Inquérito: Cinema e Literatura

Existirá um cinema em diálogo (contra ou em tensão) com a literatura? Sempre, por definição? Em que medida será operativo pensar um cinema narrativo e um cinema poético ou lírico?

responde GONÇALO TOCHA

 

Depende. Depende de quem o faz e porque o faz. Como se costuma dizer (ainda que utopicamente) que o cinema reúne todas as artes, um filme pode e deve então utilizar/jogar com tudo o que lhe der jeito. O Cinema é uma arte jovem, recente, e por isso rebelde, se a deixarmos ser rebelde. A escrita é milenar, entendida como eterna, a base das civilizações modernas e a literatura a sua ferramenta de entender o mundo. Tudo o que lhe vier a seguir será sempre subsidiário. A mais intensa relação entre literatura e cinema não passa, a meu ver, pela adaptação dos livros a filmes (o correspondente imaginário que o livro inscreve é tantas vezes frustrado pela imagem adaptada ao ecrã). A literatura organiza (ou estilhaça, o que é a mesma coisa) o discurso. O que a literatura tem de mais fecundo é a possibilidade do mundo levada ao infinito. Através da palavra podemos “ver” e “imaginar” tudo. O cinema só poderá ficar a perder. Resta-lhe então tomar o impulso literário como inspiração e usar tudo o resto que a literatura não tem: o som. Eu como escritor frustrado (era o que pensava ser entre os 18 e os 23 anos) fui fazendo filmes a pensar nos livros que nunca irei escrever. Mas não livros de ficção (que são coisas muito pesadas) e sim imaginando os cadernos, os apontamentos, as notas soltas, os fragmentos de diários. Os guiões para filmes (ou o destino da nossa vida) são sempre para desrespeitar, a história faz-se enquanto se filma (ou se vive). Escrever, imaginar, filmar, não organizar nada, espalhar, esperar, dispersar, colher.

As mesmas questões que se colocam na literatura entre narrativa e poesia, colocam-se no cinema. Claro que a divisão entre um cinema narrativo e um cinema poético é uma imposição do mercado para separar as águas e dizer ao público o que deve ir ver. A divisão existe na cabeça de quem o faz. Tudo é, mais uma vez e sempre, possível. Todo o filme tem narrativa, seja uma história que se segue do princípio ao fim (não necessariamente por essa ordem), ou vários fragmentos de ideais sem relação casual. Hollywood vendeu ao mundo (e muitos produtores de cinema compraram) que se só se podem fazer bons filmes com uma boa história. Balelas! O instinto de cada homem é surpreendente se deixar o fluxo da imaginação correr. Buñuel fazia grandes filmes com argumentos péssimos que ninguém queria pegar. Mekas fez filmes inesquecíveis com base na sua própria vida, deixando escorrer o fluxo poético e fragmentário da memória. Enquanto espectadores (de filmes, de livros ou da nossa própria vida) estamos disponíveis para ver/ler tudo, desde que consigamos entender os pressupostos enunciados. Todas as pessoas são diferentes, todos os filmes deveriam ser diferentes.

 

Gonçalo Tocha é realizador e produtor de cinema.

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