrativo, mantém com a literatura. Deseje-o ou não, o cinema é forçado a essa relação. Não é questão de existir um cinema em diálogo com a literatura, mas de todo o cinema integrar, pacificamente ou coagido, esse diálogo. A despeito dessa outra narrativa e desse outro texto que são a imagem e a despeito das muitas ideias de cinema que laboram de fora da sombra literária.

 
Tal como a narrativa não tem de ser toda-prosa, a não-narrativa não é necessariamente lírica. Um problema deste género de separação é a subtracção das possibilidades de cada filme, ou promessa de filme. As ideias feitas sobre o que é uma coisa e outra tendem a estender-se ao que deve ser esperado e reconhecido em ambas, e à relação que estabelecem com o espectador – assim reforçando a sua distância mútua, e insinuando a impressão da sua incompatibilidade, ou antagonismo.

Prefiro pensar num cinema que reflicta sobre a sua linguagem sem definir completamente o caminho que está a percorrer. Num tal espírito, a narrativa e a poesia apresentadas em contraponto – ou na ausência – uma da outra tornam-se categorias sem grande utilidade. Quando erigidas como elemento operativo, as definições cómodas, aqui como em tantas instâncias da arte (e da literatura…) tornam-se menos simplificação produtiva que sabotagem da complexidade – e da poesia…

 
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Quatro imagens de A Arca do Éden (Marcelo Felix, 2011)

 

Marcelo Felix é cineasta.

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