Conta, peso e medida

JOÃO PEDRO DA COSTA

 

Há anos que o senhor Santos acreditava que o segredo de uma boa sesta é a sua duração: tem de ser sensatamente longa para ser reparadora e razoavelmente breve para impedir a indisposição. Por isso, lembrou-se um dia de tentar adormecer com uma pedra e deixar-se acordar quando a mesma caísse ao chão. O que ele não sabia, nem poderia saber, é que demoraria dois anos a encontrar a pedra ideal.

Inicialmente, acreditou que o peso da pedra era a única variável relevante: quanto mais pesada fosse a pedra, menor seria a duração da sesta; quanto mais leve, maior. Comprou então uma balança de pratos e, munido do seu caderno, começou a apontar o peso das pedras que ia testando. Todos os dias, depois do almoço, sentava-se no cadeirão da sala com uma pedra na mão e fechava os olhos. Quando, alguns minutos depois, acordava com o ruído da pedra a bater no soalho, voltava a cerrar os olhos e tentava decifrar no paladar da saliva os sinais do corpo: fadiga ou indisposição? Ao fim de alguns meses, e apesar de alguns inevitáveis erros, foi conseguindo estreitar cada vez mais os intervalos de peso da pedra desejada e chegou mesmo a conhecer uma ou outra vez o frenesim inconfundível da aproximação. Contudo, ao olhar para as tabelas e gráficos do caderno, era por de mais evidente que havia um factor desconhecido que interferia com o rigor dos cálculos e das medições. Chegou a pensar que tal se deveria a variações do seu próprio peso e procurou introduzir uma certa regularidade no horário e na quantidade de comida que ingeria nas refeições. Acrescentou então uma terceira coluna na tabela, ao lado da do peso das pedras e das eventuais observações, com o peso do seu próprio corpo. No entanto, mesmo após ter conseguido estabilizar esse segundo factor, os cada vez mais reduzidos intervalos que ia definindo revelavam-se instáveis e, mais grave ainda, incongruentes. Num primeiro momento, especulou sobre a questão da forma, mas o senhor Santos, sempre pragmático, rapidamente afastou essa hipótese pelo facto de o leque das possibilidades ser praticamente infinito e, por isso mesmo, inalcançável.

Foi então que se lembrou da mão.

Todos os testes e cálculos tinham sido levados a cabo com a pedra na sua mão direita e essa não tinha sido uma decisão pensada, mas apenas um fruto do acaso ou, quando muito, a tendência natural de um dextro. Quase febril com a descoberta, desenhou com um lápis vermelho um risco horizontal na folha do caderno e congratulou-se com o facto de ter conservado e catalogado todas as pedras que tinha testado: 439. Seu propósito era inequívoco: refazer, com mão esquerda, pedra a pedra, sesta a sesta, todo o percurso desta sua viagem pela escuridão e comparar os resultados. Ao fim de algumas semanas, a disparidade era evidente. Os intervalos, outrora hesitantes e pouco precisos, possuíam agora um rigor belo e matemático. Numa tarde, chegou mesmo a determinar com exactidão, através da aplicação da regra dos três simples, a pedra que lhe proporcionaria, finalmente, o repouso imaculado. Contudo, resolveu não saltar etapas, não tanto pelo facto de ser supersticioso, que era, mas sobretudo por sentir um certo e inconfessável prazer em prolongar a espera.

Quando finalmente chegou o dia em que iria testar a pedra que sabia ser a que procurava há quase dois anos, não conseguiu reprimir uma certa tristeza. Agarrou a pedra e olhou longamente para ela. Era uma pedra absolutamente banal, feita do que parecia ser granito, sem forma precisa e de cor irregular. Percebeu que o facto de saber o exacto peso da pedra, ou mesmo o de um hipotético geólogo lhe determinar a sua complexa constituição, não dissolveriam em nada o seu mistério. Antes de mergulhar na escuridão, calculou no caderno a razão exacta entre o seu peso e o da pedra, não por lhe interessar o resultado, mas talvez apenas para se distrair do nervoso miudinho que, de repente, ameaçava perturbar-lhe a digestão. Pousou o caderno, respirou fundo e agarrou a pedra com a mão esquerda. Fechou os olhos e, para sua grande surpresa, não lhe custou nada adormecer.

 

João Pedro da Costa é música, lavoura e corridas.

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