Inquérito: Cinema e Literatura

Existirá um cinema em diálogo (contra ou em tensão) com a literatura? Sempre, por definição? Em que medida será operativo pensar um cinema narrativo e um cinema poético ou lírico?

responde SANDRO AGUILAR

 

Por motivos que se prendem com os limites perceptivos inerentes à sua fruição (a linearidade temporal, simultaneidade da imagem e som, cadência e ritmos perceptivos, composição visual, etc…), a linguagem cinematográfica, embora situando-se numa zona de confluência de várias formas de expressão artística, entre as quais se inclui naturalmente a literatura (sobretudo quando este assume um caracter predominantemente narrativo e/ou dramatúrgico, ou seja, quase sempre), é comparativamente primitiva e está longe de ter o espectro ou as variantes literárias.

Enquanto ao leitor cabe-lhe a responsabilidade de projectar a imagem sugerida nas palavras (em respeito ou não pelo que explicitamente se descreve), muitas vezes tendo que lidar com palavras que não possuem um referente imagético directo, pensamentos ou sensações; ao espectador é pedido que suspenda muito do seu imaginário e quase toda a sua capacidade de abstracção para aceder ao simulacro que explicitamente lhe é oferecido, uma arte sem omissão, sem latência, onde o essencial dos seus sentidos se articula à distância de um plano. O primeiro plano pergunta, o segundo responde. Digo isto mantendo intacto o meu particular fascínio por estas limitações intrínsecas ao cinema enquanto forma de expressão. O cinema regista e produz furiosamente aparições, é esse o seu caracter religioso, o de prometer o milagre (hipnótico) que organiza, quase sempre simplifica e devolve fórmulas da realidade ao seu espectador; nos melhores exemplos usando essa relação directa com a realidade para tactear os seus mistérios.

É claro que, num mundo perfeito, o cinema poderia aproveitar o seu potencial para algo mais do que importar à literatura os seus modelos e estruturas ficcionais, os traços dominantes dos seus personagens, as suas figuras de estilo. O compromisso narrativo continua na base do contrato de um filme com o seu espectador, este é o alicerce quase exclusivo da sua mercantilização; e é seguramente uma das razões fundamentais para o cinema ser tradicionalmente conservador nas suas ambições formais. A passividade infantil que propõe será, nos tempos que correm, uma das suas características mais sedutoras, mas não deixa de ser perversamente alienante. Não penso que a evolução da linguagem cinematográfica, tal como aconteceu aliás em todas as formas artísticas, se possa fazer sem o acompanhamento crítico do seu espectador; duvido que a resposta para um cinema capaz de cumprir as suas potencialidades seja especificamente desviá-lo para o lirismo, o não figurativo ou qualquer negação das suas propriedades imediatas, do seu apelo intrínseco ao concreto (que não se devia confundir por nenhum momento com o especificamente narrativo). No entanto, nenhuma verdadeira revolução na linguagem se faz comprometendo a inteligibilidade do objecto artístico; o paradoxo começa quando um qualquer gesto de ambição formal é recusado pelo seu interlocutor sob pretexto de não reconhecimento de uma gramática especifica (cinematográfica, audiovisual) que nas suas combinações possui uma forma estabelecida. Ou seja, é operativo pensar uma alternativa a um cinema predominantemente narrativo na condição de haver um espectador disponível para outro cinema qualquer, algo que, confesso, parece-me cada vez mais improvável.

 

Sandro Aguilar é cineasta, produtor e montador.

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